Herbert Marcuse: a relação entre teoria e prática

Posted on 12/10/2008

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Por Michel Aires de Souza

I. Introdução

Para Marcuse as possibilidades de libertação são antes de tudo possibilidades históricas. Com o progresso tecnico e científico tornou-se possível a eliminação gradual do trabalho alienado, da repressão e da infelicidade humana.  Já na década de cinqüenta Marcuse previu o fim da sociedade do trabalho. Ele afirmava que o pensamento ocidental descobriu uma nova forma histórica  de razão superior, fundamentada na contemplação, fruição e receptividade do prazer,  e que se oporia à razão instrumental capitalista, fundamentada no cálculo, operação e procedimento eficaz.  Ele  sabia, já naquela época,  que tinhamos todas as forças materiais e intelectuais necessárias à realização de uma sociedade livre, pois o progresso humano poderia possibilitar a eliminação da pobreza, fome, miséria e trabalho alienado. O que faltava era a consciência desse fato. O grande problema para o materialismo revolucionário era recuperar à autonomia crítica dos indivíduos. Os indivíduos deveriam se libertar dos seus contentamentos e confortos narcotizantes e de sua escravidão suave e democrática. Mas como isso seria possível? Como seria possível recuperar à autonomia crítica dos indivíduos?

Apesar de todas as revoluções terem sido traídas, Marcuse sempre acreditou na possibilidade histórica de uma nova realidade não-repressiva, assim como sempre acreditou na possibilidade histórica de um novo indivíduo autônomo. Pensando nisso, ele construiu uma teoria psicanálitica-estético-política voltada à utopia de uma sociedade não-repressiva.  A arte, a psicanálise e educação política têm impotância fundamental nessa libertação. Primeiramente, trataremos do papel da arte e, respectivamente, trataremos do papel da psicanálise e da educação política na transformação da realidade e na fundamentação da autonomia crítica dos indivíduos.

II. Postulado estético

A teoria estética de Marcuse postula que a arte possui autonomia e conteúdos de verdade, produz conceitos para uma sociedade não repressiva e reivindica as promessas que um dia foram traídas e, em virtudes de suas qualidades, podem servir de padrão para uma sociedade livre. A arte pode criar formas e processos de realidade nunca vistos antes. Além disso, ela é uma arma política que deve desenvolver uma nova sensibilidade para a transformação da realidade.

Para Marcuse a existência humana deveria ser transformada em obra de arte. Se a forma da realidade é o da opressão e barbárie, deveríamos, como o artista, criar uma forma de realidade que fosse contemplação, fruição e receptividade do prazer.    Com o fim da sociedade do trabalho Marcuse prevê que  as formas de trabalho no futuro seriam lúdicas.  O trabalho seria modelado pela sensibilidade e imaginação de homens livres, que tivessem consciência de pertencerem a uma totalidade de indivíduos livres. O processo de produção tornar-se-ia um processo de criação. A consciência livre desenvolveria uma ciência e tecnologia com a liberdade necessária para organizar o trabalho e as relações entre os homens, de modo que a vida humana fosse protegida e recompensada. “A técnica deveria então se tornar arte, e a arte serviria para formar a realidade”.(Marcuse, 1969b, p.35).

Na realidade prevista por Marcuse, o trabalho socialmente útil seria diferente, seria assimilado como o livre jogo das faculdades humanas. O jogo, como sabemos, é determinado pelo princípio de prazer. Sua característica principal é ser gratificador em si mesmo. A ação específica, o movimento, a ação, causam prazer na medida em que ativam as zonas sensíveis do corpo. O trabalho deve ser acompanhado da reativação do erotismo polimórfico. O trabalho seria sublimação prazerosa.  Essa idéia de relações libidinais de trabalho surge em Fourier. Marcuse assimila em sua teoria os conceitos de “attraccion passionnée” ou “Travail attrayant”  Para Fourier o trabalho deve ser atraente e prazeroso, pois  é possível a criação de uma  cooperação agradável entre os indivíduos. Essa atração têm três objetivos principais: “a criação do luxo e do prazer dos ‘cinco sentidos'; a formação de grupos libidinais (de amor e amizade) e os estabelecimento de uma ordem harmoniosa organizada por grupos de trabalho, de acordo com as ‘paixões individuais’ (‘jogo’ interno e externo das faculdades)”. (Marcuse, 1955, 189).

Na sociedade  Marcuseana, a redução quantitativa do trabalho necessário poderia se transformar em liberdade e em uma melhor forma e qualidades de vida. O trabalho automático, irritante e desprazeiroso seriam abolidos e substituídos pelo trabalho lúdico.  Tal ambiente propiciaria a liberdade dentro da esfera da necessidade. O trabalho seria organizado tendo em vista a economia de tempo e espaço para o desenvolvimento integral do indivíduo. Seria um novo mundo estético. Todas as esferas da vida social seriam organizadas de tal forma que propiciaria o pleno desenvolvimento do indivíduo e de suas faculdades receptivas e de fruição do prazer. O homem modelaria a realidade pela sua imaginação produtora, transformando a realidade em obra de arte.

III. Postulado psicanalítico

Para Marcuse, Freud deixou bem claro que “a psicanálise deveria transformar todos os pacientes em revolucionários”. (Marcuse, 1969a, p. 36) Mesmo que a psicanálise, como teoria e prática, esteja submetida à ordem e ao princípio de realidade existente, há no interior da ordem constituída, fissuras, interstício onde se pode praticar uma psicanálise não repressiva. “Há psicanalistas que permanecem, tanto quanto é possível, fiéis aos aspectos radicais da psicanálise” (Habermas, 1986, p.256)

Na medida em que a psicanálise como teoria se fundamenta em sua prática clínica, ela desvela ao indivíduo, que sua história é história de sua repressão. Com isso, o indivíduo entenderia as restrições impostas pela realidade, miséria, alienação e sofrimento ao qual está sujeito, entenderia melhor suas verdadeiras carências e necessidades.   A memória do passado, onde o indivíduo ainda era necessidade, vontade e liberdade, permanece sustentada pelo inconsciente. Na busca de sua gratificação integral, as verdades do inconsciente, embora tenham sido expulsa da consciência, permanecem reclamando um mundo melhor. A memória guarda o “passado sub-histórico” do indivíduo reprimido.  Para  Marcuse,  a memória tem uma “função terapêutica” e uma “valor de verdade”. É esta função terapêutica que pode tornar o indivíduo revolucionário. O valor de verdade da memória  reside  na função de conservar as promessas e potencialidades que foram traídas no passado, mas que nunca foram esquecidas, pois são inconscientes, permanecem reclamando um mundo melhor.

Segundo Marcuse, o passado redescoberto de impulsos proibidos na infância, começa a nos dizer à verdade que a nossa consciência nega. Com isso, o indivíduo apresenta padrões críticos, reivindicando as promessas que um dia foram traídas. Cabe a psicanálise, portanto, restabelecer a memória da gratificação. A restauração da memória surge acompanhada da restauração do conteúdo cognitivo da imaginação. As fantasias da imaginação, que estão ligadas ao princípio de prazer, preservam a memória do passado através dos desejos não realizados. Dessa forma, para Marcuse, as verdades da imaginação devem se tornar exigências da ação política. “A imaginação não tem somente um papel constitutivo nas manifestações perversas da sexualidade; a imaginação artística também liga as perversões às representações de liberdade e de satisfações integrais”. (Marcuse, 1955, p.54)

Os sonhos, desejos e fantasias devem se tornar exigências de um mundo melhor. Dessa forma,  “a libertação do passado  não conduz a sua reconciliação com o presente, contra a coação auto-imposta da descoberta, a orientação sobre o passado tende a tornar-se uma orientação sobre o futuro. A ‘recherche du temps perdu’ torna-se o veículo da futura libertação”. (Marcuse, 1955, p.29)

Através da libertação psicanalítica da memória, o indivíduo se sentiria livre de suas restrições e repressões na estrutura pulsional. “A libertação psicanalítica da memória faz resplandecer a racionalidade do indivíduo reprimido”. (Marcuse, 1955, p.29).  A razão recuperaria sua antiga natureza como pulsão, visaria, com isso, a fruição e a receptividade do prazer, o enriquecimento e o embelezamento da vida. A psicanálise é, portanto, um instrumento político para o materialismo revolucionário. É um postulado teórico e prático da ação revolucionária.

IV.  Postulado político

Na opinião de Marcuse, para haver uma revolução libertadora, é necessário que os indivíduos legitimados por uma consciência autônoma, sejam capazes de julgar a sociedade contemporânea. Mesmo sendo indivíduos singulares com vontades e interesses particulares, devem transcender a mera subjetividade. Para isso, devem ter a capacidade de informação e entendimento para uma análise e avaliação das sociedades em que vivem.

O grande problema que se coloca ao materialismo revolucionário, é que o radicalismo do proletariado e dos excluídos é contrariado pela passividade das consciências. O pensamento e comportamentos socialmente exigidos destroem a predisposição para a alternativa, que é a liberdade sem exploração.  Com efeito, esse materialismo deve ter por objetivo eliminar o contentamento e a passividade dos indivíduos.

Para Marcuse, a consciência é o princípio e o primeiro passo para mudar a existência social. Com isso, a arte e psicanálise devem se tornar instrumentos políticos na emergência de um novo indivíduo, devem desenvolver o lado sensível da razão. Contudo, não são suficientes para o esclarecimento político dos mesmos. Para que exista uma realidade sensível, estruturada por uma racionalidade do prazer, é necessário que os indivíduos sejam capazes de julgar, avaliar e criar os meios propícios para fundamentar uma nova  realidade. Com isso, eles amadureceriam e compreenderiam as forças históricas que poderiam transformar a sociedade em uma verdadeira universalidade. Em função disso, surgiriam novos valores morais, estéticos e intelectuais que apontariam para a construção de uma existência pacificada.    É somente através do pensamento político que o materialismo revolucionário poderia desenvolver a função crítica da razão. Essa forma de pensamento compreenderia as forças históricas e a totalidade de suas contradições.  Com isso, é nas escolas e universidades que se deve fomentar “a construção da ponte entre o que ‘deve ser’ e ‘,o que é´’, entre teoria e prática”. (Marcuse, 1969b, p. 85)

Nas escolas e universidades os estudantes deveriam estudar os grandes movimentos não conformistas e deveriam fazer uma profunda análise e crítica das sociedades atuais. Eles seriam educados para romper com suas maneiras de ver, sentir e compreender as coisas. Essa mudança teria que atingir a linguagem do indivíduo. Marcuse proclama uma “terapia da linguagem”, que poderia ser praticada nas instituições de ensino. As palavras e termos seriam despidos das distorções pelo stablishment: “a ruptura com a continuidade  da dominação tem que ser uma ruptura com o vocabulário da dominação”. (Marcuse, 1969b,p.49)

A consciência que deve surgir necessitaria de uma linguagem própria, pois seria necessário comunicar os novos valores. Os valores e conceitos universais de liberdade, igualdade e justiça, presente no vocabulário do stablishment, deveriam ganhar novos significados, se adequando a uma nova realidade. “Do ponto de vista histórico, é novamente um ‘período de esclarecimento’, que procede a mudança histórica, período de educação, mas educação que se traduz na praxis: manifestação, afrontamento, revolta”. (Marcuse, 1969b, p.74-5)

Enfim, através da educação e do desenvolvimento do pensamento político, Marcuse busca fomentar a prática política que leve a cabo desenvolver nos indivíduos a consciência das possibilidades transcendentes de liberdade. Com isso, essa prática deve envolver uma subversão cultural, que lute por uma nova cultura, que cumpra as promessas que um dia foram traídas.

V. Conclusão

Através da arte, psicanálise e da educação política  surgiria um novo homem. Na concepção socialista este novo homem é definido como aquele que se entrega as mais diversas atividades. Com o pleno desenvolvimento de suas faculdades, poderia haver o pleno desenvolvimento das forças produtivas, para além da organização capitalista, surgindo a liberdade dentro da esfera da necessidade. Com isso, haveria uma mudança nas próprias relações de produção. O processo de produção tornar-se-ia um processo de criação.

Para além da realidade repressiva, esse novo homem deveria elaborar novos modelos e fins de produção. Ele criaria inovações técnicas que pudessem gerar diferentes necessidades, as quais possa satisfazer.    Para Marcuse, essas novas relações e afinidades seriam o resultado de uma solidariedade biológica em trabalho e finalidade. Seria uma verdadeira harmonia entre as necessidades e objetivos sociais e individuais. Pode se, assim, escrever em seu ideal de natureza humana: de cada um suas capacidade a cada um segundo suas necessidade.

VI. Bibliografía

HABERMAS, Jurger. Perfiles filosóficos-políticos. Madri: Taurus,  1986.  p.  227 à 265.

MARCUSE, H. Eros et Civilization, Paris, Edtions de   Minuit,  1955.

MARCUSE, H. O fim da utopia . Rio de Janeiro: Paz e terra, 1969a.

MARCUSE, H.  Vers la Liberation. Paris: Ed. de  Minuit, 1969b.

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