Por Michel Aires de Souza
Se o mundo foi criado por um ser superior, ele seguiu um plano racional, criando regras e determinando uma ordem. Esta ordem e plano divino podem ser contemplados por qualquer mortal. Foi isso que Einstein tentou fazer durante toda sua vida. Ele tentou compreender como o mundo foi ordenado, como foi estruturado. Chegou a conclusão de que o mundo tem uma ordem apriori. Famosa é sua frase “Deus não joga dados”. Ele quis dizer com isso, que Deus não fez o mundo por acaso, de qualquer jeito, como se jogasse com a sorte. Deus seguiu um plano, criou um esquema, desenvolveu uma estrutura para que as coisas existissem. Por estas razões, não podemos pensar um quadrado que seja redondo; não podemos usar a luva da mão direita na mão esquerda; não podemos pensar um objeto sem espaço, forma ou extensão. Aliás, espaço, forma, extensão, tempo, relação, unidade, pluralidade, totalidade, realidade são as condições de possibilidade de existência do mundo. Sem essas condições não existiria mundo.
O que queremos dizer é que o mundo para existir obedece certas regras universais e necessárias. Sem essas regras o mundo não seria possível. Vamos dar alguns exemplos: um objeto quadrado só pode ser quadrado se, e somente se, possuir quatro lados idênticos. Essa é uma regra universal para qualquer objeto que seja quadrado. Por isso, não pdemos pensar um quadrado que seja redondo. Na proposição “a linha reta é a distância mais curta entre dois ponto” nada se afirma de determinada linha reta, mas de qualquer linha reta (universalidade), por sua vez, não se declara que a linha reta é a mais curta em certas condições, mas em quaisquer condições (necessidade). Da mesma forma, não podemos imaginar um objeto sem espaço, pois o espaço é a condição de existência de qualquer objeto. Também não podemos pensar a transformação, o movimento e a simultaneidade sem a noção de tempo, pois o tempo é a condição de existência de qualquer sucessão. Quando dizemos que todas as paralelas são equidistantes, não queremos dizer que a equidistância é uma coisa. A equidistância só existe enquanto abstração, idéia, não existe em si mesma. É universal. O universal é aquilo que se encontra em todas as coisas de uma mesma espécie ou gênero. A equidistância existe em quaisquer paralelas, não em uma única paralela. Essas regras universais e necessárias que governam as coisas demonstram que por trás do universo há uma estrutura, há uma racionalidade. O mundo é regido por idéias que não existem em si mesmas, mas que são a condição de existência das coisas.
Os Gregos foram os primeiros a compreender que o mundo tem uma ordem racional apriori. Eles entendiam que além de uma razão subjetiva, que pensa, analisa e demonstra; existiria uma razão objetiva presente na estrutura da matéria, na natureza, no cosmo e nas relações entre as coisas. Para os gregos o mundo teria uma estrutura lógica.
O primeiro a compreender que o mundo tem uma ordem racional foi Pitágoras. Ele acreditava que tudo que existe no universo é mesurável e poderiar ser compreendido através de uma lei universal da matemática. Os números seriam a essência de todas as coisas. Ele acreditava na divindade dos números. Os números eram substânciais primordiais, entendidas como pontos, isto é, como massa, sendo, portanto, concebidos como sólidos. O número um formaria o ponto, o dois determinaria a linha, o três geraria a superfície, o quatro constituiria o volume. O número também era entendido como ordem e sendo tudo determinado pelo número, então tudo é ordem. Em grego, ordem significa “Kosmos”. Os gregos chamavam o universo de cosmo, ou seja, ordem.
Platão também acreditava numa estrutura inteligível, numa ordem racional para o universo. Ele mostrou-nos que todos nós estamos sempre em contato com duas realidades: uma inteligível e outra sensível. A primeira é permanente, universal, nunca se modifica, é o mundo das ideias. A segunda é o mundo que percebemos por nossos sentidos, mutável e contingente, o mundo sensível. Para Platão Deus seria um demiurgo, um ser que copiaria o mundo perfeito das ideias na matéria imperfeita. Antes que houvesse o mundo, existiriam as ideias eternas e perfeitas, que seriam copiadas na matéria informe, imperfeita. “Através dos diálogos, Platão vai caracterizando essas causas inteligíveis dos objetos físicos que ele chama de ideias ou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis – o que significa dizer justamente que não está na matéria a razão de sua inteligibilidade. Seriam reais, eternas e sempre idênticas a si mesmo, escapando a corrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos. Merecem por isso mesmo, o qualificativo de ‘divinas’ (…). Perfeitas e imutáveis, as ideias constituiriam os modelos ou paradigmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais, a transcender o plano mutável dos objetos físicos.” (Pessanha, 1987, XVI-II).
Tal como Platão, Aristóteles também percebeu uma estrutura racional presente nas coisas. Ele percebeu esta estrutura quando distinguiu matéria e forma. Para ele, matéria é aquilo de que é feito algo, é a substância de algo. Já forma ele buscou na geometria. Ele entendeu forma como limites de contorno de um corpo, como figura de contorno. Mas também entendeu num segundo sentido como “aquilo que faz que a coisa seja o que é”, ou seja, como conjunto de caracteres essenciais que fazem com que as coisas sejam aquilo que são. Segundo o filósofo Manuel Morente, para Aristóteles as formas das coisas não são casuais, não surgiram por acaso, não são causas puramente físicas. Ao contrário, cada coisa necessariamente tem a forma que deve ter. É a forma que define a coisa, dá sentido a ela. Esse sentido é sua finalidade, seu telos, palavra grega que significa fim. Quando definimos o que é uma coisa, dizemos qual é sua finalidade. Para Aristóteles a definição de algo contém a forma ou conjunto das notas essenciais que imprimem nessa coisa um sentido que é aquilo para que serve.
Uma vez que entendemos o que é matéria e forma, fica fácil entender como se dá a origem e produção das coisas no universo segundo Aristóteles. O advento das coisas consiste em que à matéria informe, sem forma, se acrescenta, se agrega, a forma. A forma é o conjunto de características essenciais que fazem da coisa aquilo que é e lhe dão sentido. Isso significa que a forma é o correspondente do mundo das ideias de Platão. É a idéia divina que desce dos céus e imprime sentido a matéria informe. Em outras palavras, tudo aquilo que é, somente é, porque foi feito inteligentemente. Nas palavras de Morente, “se a forma da coisa é aquilo que confere à coisa sua inteligibilidade, seu sentido, seu Telos, seu fim, não há mais remédio que admitir que cada coisa foi feita do mesmo modo como o escultor faz a estátua, como o marceneiro faz a mesa, como o ferreiro faz a ferradura. Tiveram que ser feita todas as coisas do universo, todas as realidades existenciais por uma causa inteligente, que pensou o telos, a forma, e que imprimiu a forma,o fim, a essência definitória na matéria” (Morente, 1978,p. 98).
Aristóteles também apresenta o argumento do motor primeiro. Para ele tudo o que existe tem uma causa. Tudo o que é causado pode causar outras coisas. Dessa forma deve existir uma causa primeira que causou as coisas, mas que nunca foi causada por nada. Esta causa primeira é Deus.
A filosofia chinesa também percebeu uma estrutura objetiva no mundo. Lao-Tsé que viveu no século IV a.C, o grande criador do taoismo chinês também acreditava numa ordem racional. A palavra Taoismo tem origem na palavra chinesa Tao, que significa “caminho”. Em sua filosofia Lao-tsé ensinava o caminho da natureza, que em sua opinião era uma potência ordenadora que controlaria todo o universo. Para Lao-Tsé tudo na vida segue o processo natural, o caminho do Tao, que devemos entender como a ordem das coisas de acordo com a lei natural. O taoismo não distingue a vida da morte, a realidade da irrealidade, o ser do não-ser. Tudo que existe segue uma ordem natural.
Na Idade Média dois filósofos, um platônico e outro aristotélico, tentaram unir razão e fé, demonstrando que o mundo tem uma ordem racional apriori. Santo Agostinho (354-430) fundamenta sua filosofia a partir das idéias de Platão. Ele reinterpreta a teoria das idéias reconciliando-a com o cristianismo. Para ele Deus teria criado o mundo a partir de idéias imutáveis. Essas idéias não residiriam num mundo à parte como pensava Platão, mas na mente de Deus, conforme mostra a bíblia. Por sua vez, São Tomás de Aquino (1225-1274) afirmava que o mundo tem uma ordem e, por esta razão, deve haver uma inteligência ordenadora de todas as coisas. Como bom aristotélico, ele entendia que Deus era o motor primeiro de todas as coisas. Se Deus é a causa primeira do universo, então “todas as criaturas estão ordenadas e são conduzidos a seus respectivos fins pela ação da causa primeira manifestada pela providência divina” (Costa, 1993, p.67).
Hegel (1770-1831), filósofo alemão do século XVIII foi mais longe, dizia que o mundo é a manifestação da Razão. Ele tentou explicar o universo a partir das idéias. Para ele as idéias são anteriores as coisas, precedem logicamente o mundo, são fonte de todos os seres. São as condições do existir. Tudo o que existe procede apenas das idéias universais. A racionalidade não é apenas uma característica do pensamento, mas do próprio tecido do real. Sua filosofia procurou mostrar que o mundo evoluiria dialeticamente a partir de contradições internas. Na origem do universo estaria as idéias universais (Tese). Em seu desenvolvimento as idéias puras criaram a natureza (Antítese). Mas a natureza ficou desprovida de consciência. Do conflito entre idéias e natureza surgiu o espírito (sintese). Para Hegel, o espírito é ao mesmo tempo matéria e pensamento. Foi a partir daí que a natureza ganhou consciência de si mesma. Dessa forma, o real tornou-se racional e o racional tornou-se real.
Um dos maiores filósofos contemporâneos, pai da lógica simbólica, o Austríaco Wittgentein, sempre acreditou na existência de uma ordem a priori no mundo. Segundo ele, só podemos pensar e falar sobre o mundo, porque há algo em comum entre linguagem e mundo. Ambas possuem uma estrutura lógica. A lógica possibilita a linguagem representar o mundo. O mundo é lógico. Ele expressa essa idéia de forma poética em seu livro “Investigações Filosóficas”. “Há uma aureola à volta do pensamento. – A sua essência, a lógica, representa uma ordem, de fato a ordem a priori do mundo, isto é, a ordem das possibilidades que têm que ser comuns ao mundo e ao pensamento. Mas parece que esta ordem tem que ser supremamente simples. É a ordem que precede toda experiência, que corre ao longo de toda experiência, à qual não se deve pegar nada do que é turvo e incerto na experiência. – Tem que ser do mais puro cristal. Mas este cristal não parece ser uma abstração, mas algo de concreto, como a coisa mais dura que há” (Investigações, 97).
O que procuramos mostrar aqui é a ideia de que o mundo tem uma estrutura racional apriori, sendo esta a maior prova racional de que o mundo não é apenas governado pelo acaso e contingência. Esta ordem que existe no universo não está na matéria, não é imanente a toda substância, uma vez que tudo na matéria é contingência. Esta ordem também não transcende a matéria, não está fora do mundo, uma vez que sem ela não existiria mundo. Esta ordem é a condição de existência do mundo. Ela precede logicamente o mundo. O mundo só pode existir porque tem ordem, sem o qual não existiria.
Bibliografia
AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo, Nova Cultural, 1996.
COSTA, José S. Tomás de Aquino: a razão a serviço da fé. São Paulo: Moderna, 1993
NÓBREGA, F.P. Compreender Hegel. Petrópolis: Vozes, 2005
MERTON, Thomas. A Via de Chuang Tzu. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.
MORENTE, Manuel Garcia. A matéria e a forma. In: Fundamentos de filosofia: lições preliminares. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
PESSANHA, J.A.M. Platão. In: Os Pensadores. 4 Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
WITTGENTEIN, L. Tratado lógico-Filosófico. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 1995.
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 1995.



Gustavo magalhaes scarpin
19/05/2011
deus existe seu abençoado
Milton menoncin
22/05/2012
DEUS EXISTE
Inicialmente era o NADA.
Era o vazio absoluto? Não!
Vazio pressupõe espaço e o NIHIL é o NADA. Nada de espaço, tempo e nem matéria. Nada de nada.
Nada havia para pesar, dimensionar ou medir. Não havia tempo… Horas, dias, séculos. NADA. Não existiam quilos, litros, metros, m³, quilômetros, jardas NADA. Nem pensamento havia e nem Deus existia.
DE REPENTE O BIG BANG
BIG BANG é o desequilíbrio do NADA
Com ele surge o bóson de Higgs ou partícula de Deus, que passa a dar matéria às partículas de energia.
Surgimento da centelha de Deus (bóson de Higgs)
Deus surge com o Big Bang e tudo o que “existe” é Deus, faz parte dele. Desde as estrelas, o sol, os planetas, os seres vivos e não vivos, todos são constituídos de partículas de Deus.
Então não podemos personificar Deus. Ele não é semelhante a um homem, ele é tudo o que compõe o universo.
E outra, ele está impossibilitado de influenciar diretamente nos eventos humanos, porque os humanos são parte de Deus e conduzem suas ações. As intervenções nos eventos terrestres se dão, principalmente, através da matéria com consciência que somos todos nós.
A matéria, os átomos, as moléculas e células tem suas “leis”.
O homem tem sua consciência e seu cérebro além do corpo para interagir com o meio. Age como integrante do grande corpo de Deus. Quando eu maltrato meu corpo, tiro a vida de alguém estou maltratando meu corpo maior. Quando desequilibramos os ecossistemas, destruímos as florestas, poluímos os rios e os solos a quem estamos maltratando?
Já pensou se todas as leis físicas fossem instáveis?
O Homem é a parte de Deus que procura se conhecer. Por isto é tão curioso.
O homem é a matéria com consciência, ou seja é a consciência de Deus e dentro das leis físicoquímicas, termodinâmicas, naturais procura decifrar os mistérios de tudo o que existe. Não adianta perder tempo tentando entender o que não existe.
Aliás, em nome do que não existe cometemos muitas barbaridades. Guerras religiosas, Cruzadas, etc.
Nós viemos da matéria bruta, originárias das partículas de Higgs.
Somos Deus querendo se descobrir, mas dentro das leis naturais, sem influência de fenômenos sobrenaturais, mesmo porque eles não existem, pois não podem ser medidos ou detectados.
O espiritual não existe, não tem peso, comprimento, largura, espessura, massa e nem energia. Se tivesse energia poderíamos detectar e quantificar.
Até a partícula de Deus já está calculada, medida e encurralada, só falta encontrá-la.
Não conseguimos medir ou pesar um espírito por que ele não existe.
Deus é tudo o que existe.
Milton menoncin
22/05/2012
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