As marcas na construção dos valores e do estilo de vida
Por Michel Aires de Souza
Em nossa atualidade as marcas tornaram-se hegemônicas. Em todas as esferas da vida social e em todos os lugares somos bombardeados por slogans e simbolos das grandes marcas mundiais. São raros os locais onde não há simbolos ou slogans de uma grande empresa. Marca é todo sinal distintivo, visualmente perceptível, que identifica e distingue produtos e serviços. A marca é comumente associado ao nome de um produto ou empresa, como Coca-Cola, McDonald’s, Nike. Contudo, ela inclui ainda imagens, ideias, símbolos e logotipos. É muito comum a confusão entre esses termos. Vamos definir o que cada elemento representa para melhor expor nossas idéias. O logotipo é a representação tipográfica da marca. O mais conhecido é o da Coca-Cola em letras vermelhas. A palavra PHILIPS em letras garrafais é também bastante conhecido. Já o slogam é uma frase concisa, marcante e criativa que acompanha o logotipo ou simbolo da marca. Por exemplo, o slogam “Just do it” da Nike ou o slogam “The power of dreams” da Honda. Outro elemento é o simbolo, ele é a representação gráfica da marca. Um dos simbolos mais conhecidos é o simbolo da Nike, o chamado Swoosh, é um desenho gráfico criado por Carolyn Davidson em 1971 e representa a asa da deusa grega. Outro simbolo conhecido é a letra “M” maiúscula do McDonalts e o jacaré da Lacoste. Esse conjunto de imagens, idéias, simbolos, logo, slogam que representam uma pessoa, entidade, empresa ou serviço é chamado de “Brand” (Marca). Os teóricos da publicidade entendem que “Branding” é a imagem e a percepção que temos como consumidores de um determinado produto, serviço ou empresa, ou seja, é um sistema de comunicação que demonstra por que a marca é importante. A marca é tão importante que seu nome em valores monetários é muito superior as sua fábricas e bens materiais. A marca Coca-Cola, por exemplo, foi estimada pelo mercado financeiro em setenta bilhões de dólares.
O objetivo da marca não é vender um produto, mas vender uma idéia, uma história, um discurso que apela ao coração. Ela é algo mais do que o produto, uma vez que é uma promessa de felicidade. É por causa dos signos e simbolos que a marca comunica que o produto torna-se vendável. A marca tenta nos convencer que ao consumir seus produtos podemos ter uma gratificação imediata. Ela apela ao coração e a mente como símbolos de felicidade e alegria. Se estivermos tristes, em depressão ou tediados basta ir ao shopping e comprar as marcas e os produtos que desejamos para recuperarmos o equilibrio emocional. Não há nada mais prazeroso do que fazer compras e não há nada mais feliz do que adquirirmos as marcas que almejamos ter. Consumir uma marca significa sentir-se bem, alegre e feliz. Este argumento não é apenas filosófico, mas científico. Estudos da neurociências mostraram que o consumo de uma marca estimula o núcleo accumbens, que pertence ao sistema límbico e funciona como o centro do prazer. Suas células nervosas são ativadas por um neurotransmissor, a dopamina, levando à liberação dos chamados opiáceos endógenos produzidos pelo próprio organismo. Estas substâncias estão associadas à sensação de prazer e bem-estar. Dessa forma, o consumo de uma marca além de suprir um desejo e uma necessidade causa prazer e torna o indivíduo alegre e feliz.
As marcas humanizam os produtos, tornando-os conhecidos, confiáveis e amigaveis até que se tornem parte de nosso eu. Elas atendem nossas necessidades e desejos como se fossem amigos de infância. Algumas pessoas consomem uma marca por toda a vida, seja uma roupa, um carro, uma bebida ou um alimento. Ela torna-se parte do estilo de vida da pessoa. É a partir da marca que o indivíduo procura adquirir certo status social. Nosso status social está inscrito nas marcas e produtos que consumimos. Por estas razões, a marca é antes de tudo um signo que deve ser interpretado. Ela emite uma mensagem para ser decifrada. As marcas são referências, são simbolos e signos que mandamos aos outros. Elas criam significados e procuram representar quem nós somos. Queremos mostrar o que somos e por que somos. A marca se associa a valores que almejamos ter. Se usamos Nike é porque queremos parecer jovens, fortes, enérgicos e vencedores. Se fumamos Free é porque queremos ser livres e independentes. Se usamos Chanel é porque queremos nos sentir femininas sem deixar de ser fortes e poderosas.
Mais importante que os produtos são os valores que as marcas veiculam. A marca carrega os valores e a personalidade da empresa. São estes valores e personalidade que o consumidor almeja ter. O slogan da Nike, “Just do it” (Apenas faça-o), presente em todas as propagandas, comerciais e produtos desta empresa é uma idéia que carrega valores, modos de ser, pensar e agir. O slogam diz “Apenas faça-o”. Mas faça o quê? O verbo fazer indica ação, movimento. Para fazer algo é necessário esforço, empenho. Quando algo é grande temos que insistir, temos que perseverar. Perseverar significa que não podemos desistir, que temos que alcançar a vitória em nossa causa. Temos que vencer a qualquer custo. Através do nossa ação, esforço, insistência e perseverança podemos vencer, somente assim chegamos a vitória. Este é o significado da palavra Nike, nome grego da Deusa da Vitória. O slogan “Just do it” relaciona-se a ideia de vitória. Quando nos deparamos com o símbolo da Nike juntamente com o slogan “Just do it” o que nos vem a mente são imagens de atletas determinados que correm a uma grande velocidade em busca da vitória antes considerado impossível. Quando a Nike financia um atleta como o jogador de basketball Michael Jordan ela associa a marca a força, a energia e as vitórias do jogador.
Outra marca bastante influente é o McDonald’s. Os slogans do McDonald’s remetem a um mundo de fantasia, prazer e alegria: “Amo muito tudo isso”, “Estou adorando”, “Fazemos tudo para você”, “McDonald’s é o seu lugar”. O objetivo da marca McDonald’s não é só vender BigMac, mas vender cultura. Seu objetivo é preparar as crianças para a cultura do fast food. Dessa forma, os slogans, simbolos e as propagandas procuram atingir as crianças. Estas são levadas ao reino da fantasia com a ajuda do mágico e malabarista Ronald McDonald, o personagem símbolo da marca, um velho conhecido das crianças de todos os países onde a marca está presente. Ao criar um mundo onirico Ronald McDonald’s procura conquistar as crianças para seus produtos. O lúdico e a fantasia são recursos usados para criar uma realidade de alegria e sonho. Por isso, o McDonald’s é uma das primeiras marcas que assimilamos em nossa infância. Ela cria um mundo de sonho cheio de cores em suas propagandas, um mundo onde toda criança gostaria de estar.
O slogam da Honda “The power of Dreams” (O poder dos sonhos) se refere a vida de seu criador Soichiro Honda. Este homem passou por muitas adversidades em vida, mas acreditou no poder de seus sonhos. Desde sua infância obsevou motores e sempre se encantou com seus mecanismos. Mas a vida foi bastante dura com ele. Aos 16 anos saiu de sua cidade e trabalhou numa oficina mecânica. Algum tempo depois montou sua própria oficina. Desenvolveu um projeto, o “anel de piston”, que tentou vender para a Toyota, mas foi recusado, pois não atendia os padrões exigidos. Trabalhou por dois anos, dia e noite, até que conseguiu atender os padrões da empresa e ai vendeu à Toyota. Com o dinheiro recebido montou sua fábrica de motores, mas esta foi destruida duas vezes durante a guerra. Depois de reconstruir sua fábrica, ela foi destruida novamente por um terremoto. Com a escassez de gasolina por causa da guerra o Sr Soichiro construiu um pequeno motor para sua bicicleta. Foi com este pequeno motor que ele encantou o mundo. Contudo, não tinha dinheiro para construir a fábrica, então pediu ajuda quinze mil lojas em seu pais, dessas lojas, cinco mil deram o capital necessário para ele recomeçar. Hoje a Honda Motor Company é uma das maiores empresas automobilística do mundo. O slogam da Honda se refere a esta história e procura mostrar que os sonhos tem grande poder de realização se formos perseverantes.
Não podiamos esquecer da Coca-Cola sendo ela a maior empresa que gasta com publicidade no mundo. Ela é uma das marcas mais antigas, mas que apesar disso continua “saudável e refrescante” como a cem anos atrás. Os slogans da Coca-Cola sempre valorizam a fruição e receptividade do prazer. Dessa forma, quando a coca-cola cria slogans como “Sempre Coca-Cola”, “Viva o lado Coca-Cola da vida”, “Sua felicidade transforma”, “Gostoso é viver”, ela associa a Coca-Cola ao lado prazeroso da vida cooptando os desejos dos indivíduo para beber seu refrigerante.
Os valores de uma marca se personificam em seus slogans e tornam-se cooptadores da consciência. Eles funcionam como chamariz cooptando os interesses, necessidades e desejos dos indivíduos. Na cabeça do consumidor a marca representa a qualidade de um produto, mas na verdade o que se almeja incoscientemente ou mesmo concientemente é se associar a um grupo ou a uma certa classe social. O consumidor busca comunicar um modo de ser, uma personalidade diferente. Ele quer afirmar seu individualismo. Ele busca se diferenciar dos demais pela marca que consome. A marca é uma maneira simples e simbólica de se conseguir isso. Contudo, o que o consumidor ignora é que seu individualismo é industrialmente produzido e ao querer se diferenciar dos demais ele torna-se igual entre iguais, uma vez que se torna um mero consumidor.
As marcas dominam nossos pensamentos. Em consequência disso, vivemos num mundo onde não há mais lugar para o pensamento. As marcas substituiram as idéias e os livros, uma vez que oferecem máximas de comportamento, desenvolvem valores, normas e crenças que servem de referencial para todos. Elas dominaram a vida urbana e rural, nos bombardeam por todos os ângulos e em todos os lugares, calando a boca dos filósofos e pensadores. O pensamento perdeu sua universalidade e tornou-se mercadoria barata.
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- Published:
- 24/06/2010 / 4:45
- Categoria:
- Filosofia
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