As bases históricas e teóricas que deram origem à crítica da indústria cultural

Posted on 29/10/2007

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Por Michel Aires de Souza 

 

            Em 1923 foi fundado em Frankfurt o Instituto para a Pesquisa Social, cujo objetivo era criar um grupo que estudasse  o movimento operário europeu numa perspectiva marxista. O primeiro administrador do Instituto foi Carl Grumberg,  historiador vienense que se voltou aos estudos históricos do movimento operário e do socialismo. Grumberg  permaneceu no cargo até 1927, quando foi subtituído por Max Horkheimer que deu um novo viés aos estudos marxistas. Com Horkheimer o Instituto se tornou um grande centro interdisciplinar e de análise crítica dos problemas do capitalismo. Nessa época foi fundada a “Revista de Pesquisa Social” como veículo de produção e divulgação dos estudos marxistas. A revista foi lançada em 1932 e durou nove anos, sendo Horkheimer seu editor.  

        Desde que foi fundado o Instituto para a Pesquisa Social, o grande objetivo dos teóricos de Frankfurt era discutir e aprofundar a teoria marxista, com o objetivo de analisar a época presente.  Devemos lembrar que neste período o homem moderno teve a experiência da primeira guerra mundial, da vitória do Nazismo e da derrota das esperanças revolucionárias. Era uma época de desilusão e de ceticismo por parte dos intelectuais europeus. Mas também era uma época de lutas revolucionárias, como a revolução Russa (1917), a proclamação da república alemã (1918) e de convulsões sociais na Polônia, França e Itália. Dessa forma os teóricos de Frankfurt tentavam retomar a tradição marxista para explicar aquele momento histórico, voltavam-se à teoria tentando aprofundá-la para retomar a prática revolucionária.

        Desde que Horkheimer tornou-se diretor do Instituto de Pesquisa Social, ele conseguiu aproximar junto de si intelectuais de grande envergadura, como Pollock, Fromm, Wittfogel, Gumperz, Adorno, Marcuse, Benjamim. Estes três últimos somente se filiaram na fase da imigração do Instituto para os Estados Unidos, sendo seus maiores colaboradores.

       Em 1933 o governo autoritário Nazista fecha o Instituto por ser hostil ao Estado. Já neste período os teóricos investigavam os mecanismos que possibilitavam o autoritarismo e a derrota das esperanças revolucionárias. Eles produziram um trabalho de grande fôlego, que foi publicado em 1936 com o título “Estudos sobre Autoridade e Família”. Neste estudo eles pesquisavam a estrutura da personalidade da classe operária na Europa, tentando entender por que a classe operária perdeu sua missão histórica enquanto classe. Nesta época a classe operária submetia-se a formas de domínio social autoritária contrária aos seus ideais de emancipação. O objetivo deste estudo era entender a relação entre a macro-estrutura capitalista com a micro-estrutura familiar. Já nessa época tentava-se unir marxismo com freudismo. Algo que se tornou um dos nortes teóricos durante toda história do Instituto.

          Com o fechamento do Instituto na Alemanha abre-se uma nova sede em Genebra, mas as ameaças nazistas atingiam toda Europa. Com isso, Horkheimer em 1934 decide aceitar a proposta da Universidade de Columbia para ter sua sede em Nova York. Com a imigração, os trabalhos do Instituto sofrem um grande impacto da cultura norte-americana. É nesse período que Horkheimer escreve sobre os fundamentos da Teoria Crítica. O seu texto “teoria crítica e teoria tradicional” (1937), texto que funda as bases da teoria crítica, surge impulsionado pelas tendências positivistas e empiristas das universidades americanas, em particular pelo positivismo nas ciências sociais. Com isso, Horkheimer lança as bases de sua filosofia social assentada no marxismo e na dimensão histórica dos fenômenos. Neste texto ele contrapõe o pensamento lógico-dedutivo de Descartes, representativo da teoria tradicional , ao pensamento histórico-dialético de Marx, representativo da teoria crítica da sociedade.

        Outro trabalho importante no período de imigração foi “The Authoritariam Personality” (1950). Este trabalho foi desenvolvido em conjunto pelos teóricos de Frankfurt. É um estudo eminentemente empírico, cujo objetivo era analisar a cultura norte-americana, fazendo uma reflexão sobre a personalidade e sua relação com as condições políticas e sociais deste país. Este estudo dá continuidade aos “Estudos sobre Autoridade e Família” desenvolvido em Frankfurt. Tal como aquele, Marx e Freud são os teóricos principais que norteiam a análise da personalidade autoritária.

          Contudo, o trabalho mais importante escrito nos Estados Unidos foi sem duvida os três ensaios da “Dialética do Esclarecimento” (1947) escrito por Adorno e Horkheimer. Este livro detectou no século XX a crise da razão e a dissolução do indivíduo autônomo que esteve ligado ao iluminismo e ao idealismo alemão. O livro mostra-nos que, com o progresso da razão, em vez da humanidade entrar em um estado verdadeiro humano de igualdade, liberdade e felicidade para os indivíduos, ela sucumbiu a um estado de barbárie e regressão social. Eles chegaram a está conclusão, pois tiveram a experiência da primeira e segunda guerra mundiais, além de serem testemunhas dos doze milhões de judeus que foram vítimas do totalitarismo que assolava a Europa na primeira metade do século XX. O projeto da razão iluminista foi o de livrar os homens do medo, da ignorância, dissolvendo os mitos e, substituindo a imaginação pela razão e saber, buscava-se a harmonia entre o entendimento humano e a natureza das coisas. Contudo, o que aconteceu foi exatamente o contrário, a razão se transformou em um simples instrumento, o que permitiu sua utilização a serviço da barbárie e da regressão social.

          Dos três ensaios da “Dialética do Esclarecimento” o mais importante foi o ensaio sobre a “Indústria Cultural”, pois lançou os holofotes sobre os teóricos de Frankfurt. Neste ensaio Adorno e Horkheimer investigam o poder de manipulação dos meios de comunicação de massa sobre a consciência dos indivíduos, que se tornou tão caro ao movimento do proletariado, tanto na Europa, como nos Estados Unidos, minando as esperanças revolucionárias de emancipação. Trata-se desse conceito que procuramos analisar aqui. O que nos interessa saber nesta primeira parte do nosso estudo é quais os fatos históricos e as contribuições teóricas que influenciaram a crítica à indústria cultural.

        Começaremos por analisar os fatos históricos. Em nossa opinião foram dois acontecimentos importantes que contribuíram para a primeira formulação da crítica à indústria cultural, tal como aparece na Dialética do esclarecimento. São eles, a propaganda Nazista e o contato com a cultura de massa norte-americana.

          O primeiro contato do Instituto foi com a propaganda Totalitária. Para entender as motivações ocultas da propaganda nazista na Alemanha vamos comentar o documentário “A arquitetura da destruição” de Peter Cohem. Segundo sua tese, o Nazismo não tinha objetivos políticos, mas estéticos. O desejo de Hitler era embelezar o mundo. O sonho de pureza era criar um mundo mais harmonioso. Hitler, ele mesmo, era um artista medíocre e sonhou um dia em ser arquiteto. A grande parte do primeiro escalão de Hitler tinha-se empenhado na carreira artística. Goebbel, chefe da propaganda, escreveu um romance, poesias e peças. Rosemberg, ideologista do partido, pintava e tinha ambições literárias. Von Schirach, líder da juventude, era um poeta. O próprio Hitler pintou aquarelas, cartões postais e quadros. Segundo Cohem, Hitler tinha três fixações: tranformar sua cidade natal, Linz, num grande centro artístico e cultural; Richard Wagner que moldou sua visão de mundo e deu as bases do seu anti-semitismo; e a antiguidade clássica que era um ideal de arte e de valores. Hitler nunca abandonou essas três idéias. Com isso, quando assumiu o governo alemão quis transformar o mundo em obra de arte. Queria unir vida e arte. Criou a propaganda Nazista, desde uniformes, bandeiras e estandartes. Ele deu forma ao Nazismo com seus desenhos e instruções. A própria insígnia nazista foi desenhada por ele em 1923. Foi através da propaganda que Hitler conseguiu dar vazão a sua ambição artística. Quando tomou o poder, uma das primeiras medidas foi criar em 13 de março de 1933 o Ministério da Propaganda, cujo diretor nomeado era Joseph Goebbels. Este foi o grande responsável pela introdução da saudação “Heil Hitler”, considerado uma de suas maiores realizações no campo da propaganda. Com Goebbels a propaganda nazista atingiu todas as esferas da vida social, nas ruas, escolas, fabricas, estádios, prédios, deveria circular mensagens, slogans e símbolos do partido. Ele também criou os grandes espetáculos públicos difundindo a estetização da política, universalizando os ideais hitleristas. O rádio e o cinema transformaram-se em instrumento para incutir os ideais de beleza, limpeza, corpo saudável, ordem e harmonia pregados pela ideologia nazistas. Foi a través da ilusão, da catarse com a ajuda da arte, difundida através da propaganda que Hitler conseguiu criar um momento de esquecimento no povo alemão, satisfazendo sua megalomania e cometendo suas atrocidades contra o povo Judeu.

            Adorno antes de se exilar na Inglaterra em 1934, foi testemunha da criação do ministério da propaganda nazista. Neste período ele tevê a percepção do poder de manipulação da propaganda, em particular do rádio e cinema como meios de disseminação da idéias de Hitler. “Segundo revelações feitas a Habermas pela viúva de Adorno, o ensaio sobre a indústria cultural pode ser atribuído quase que na integra a Adorno”. (FREITAG, 1994, p. 66-7)

              Apesar dessa experiência na Alemanha ser significativa, quando chegou aos Estados Unidos em 1938, a primeira coisa que impressionou Adorno foi a cultura americana, que era organizada em bases industriais. Ele ficou espantado com o planejamento racional e a padronização dos meios de comunicação de massa. O estados Unidos já naquela época tinha um aparato produtivo imenso desde 1910 quando a industria cinematográfica foi criada.

          Na Alemanha Adorno já havia escrito sobre a música e já reconhecia que ela era um produto criado pelas relações de produção capitalista. Essa idéia foi mostrada em seu texto “Sobre a situação social da música” em 1932. Já no período de emigração, os estudos sobre a música levaram Adorno a ter um grande conhecimento dos principais mecanismos de funcionamento da indústria radiofônica nos Estados Unidos. Ele também tomou conhecimento da grande indústria cinematográfica desde sua fundação com a criação dos grandes estúdios de Hollywood. “Ao que parece, Adorno até freqüenta os bastidores da “sétima arte”, como a recepção em Malibu, com a presença de Charles Chaplin, dentre outros astros e estrelas (…)”. (Duarte, 2003, p.19).

            Essas duas experiências, o contato com a propaganda nazista e o contato com a cultura industrial de massa americana, foram essenciais para a elaboração de uma teoria crítica da indústria cultural. Além disso, dois textos que analisam a arte foram significativos para a elaboração dessa teoria, o texto de Marcuse, “Sobre o caráter afirmativo da cultura” (1937) e o Texto de Walter Benjamim, “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. Ambos os textos denunciavam a dimensão ideológica da cultura e da arte.

          Marcuse em seu texto “Sobre o caráter afirmativo da cultura” tentou-nos mostrar que os ideais da época iluminista, de liberdade, felicidade, fruição do prazer, igualdade, verdade, bondade e beleza, ficaram apenas no plano da arte e da cultura espiritual burguesa, não se manifestando no plano da realidade. Foi o que ele denominou de cultura afirmativa, ou seja, “aquela cultura pertencente à época burguesa que no curso de seu próprio desenvolvimento levaria a distinguir e elevar o mundo espiritual anímico, nos termos de uma esfera de valores autônomos, em relação à civilização. Seu traço decisivo é a afirmação de um mundo mais valioso, eternamente melhor, que é essencialmente diferente do mundo do fato da luta diária pela existência, mas que qualquer indivíduo pode realizar para si ‘a partir do interior’, sem transformar aquela realidade de fato”. (MARCUSE, 1997, 95-6)

           Marcuse entende o conceito de cultura como o entrelaçamento entre o mundo espiritual e simbólico com o processo histórico da sociedade, ou seja, o entrelaçamento entre o plano da reprodução ideal (cultura) e o plano da reprodução material (civilização). Contudo, no processo histórico onde se afirma a cultura burguesa houve a separação dessas duas esferas. Na práxis material da época burguesa o mundo espiritual é banido do plano material e, assim, a cultura foi elevada a uma falsa universalidade. “A separação da sociedade burguesa em dois mundos – o da reprodução material da vida (civilização) e o mundo espiritual das idéias, da arte, dos sentimentos, etc (cultura) – permitiu a essa sociedade justificar a exploração e alienação que a grande maioria sofria nas linhas de montagem e de produção, na administração burocratizada, e no cotidiano miserável” (FREITAG, 1994, p. 69).

          Através dos bens culturais a sociedade burguesa anuncia um mundo melhor, mais justo, com liberdade, felicidade, amor, igualdade. Esses ideais sempre estiveram presentes nas obras de arte, na literatura, na música simbolizando que a cultura é uma promessa de felicidade. Contudo, esses ideais pertencem a um mundo mais puro, transcendente, não cotidiano. “Foi somente na arte que a burguesia tolerou a realização efetiva de seus ideais, levando-os a sério como exigência universal” (MARCUSE, 1997, p.113). Para Marcuse, portanto, a cultura afirmativa é em sua essência idealista e ideológica. Ela legitima a forma de domínio social vigente. As necessidades do indivíduo ela responde com características humanitárias: o sacrifício, a honestidade, a beleza da alma, a amizade, o amor. “Se na época do aceno combativo da nova sociedade todas essas idéias possuíam um caráter progressista não restrito à organização vigente da existência, entretanto com a estabilização da dominação burguesa elas se colocam crescentemente a serviço do controle das massas insatisfeitas e da mera auto-exaltação legitimadora: elas ocultam a atrofia corporal e psíquica do indivíduo” (MARCUSE, 1997, p.98-9).

           A cultura afirmativa se refere não a um mundo melhor, mas mais nobre. O que importa não é a transformação da ordem material, mas trata-se de uma mudança na alma do indivíduo. É a interioridade que deve se modificar: liberdade, bondade, beleza se tornam qualidades da alma. “A beleza da cultura é sobretudo uma beleza interior e pode alcançar o exterior apenas partindo do interior. Seu reino é essencialmente um reino da alma (Seele). (MARCUSE, 1997, p. 103). A liberdade da alma foi usada como ideologia para encobrir a miséria, sofrimento, repressão, martírio e servidão.

           Com o regime totalitário houve uma “auto-abolição” da cultura afirmativa. A burguesia entra em conflito com sua própria cultura. A vida privada do indivíduo não é mais preservada, agora o indivíduo tem que ser subordinado à disciplina do Estado. Há uma luta do autoritarismo contra os ideais liberais de humanitarismo, individualidade e racionalidade. Surgem novos valores como raça, povo, sangue, terra, nacionalismo. O indivíduo é mobilizado a luta, a energia, ao corpo saudável, a defesa da pátria. A comunidade interior abstrata dá lugar a uma comunidade exterior abstrata, mas mantém a contradições efetivas do capitalismo monopolista. A realidade da repressão, trabalho árduo e sujeição ao capital permanecem sem modificação. “Tal como acontecia no culto idealista da interioridade, agora o culto heróico do Estado serve a uma ordem fundamentalmente idêntica da existência social” (MARCUSE, 1997, p. 127)

           O grande interesse de Adorno pela análise de Marcuse é a percepção deste sobre o caráter ideológico da cultura e da arte. Mas o que Marcuse ainda não tinha percebido por falta de instrumentos teóricos, foi que a cultura e a arte a partir do século XX estavam entrando numa nova fase de desenvolvimento, ou seja, estavam se tornando industrializadas. Esse acontecimento se deu primeiramente nos Estados Unidos e depois atingiu toda a Europa. Tal fato foi percebido por Benjamim em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Esse texto foi primordial para uma crítica da “Indústria cultural” feita por Adorno e Horkheimer.

       Foi provavelmente depois dessas duas experiências, a propaganda Nazista e a indústria cultural do entretenimento americana, juntamente com os textos de Marcuse e benjamim, que surgiu em 1944, a primeira versão da Dialética do esclarecimento, livro que através de seu ensaio “Indústria Cultural” popularizou os teóricos de Frankfurt e se tornou referência aos estudos do assunto.

 BIBLIOGRAFIA

DUARTE, R. Teoria Crítica da Indústria Cultural. Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2003.

FREITAG, B. A teoria Crítica ontem e hoje. Brasiliense, São Paulo, 1994.

NOBRE, M. A teoria Crítica. Zahar, Rio de Janeiro, 2004

 

       

   

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