A reprodução da desigualdade racial através da reprodução da violência simbólica

Posted on 14/11/2009

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Por Michel Aires de Souza

O nosso objetivo  é desvelar os mecanismos da reprodução da desigualdade racial. Por que esta desigualdade se reproduz? Quais são seus mecanismos? Como o preconceito e a discriminação se perpetua? O que procuramos demonstrar é que o racismo não se consolida mais como um conjunto de teorias ou idéias que justificam uma hierarquia entre raças ou etnias, mas que ela se perpetua ao nível do simbólico e da representação, muitas vezes de modo inconsciente e mecânico. Em conseqüência disso, é por meio  da violência simbólica, entendida como um conjunto de símbolos e representações agressivas e discriminatórias, que o preconceito e a discriminação se manifesta e reproduz.       

        O maior símbolo do preconceito e da discriminação é representado pelos baixos índices socioeconômicos da população negra e pelo acesso desta às posições na pirâmide social.

        A educação que é vista como o meio para se ascender na pirâmide social, apresenta ainda muitas disparidades. Enquanto os brancos estudam 8,8 anos, os negros passam apenas 6,8 na escola.  Dos que chegam à faculdade apenas 2,2 conseguem concluí-la. Se considerarmos os pardos como negros esta taxa aumentaria para 19,1 contra 77,8 dos brancos.*

 gráfico              Fonte: IBGE,1999/Inep, 2001

Na saúde a disparidade continua. Enquanto 54% dos atendimentos e 59% de internações nos SUS são de brancos, esses índices sobem para 76% e 81% respectivamente na população negra. Também é uma porcentagem pequena dos negros que possuem planos de saúde chegando a 14,7% em relação aos 32% de brancos que o possuem.

     Em relação ao desemprego as mulheres são mais injustiçadas, primeiro por serem mulheres e segundo por serem negras. A taxa de desemprego das mulheres negras é de 12,4%, enquanto a das mulheres brancas é de 9,4%. Entre os homens negros a taxa de desemprego é de 6,7%, enquanto a taxa de desemprego dos homens brancos é de 5,5%.

     A precariedade aumenta em relação ao recebimento do  bolsa família. Do total de famílias que recebem a bolsa família 69% são chefiadas por negros, mostrando que eles representam a população mais pobre do Brasil. Esta idéia também pode ser corroborada pelos dados de moradias nas favelas. São dois milhões de domicílios que ficam na favela, formando um contingente de oito milhões de pessoas. Desse montante de residências 66,1% são chefiados por negros enquanto 33% são chefiados por brancos.  

         Está  claro que os baixos índices socioeconômicos da população negra e a desigualdade de oportunidades demonstram que no Brasil há preconceito e discriminação racial.   Mas como o preconceito é aprendido? Como ele é assimilado e internalizado no imaginário popular?   Ele é aprendido  do convívio social desde a primeira infância em seu convívio com os pais e, mais tarde, através das práticas sociais, na escola, nas ruas, nas empresas, nas instituições e na mídia. O preconceito se acumulou desde a escravidão criando representações sociais e experiências  de subjugação e subalternidade que foram internalizadas tanto no negro como no branco. “A complexidade das relações raciais na sociedade brasileira foi construída com base no processo de escravização de africanos. Isto foi o que criou, ao longo de séculos de história, tanto no escravizado quanto no escravocrata, representações sociais e experiências de subalternidade que são, do ponto de vista individual, de uma fundura simbólica imensa, e que produzem, do ponto de vista social, um engessamento de lugares e de hegemonia”. (Lopes, 2007, 17)

          O racismo tornou-se natural em nossa atualidade, se naturalizou a tal ponto que se transformou num mecanismo inconsciente e automático. O preconceito se manifesta a níveis de representações e expressões que se solidificaram como fósseis correspondentes a estados de primitivismo na mente dos indivíduos. “As expressões que denotam o preconceito racial estão de tal forma impregnados na nossa sociabilidade que já ficaram naturalizados no nosso cotidiano, como padrão predominante de comportamento (…) (Lopes, 2006, p.22)   

         É no imaginário social que o preconceito insiste em se perpetuar. Brincadeiras, piadas, representações, classificação, conceitos, opiniões, certezas, categorias, achismos são os produtos e ingredientes simbólicos do preconceito e da discriminação racial.  As categorias criadas no dia- a -dia não podem ser ignoradas, nelas encontram-se o lugar da desigualdade. Bombom, moreninho, neguinho, mulatinho, entre outros são categorias afetivas que insistem em agrupar os negros em sua dessemelhança em relação aos brancos.  Você é um negro e não um branco.   “Essa origem da classificação por cor é carregada de um conteúdo marcadamente discriminatório, e com ele vêm junto conceitos, opiniões e certezas que informam, ao longo da nossa história, o lugar de cada um – brancos e negros – no imaginário social” (Lopes, 2007, p.17)

      Há também uma série de termos simbólicos que insistem em apagar, encobrir, disfarçar a origem étnico-racial. Os eufemismos como moreninho, moreno, moreno claro, escurinho fazem parte da etiqueta social procurando suavizar a cor negra, como se ela fosse algo ruim ou como se fosse má educação se referir a alguém como negro.    

        Há também muitas frases faladas no cotidiano que soam de forma natural e que reforçam o sentimento de desprezo ou de inferioridade.  Geralmente são frases com premissas ocultas.  “Nossa como ele é bonito para um negro”; “Ele que é o dono de tudo isso?”; “Eu quero uma meia-calça cor de pele”, “Adoro negras, são ótimas empregadas”, “Por que você não alisa o cabelo, vai ficar bonita”. “Maria faz parte da família, é uma negra feliz”.

       Também não podemos nos esquecer das piadas racistas que sempre são faladas em tom de brincadeiras e acompanhadas de risos, reforçando o preconceito racial: “é preto, mas é inteligente”; “é preto, mas é bonito”; “ninguém mandou ter cabelo ruim”; “quando não caga na entrada, caga na saída”. Apesar dessas brincadeiras serem feitas entre amigos ou parentes, não podemos negar que elas são de extremo preconceito e discriminação reforçando e perpetuando no imaginário popular a desigualdade racial.

           Em conflitos o preconceito se manifesta abertamente. Numa  desavença é comum o preconceito ser manifestado por meio  de xingamento racista como “macaco”; “urubu”;  “negro”, “nego fedorento”; “negão”. É mais comum esse tipo de agressividade entre alunos nas escolas. Geralmente o professor é complacente ou somente  chama a atenção do aluno, mas não faz um trabalho de conscientização permitindo assim que o racismo se manifeste e se perpetue no ambiente escolar.

        O corpo e as expressões corporais  são uma linguagem e como tal manifestam também o preconceito.  Muitas vezes o preconceito é manifesto em gestos e expressões faciais: um sorriso de escárnio, um olhar dissimulado, a indiferença, a arrogância.         

       O preconceito se manifesta não somente pelo que é dito, mas também pelo não dito, não falado, não mostrado. A escola é o lugar privilegiado da socialização onde os jovens devem aprender valores e regras do convívio social. É também o lugar da transmissão, estudo e reflexão de nossa identidade, cultura e formação. Contudo, na escola a história, a cultura, a música, os feitos dos heróis negros são esquecidas. Segundo Ana Lucia Lopes, coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil, “o currículo não é um elemento neutro e desinteressado na transmissão de conteúdos do conhecimento social. Ele esteve sempre imbricado em relações políticas de poder e de controle social sobre a produção desse conhecimento. Por isso, ao transmitir visões de mundo particulares, reproduz valores que irão participar da formação de identidades individuais e sociais e, portanto, de sujeitos sociais.” (Lopes, 2007, p.16). A escolha dos conteúdos nas escolas ao privilegiar o ponto de vista da história do branco e de sua cultura reproduz o preconceito e a discriminação. Essa omissão prejudica a formação e construção da identidade da criança negra, prejudicando sua auto-imagem e auto-estima. Além disso, prejudica o prestígio social e histórico da população negra e mestiça, perpetuando a desigualdade racial.

        O grande problema do preconceito no Brasil é que ele é velado, foi assimilado culturalmente, tornando-se muitas vezes inconsciente. “A conseqüência disso, sabemos bem, é a dificuldade de combater o nosso preconceito, que em certo sentido tem, pelo fato de ser variável, enorme e vantajosa invisibilidade.” (Matta, 1984, p.43)  O caminho para acabar com o preconceito esta na educação. É necessário educar as novas gerações dando visibilidade à cultura, à história, à música, aos valores e à religião dos afro-descendentes.  “É preciso olhar mais de perto as experiências escolares que essas crianças e jovens vivenciam. A escola precisa aprender, para assim propor situações de aprendizagem que considerem a presença fundamental dos negros e mestiços em nossa sociedade e, com isso, proporcionar, no currículo cotidiano, outros encontros  identitários, mas, dessa vez, de inclusão, de sucesso e, portanto, de aprendizagem positivas.” (Lopes, 2007, p.16-7)     

* Os dados estatísticos presentes neste texto  fazem  parte do documento “Retrato da desigualdade de gênero e raça”, publicado em 2008 pelo “Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas” (Ipea), em parceria com o “Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para Mulher”  (Unifem) e a “Secretaria Especial de Políticas para mulheres e Homens Negros”  (SPM)

Bibliografia

LOPES, A.L. Currículo, escola e relações étnico-raciais. In: Educação, Africanidades, Brasil. Brasilia: Editora UNB, 2007

LOURENÇO, C. Racismo, a verdade dói. Encare. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2006

DAMATTA, R. O que faz o brasil Brasil? Rio de janeiro: Rocco, 1984

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