Relatos do Brasil

Índio Botocudo

Firmiano, indivíduo Botocudo (família Krenák) retratado no livro Voyage dans les provinces de Rio

Carta encontrada na França, escrita por Victor Renault ao irmão Léon, em 1877, narrando seu contado com a região e os habitantes das Gerais.

Barbacena, 17 de outubro de 1877.

Meu bom irmão Léon. 

No dia 6 do corrente mês, eu te escrevi uma longa carta em reposta à tua carta do dia 1º de setembro e eu inclui um retrato meu tirado em agosto de 1876 lamentando muito não ter podido te enviar ainda os retratos da minha família, por falta de um fotógrafo que passe por aqui. Eu faço questão tanto mais de te enviar estes retratos a fim de destruir uma ilusão que tu te fazes supondo-os do tipo dos índios, ou de uma mistura da raça africana, não é nada disso. São pessoas muito bonitas que descendem da raça portuguesa, com olhos negros, cabelos da cor da asa de corvo, e formas bem desenvolvidas. Enfim é preciso acreditar que eu poderei ainda te enviar todos estes retratos. Apressado em responder à tua boa carta, eu não pude entrar nos detalhes concernentes à minha existência, desde minha saída da França. Eu vou então resumir esta existência. Chegado ao Rio, sem nenhum recurso, foi-me necessário encontrar os meios de poder me transportar para o interior da província de Minas, à procura de um emprego como engenheiro numa mina de ouro, e da qual me haviam falado em Paris, na embaixada do Brasil. Eis-me então ingressando a uma espécie de caravana, caminhando ora a pé, ora a cavalo, através de caminhos impraticáveis, e levando perto de 3 meses para percorrer uma distância de 150 léguas. Chegado ao meu destino, tive a decepção de encontrar a mina, vendida a uma companhia inglesa, que tem por regra invariável só admitir ingleses como empregados. Foi-me necessário então procurar em outro lugar, e é assim que perco dois anos, durante os quais sofri todo tipo de privações. Lembro-me ainda de um dia em que tendo viajado o dia inteiro e sem ter comido desde a véspera, eu achei ao anoitecer uns biscoitos pendurados num barbante, à beira de meu caminho. A água me veio à boca, eu tinha fome, mas foi necessário seguir mais adiante, eu não tinha um tostão comigo, e eu continuei meu caminho com minha companheira, a fome, que eu conhecia há muito tempo. Enfim após ter perambulado durante 2 anos, e vendido pouco a pouco a roupa que eu havia trazido da França, encontrei-me no fim dos meus recursos, e cada vez mais com uma forte inflamação no fígado. Eu achei uma casa caridosa que me tratou, e em troca, durante meu tratamento, eu ensinava a ler e a escrever, à criança da casa, o que me valeu um transporte gratuito até Sabará, com algumas camisas que me havia dado, a dona da casa. Enfim chegado a Sabará, cidade bastante importante, eu comecei a dar aulas de francês, inglês, química, física, matemática e alemão, que eu não tinha esquecido e que eu tinha aperfeiçoado com a prática de lidar com o alemão. Um dia em que eu tinha resolvido um problema algébrico que me haviam proposto, este problema caiu nas mãos de um inglês, diretor da mina de ouro de Morrovelho. Este senhor veio me encontrar e me perguntou se tinha sido eu que havia resolvido aquele problema, e com minha afirmação, ( ele falava perfeitamente o francês ) ele me diz: então o senhor deve, perfeitamente, jogar xadrez. Um pouco, lhe digo. E bem, me diz ele, o senhor faz meu trabalho, eu lhe dou a guarda dos livros, pois é preciso que eu substitua meu contador que está muito doente, e parte para a Inglaterra, e será apenas daqui a seis meses que virá um outro, durante este tempo, o senhor servirá interinamente ( pois nós não admitimos estrangeiros na nossa firma ) e o senhor comerá à minha mesa, residirá na minha casa, e o senhor ganhará oito francos por dia como contador, mas com uma condição: é que o senhor jogará comigo uma partida de xadrez todos os dias. Pusemo-nos de acordo, eu fazia a partida de xadrez, eu ensinava a ler e a escrever às crianças, o que me valia todo o tipo de atenções. Mas o momento fatal soa, meu sucessor chega, meu Eldorado desapareceu. É necessário partir, mas não sem a benção desta honrável família, deste excelente homem pelo o qual eu rezo diariamente, pois ele não é mais deste mundo. Eu levava uma economia de 400 ( mil reis ?, 1200 francos ) e munido desta soma, eu me aventurei a me apresentar ao presidente da província, para achar um emprego como engenheiro. ( Eu tinha podido comprar umas roupas para me apresentar. ) Era em 1836.

Propuseram-me atravessar um terreno frequentado por selvagens antropófagos que diziam negros, e que tinham recusado com raiva todas as tentativas feitas para penetrar nas suas florestas. Mas o Presidente me enduzia ao mesmo tempo a não empreender esta missão por ser muito perigosa e na qual ele estava certo que eu sucumberia. Tanto melhor, eu me dizia e eu parti acompanhado de soldados dos quais eu era o chefe. Antes de chegar à entrada da floresta, era necessário percorrer uma distância de 200 léguas, onde se acha a cidade de Minas Novas; chegando lá, preveniram-me de novos terrores sobre a ferocidade dos selvagens, e sobre o perigo eminente que eu corro. Tanto melhor, eu repetia, e eu penetro nas florestas. Logo sou assaltado pelos Nak-Nanukes ( habitantes das montanhas ) e pertencentes a grande família dos Botocudos, selvagens nômades, antropófagos e muito ferozes. Eu tinha um intérprete que lhes faz compreender que não lhes quero nenhum mal, e que eu lhes trazia presentes. As flechas não continuavam menos a voar, mas sem nos fazer mal, nós nos pusemos ao abrigo, e enfim após terem esgotado suas munições de flecha e não vendo represália da minha parte, eles se apresentam com muita desconfiança. Mas enfim, nós nos colocamos de acordo, e eles me reconhecem com seu ( Krentigne Tépaquijié ) ( grande chefe ). Eles são negros, é verdade, quando eles estão em guerra ou na caça, porque eles se pintam o corpo com a fruta do Jenipapo ( Genipa Brasiliensis ), uma rubiácea, o que lhes impede de ficar muito a vista no meio dos tufos de árvore.

Eles estão inteiramente nus, homens e mulheres, e não se dignavam mesmo a esconder a nudez com fizeram Adão e Eva. Eu era o primeiro homem que eles viam, por isso quantas exclamações vendo nossas vestimentas, nossas armas, nossos víveres, que eles não conheciam, e sobretudo o sal que os obrigava a raspar a língua, e a gritar ( muguang – Krok ) água de fogo. De resto eu observei que o uso do sal que os selvagens não conhecem é muito prejudicial aos dentes, pois estes selvagens tem os dentes excelentes e não lhes falta nenhum, mesmo com a idade de 130 anos, como eu tive a ocasião de verificar ao cabo de 3 meses de uso do sal, atingidos de dores de dente, enquanto que aqueles que não faziam uso de sal, não sofriam nada. Eu aprendi a língua deles que não sendo muito complicada, não é muito menos difícil, e eu organizei um vocabulário, que foi publicado nas obras do Conde de Castelnau. A pronúncia é muito aspirada e muito cadenciada, e eu assinalei as palavras aspiradas por um meio do ( J ) alemão, mas ainda mais aspirada. A língua deles é muito composta de onomatopaicos, e eles inventam palavras, todas as vezes que eles vêem um objeto que eles não conhecem. As mulheres sobretudo excelentes para a invenção destas palavras novas. Assim vendo um boi pela primeira vez, as mulheres começam a gritar ( po – Kekri, po – Kekri ) ( pé fendido ). A galinha foi denominada Ereknack por causa do seu grito, e assim por diante. Eu era o Krentogne, Tépakijie, Kétôme, Krak ( grande chefe com os olhos brilhantes ou de ferro ), pois para eles tudo o que brilha, ou é duro, ou é pontudo, eles o chamam por ( Krak ). Um dia em que eu enxugava meus óculos que eu tinha tirado, ouvi todas as mulheres que rindo gritavam ( tchenp – tchenp ) pendurado, pendurado, e então, eu fui o Krentogne, Tépakiju, Kétôme, Krak, tchenp. ( O grande chefe com olhos de ferro pendurados ). Por abreviação e também por familiaridade as mulheres mais tarde só me chamavam de tchenp – tchenp. Como eu disse no começo estes selvagens não tem nenhum meio de esconder sua nudez, se deitam na terra nua, todos misturados, homens mulheres e crianças como um rebanho de javalis. Eles acreditam num Deus supremo, e à noite após a caça, eles se entregam ao prazer da dança para a qual eles se formam em círculo passando os braços pela cintura, homens e mulheres, e então hei-los que começam a pular e a cantar em cadência, todos fazendo uma roda, nada é mais cômico de ver também pular em cadência, tudo que é suscetível de oscilações, tanto no homem quanto na mulher. Algumas destas mulheres se achavam sobre uma influência e eu te asseguro que não era nada menos que apetitoso. Pouah! era da parte, mas em sentido contrário. Obviamente chocante! Mas onde diabo é que Chateaubriand escreveu seus Natchez e seu episódio de Atala e Chactes I. Certamente que não é no meio deles. Estes poetas!

Apesar de que estas damas estejam inteiramente nuas, elas acharam apesar disso um meio de dar curso à sua vaidade, que ao que parece, é inerente a humanidade. Nainne Jereja ( J alemão ) mudava de roupa todos os dias, ora ela se apresentava com magníficos calções vermelhos que ela simulava com a cor do orucu ( bina orellaria ) ora eram os braços, o nariz e todas as outras saliências, o que lhe dava às vezes um ar diabólico. Quando nos salões dourados, eu vejo nobres damas, e belos senhores, se entregarem ao prazer de um galope, eu imagino a dança dos selvagens, e sua cadência, e eu tenho vontade de rir.

Mas é preciso partir e eu estou apenas no começo da minha viagem. É preciso dizer adeus aos meus bons Nak-Nanuks com os quais nos tornamos muito bons amigos e isso sem que eu tenha a lamentar o menor mau tratamento, a menor arbitrariedade. Eles me acompanham durante uns trinta dias, caçando e pescando com suas flechas, mas um belo dia ao acordar, eu não vejo mais nenhum. Eles se tinham retirado durante a noite, e eu compreendi que eu estava no território dos ferozes Téperok ( braços ruins ) o mais cruel inimigo deles, pois os Botocudos são divididos em tribos inimigas umas das outras. Elas tem seus territórios que elas percorrem em toda a sua periferia subindo os cursos das águas, durante o tempo da estação chuvosa, e descendo seus cursos durante o tempo da seca, seguindo assim as migrações da caça e do peixe. Mas percorrendo a periferia do seu território, acontece que duas tribos se encontram em seus limites, e é então que se segue uma guerra encarniçada, e de extermínio, que se vê nos Botocudos. Os Tipérokas me tinham, e, nos vigiando, nós fomos assaltados por uma grande quantidade de flechas que vinham do outro lado do rio. Nós nos achávamos acuados numa rocha e cercados por 400 Botocudos, durante 23 dias nós tivemos de sofrer seus ataques, não tendo mais víveres e tendo por única alimentação raízes de árvores para roer.

Foi somente no final de 23 dias que tendo esgotado todas as suas flechas, das quais nós nos protegíamos facilmente, sobretudo quando se tem um olho um pouco americano, pois elas não vem bastante rápido que não se pudesse evitá-las, se se acha numa distância de poder vê-las chegar. Vendo minha indulgência que não consentia que meus soldados atirassem um só tiro de fuzil, e esgotados de armas, cedem às minhas palavras de paz, estes ferozes selvagens se decidiram a atravessar o rio e se entender comigo. O chefe deles Takans se apresenta a mim e me batendo no peito e me pegando pelos rins me fez sofrer um galope infernal na praia do rio. Eu resisti felizmente a esta prova e me batendo novamente no peito, exclamou: mangattône ourouje ( J alemão ) ( muito valente ) e então a paz estava feita, mas era tarde demais. Treze dos meus soldados não tinham podido resistir a tantas privações e morreram uns após os outros, sem socorro e sem recursos. Eu domestiquei tanto quanto possível estes infelizes que não tinham outro cuidado a não ser defender seu território, assim morrerei com a consciência tranquila de não ter jamais atirado contra eles e de só ter respondido a todos os seus ataques com atos de amizade e de indulgência. Entretanto uma noite em que eu me encostei a uma árvore, o fuzil entre as pernas, eu cedia ao sono eu senti-me puxado pelos pés. É meu pequeno Alonzo, Nak Nanuk que seus pais me haviam dado, que, como selvagem que era tinha pressentido meus novos amigos que vinham sobre mim com o arco estendido. Eu acordo com meu fuzil, e lhes falo com energia. Logo eles abaixam seus arcos dizendo que eles queriam ver se eu dormia. São homens covardes e traiçoeiros. Eu levei mais tarde meu Alonzo para Barbacena onde eu o fiz batizar. Mas um dia em que fiz uma viagem ao Rio e apesar que ele estava com minha mulher que ele amava muito aliás, esta pobre criança de 12 anos não pode resistir ao desgosto de não me ver e morreu. Isto prova que estas pessoas são suscetíveis de bons sentimentos, trata-se apenas de saber conquista-los, o que não se fez. Trataram-lhes como bestas pintadas e os tornaram inimigos vingativos. Enfim eu tinha achado um rio, ou antes um rio desconhecido por todo o mundo. Eu tinha a intenção de levantar o curso e de prestar um serviço ao país. Eu tomei então a deliberação de cavar com o resto dos soldados que eu tinha e meus dois ordenanças troncos das árvores, destinados a me transportar sobre o rio. Após muitos esforços, eu consegui concluir meu trabalho, quando eu fui assaltado por um novo bando de selvagens, inimigos dos Téperocas, com os quais eu já tinha boas relações. Dai novas investidas da parte deles, um cerco de três dias. Enfim eu consegui me fazer senão amigos, ao menos entrar em relações com eles, e me lancei nas minhas perogas com a graça de Deus. Mas ninguém fará jamais uma idéia do que seja um rio desconhecido.

No momento em que eu acreditava que a navegação caminhava convenientemente, com meus instrumentos entre as pernas, e meu lápis na mão, eu fazia tanto mal quanto mal o levantamento dos terrenos que eu percorria, crac, eis uma catarata, e por consequência uma queda e derrubada de minhas perogas. Eis-nos todos a nadar salvando o que nós pudemos e reduzidos durante os 16 dias que durou a navegação até o mar a viver de frutos da sapucaia ( lecythis grandiflora ) que boiavam no rio. Enfim eis-me chegando a embocadura deste rio, do qual conservei o nome indígena ( Mokury ) ( mo – va ) Kury ( lavar ). S. José de Porto Alegre ( ? ) é uma aldeia de índios situada na embocadura deste rio e embora já constituídos em sociedades, eles não podiam acreditar diziam eles que eu tivesse este lago, pois eles tomavam o rio por um lago, não o tendo subido por medo dos Botocudos dos quais eles são inimigos. É preciso compreender que há duas raças distintas entre os selvagens do Brasil ao menos na província de Minas, são primeiramente aqueles que se chama os Índios, que são doces, cultivadores e nada maus, eles se dividem em muitas tribos dos quais as principais são os Puris, os Malaches etc……

Os outros são os botocudos, raça feroz, nômade e antropófagos que se dividem em um grande número de tribos. São os Nak-Nanuks, os Tépérokas. A língua das duas raças é completamente diferente assim como seus costumes, seus hábitos, pois eles já cultivam a mandioca, com a qual eles fazem redes para se deitar, enquanto que os Botocudos se deitam na terra nua. Eu chegara ao termo da minha viagem após ter domesticado perto de 6000 botocudos, viagem da qual ninguém compreenderá nem as dificuldades, nem os encantos e que somente poderiam compreender aqueles que se arriscam no meio das florestas inextricáveis do Brasil que eu percorri de oeste a leste numa distância perto de 200 léguas, abrindo um caminho por meio de uma faca de caça, e me guiando com a bússola, que não deixei nunca. À beira do rio, eu me servia do meu teodolito para fixar alguns pontos astronômicos e eram os únicos objetos que nos era permitido levar além de nossas armas, pois sem caminhos, com exceção daqueles que nós abríamos com a faca de caça, não havia meio de levar nada, nem mesmo roupas e é assim que eu fiz toda esta viagem com uma única camisa de tecido grosso e uma única calça de algodão feita no pais, e eu lavava eu mesmo alternativamente uma ou outra destas roupas. Mas o que me foi mais penoso e do qual eu me lembro ainda com horror, era ser obrigado a fazer toda a viagem de pés descalços no meio dos espinhos que se cravavam neles todos os dias. E era necessário que eu assim o fizesse pois no meio dos bosques, e sem conhecer os acidentes do terreno, nós caíamos ora num braço de rio que era necessário atravessar a nado, ou sobre um pântano lodoso que era necessário atravessar afundados até os joelhos, e assim por diante, e então era literalmente impossível ter sapatos para trocar todos os dias, quando nós não tínhamos a faculdade de poder levar víveres, limitava-nos a comer o que nós achávamos no nosso caminho, caças, frutos, raízes, e bem frequentemente nada de nada. Quando penso nesta viagem é preciso que eu tivesse uma forte constituição para resistir a isso.

Enfim eis-me aqui chegando ao término de minha viagem, mas é preciso voltar e dar conta da minha incumbência ao Presidente da província de Minas. Mas, por qual lado tomar? Voltar nos meus passos? Impossível, nós estamos na estação das chuvas e eu não poderia nunca subir o rio Mukury, cheio de margem à margem. Então decidi-me a costear sempre com os pés descalços, e com o resto do meu mundo, as praias do mar até o encontrar a embocadura do rio ( Jequitinhonha ) sofrendo os ataques de um novo mal que eu ainda não conhecia: a sede, a horrível sede! Eu subo o Jequitinhonha ( ? ) costeando um caminho aberto pelos Botocudos Krekmas, e no final de 18 meses de uma viagem cheia de perigos, de privações de todos os gêneros, eu chequei a Ouro Preto ( ? ) capital da província, onde o presidente ficou muito contente com o meu trabalho, e me fez elogios oficiais que conservo para meus filhos. Mas eu não soube aproveitar do meu trabalho, pela má fé de um Judeu. Este Judeu, ao qual eu tinha confiado um plano de navegação e de colonização que ele se julgava capaz de obter do governo enquanto que eu faria sempre por ordem do presidente da província, uma nova exploração à beira do rio Paracatu e do grande e magnífico rio de São Francisco.

No final de 15 meses, quando da minha volta da viagem que fiz para grande contentamento do governo, meu judeu patife tinha vendido a um particular meus planos, projetos, orçamento e eu tive o desprazer de ver um outro usufruir os frutos de meu trabalho organizando uma companhia com meus projetos. Tu vês que decididamente pertenço à raça pobre, pois era bem a ocasião de fazer fortuna. Eis-nos no fim de 1838, contente de meu trabalho, o governo me encarrega de confeccionar uma estrada que partindo de ( Ouro Preto )? deve se dirigir para ( Rio Garnier ) ?. Eu trabalho até 1840, mas a doença que eu tinha contraído no Mukury me obrigou a vir me tratar em Barbacena sempre conservando o meu lugar, e enfim, no dia 25 de novembro de 1841 casei-me com minha querida Antônia, uma das filhas do médico que me tinha tratado e eu continuei meu trabalho até junho 1842 quando um movimento político eclodiu, e do qual fui vítima. Eu fui demitido, porque meu sogro e todos os parentes e amigos da família de minha mulher estavam comprometidos e apesar de que eu não fosse bastante ingênuo para me envolver em coisas que não me diziam respeito. Então foi necessário mudar de profissão e tornei-me negociante de lingerie, panos, etc … e eu não ganhava pouco dinheiro. Mas, em 1846 o partido político voltou e por consequência aqueles que tinham contribuído indiretamente para minha demissão fizeram questão de me reintegrar no meu posto, não mais como engenheiro adjunto, mas como engenheiro em chefe. Eu me vi por assim dizer forçado a aceitar, e eu vendi bem a contra gosto minha loja. Mas eu não pude continuar muito tempo neste emprego que exigia que eu estivesse quase sempre a cavalo, e era quando eu era enviado e a cavalo que as câimbras de um lumbago me tomavam e me obrigavam a ficar deitado na beira da estrada durante muitas horas, foi necessário deixar um emprego que eu não podia mais ocupar. Eu comprei escravos, terras, gados, e eis-me fazendeiro com um administrador que me dá a oportunidade de estudar com prazer no meio da solidão das florestas. Aplico-me ao estudo da medicina homeopática, faço curas que me dão reputação, e graças a esses resultados, eu me apresento no Rio e solicito do governo a concessão de passar por um exame livre, eu triunfo e eu recebo meu diploma. Eu volto as minhas terras, e começo a trabalhar como médico e ganhei muito dinheiro pelas viagens, sendo chamado a ver doentes até 30 léguas de distância, e ganhando além dos medicamentos que eu aplicava, e as doenças que eu tratava na minha estrada, 20 francos por légua. Mas este maldito lumbago cujos acenos aconteciam todas as vezes que eu montava à cavalo, me impediu de continuar estas viagens, eu vendi meus escravos, minhas terras e meus gados, e eu volto a Barbacena para ter mais recursos, para me tratar; e montei um colégio de instrução secundária, e onde eu era o principal professor. Isto ia bem, mas os espasmos que me tomaram a garganta e a laringe e que me propagam na traquéia ao ponto de me fazer temer uma asfixia iminente me impediram de lecionar, foi ainda necessário deixar este modo de viver. Os médicos que consultei e houve uma dúzia tanto no Rio quanto aqui, tanto brasileiros quanto estrangeiros, nenhum é de acordo com o outro. Uns me dizem que é a pneumo-gástrica que é afetada, um outro que é o grande simpático, um outro que é uma congestão e enfim outros que todos estes sintomas provem do esfriamento que eu tive nas costas, deitando na terra molhada durante minha viagem a Mocury, e que são mantidos por uma febre palustre que eu contrai e que ainda não tinha acabado até hoje. Entretanto me tem ainda e me vejo quando menos espero e sem causa aparente e sem que possa se explicar, ameaçado de asfixia, tudo isso faz com que eu tema sair em viagem, e às vezes de casa onde minha querida Antônia tem sempre medicamentos para vir me ajudar, e eu me acho um pouco inutilizado não podendo me dedicar a um trabalho ativo. No meu lazer, eu compus em português algumas obras para a instrução secundária, e que tiveram bastante aceitação, tendo sido aceito para a instrução pública e eu estou compondo uma outra que eu temo não terminar, porque a energia me falta e tenho muita dores ao escrever. Há dias em que eu tremo, de tal maneira que não posso quase assinar meu nome, e para te escrever hoje uma tão longa carta, eu retomei-a várias vezes, escrevendo sem óculos para poder escrever mais fino, porque então não tremo tanto. Eu temo que tu tenhas alguma dificuldade para me ler, mas talvez que com um pouco de paciência tu conseguirás. Eu tinha economias que eu tinha colocado com um indivíduo que me parecia sólido, mas no lugar de 150000 francos, eu não recebi com muito trabalho mais que 40000 francos, o que constitui hoje toda minha fortuna. Tu vês então que eu sou bem da raça pobre. Eu tenho como especialidade curar a loucura por meio de plantas do pais que conheço. Eu tenho 16 casos de curas que me tem dado muita reputação, e eu tenho agora em casa um louco que eu trato e que sendo muito rico me paga bem e serve para sustentar minha família visto que eu não tenho outro meio de prover suas necessidades. Eu estudo atualmente a botânica do pais. Eu tenho uma belíssima coleção de orquídeas que me valem as visitas de todos os viajantes ilustres e príncipes da família imperial aos quais eu dediquei uma espécie nova descoberta por mim. ( l`Odontaglonum amygdienne Sano boburgo )! Minha mulher me deu 14 filhos dos quais 8 estão vivos e entre os quais duas moças e três rapazes são casados e que até o momento me deram 17 netos. Eu tenho ainda 3 filhos para casar e já noivos e tenho dor de não poder prover as necessidades desta numerosa família. Ainda se eu tivesse saúde, se eu pudesse viajar, isto não seria nada. Quanto a fazer medicina na cidade isto não rende nada. São todos compadres, amigos aos quais não posso pedir nada. Se tu tens a ocasião de ler a obra do capitão Burton, viajante inglês muito famoso, tu verás no artigo de Barbacena o que ele diz de mim. Tu me fizeste tremer na sua boa carta quando tu me dizias que tu tinhas vontade de partir comigo! Deus preserve meu maior inimigo de sair de seu pais, de perder de vista seu campanário, pois não é somente a terrível nostalgia que nos apunhala, é a comparação que vos torna infeliz, e se tem a ocasião de faze-la diariamente. Infeliz fora de seu pais, o seria na nossa pátria, e não poderia mais nada em lugar nenhum, e é isso que me acontece. É preciso entretanto que eu termine esta carta já longa e que me deu muita dor por causa da dificuldade que eu tenho de escrever. Mas eu fiz questão de me compensar por um tão longo silêncio e da falta de relações impedidas por uma fatalidade que eu não quero procurar explicar, pois eu também eu te teria escrito se eu tivesse tido um endereço qualquer da tua parte. Eu te imploro para continuar a me escrever e a me dar notícias de toda a família pois meus filhos saltaram de alegria quando eles viram a carta do meu sobrinho Henri, e em seguida a tua, pois os fizeram compreender que embora de boa família, minha família me tinha desprezado, o que aliás explicava a falta de cartas da França. Envie-me todos os retratos da família, eu faço muita questão de te-los, e abrace por mim todos os membros da família que eu amo sem ter a felicidade de conhece-los. Minha mulher e meus filhos se unem a mim nesta mesma finalidade e receba para ti meu querido e bom irmão, um terno beijo de amizade. Eu teria querido publicar todas as minhas viagens e as descobertas que eu fiz, mas eu não tenho mais energia e esta carta já me cansou muito. Talvez meus filhos acharão algumas notas minhas, das quais eles poderão aproveitar. Eu vivo então mais ou menos o dia a dia, mas eu vivo e eu tentarei a cura de um outro louco quando eu tiver curado aquele que eu tenho atualmente em casa.

Ainda uma vez, eu abraço minhas irmãs e minhas cunhadas, e sou teu irmão que te ama

Victor Renault

Tradução coordenada por João Carlos Renault em DEZ/1996.

_________________________________________________________________

 

 

 

RELATÓRIO DA EXPEDIÇÃO DOS RIOS MUCURY E TODOS OS SANTOS, FEITO POR ORDEM DO Ex.mo GOVERNO DE MINAS GERAES PELO ENGENHEIRO PEDRO VICTOR RENAULT, TENDENTE A PROCURAR UM PONTO PARA DEGREDO.

 Ex.mo Snr. Antonio da Costa Pinto. – Mandado pelo Ex.mo Governo de Minas Geraes a explorar as mattas comprehendidas pelos rios Mucury e Todos os Santos, onde o mesmo Governo tenciona estabelecer uma colonia de degredados e vagabundos, sahi aos 22 de janeiro de 1836 da Imperial cidade de Ouro Preto dirigindo-me a Sabará, onde tinha os meus instrumentos; esperei neste lugar o Snr. Amedée Lavaissière, por quem devia eu ser coadjuvado n`essa commissão.

Chegado este, sahimos de Sabará, indo por Minas Novas e passando pela Villa de Diamantina, e sem querer entrar em superfluas minudencias sobre uma estrada de ha muito conhecida, chegámos á Villa de Minas Novas aos 18 de Março do mesmo anno, um mez depois da nossa sahida de Sabará.

Remetti no mesmo dia ao Presidente da Camara da dita Villa o officio do Ex.mo Governo, em que mandava que a mesma Camara coadjuvasse com todos os meios ao seu alcance a uma empreza de que devia resultar tão innumeros resultados a esta Comarca e á Provincia, em geral; mas direi a V. Ex.ia com muita magua, é tão lastimavel a posição dos Minanovenses e portanto de sua Camara, que não existia no cofre dinheiro sufficiente para pagar alguns – proprios – que a Comarca tinha precisão de mandar.

A villa de Minas Novas, situada a 17.º 37` e 3“ de latitude e a 40º 20` de longitude, foi outr`ora a metropole do commercio d`esta Provincia com a da Bahia, para onde transportava annualmente um sem numero de fardos de algodão, exportação esta que não só bastava para as necessidades publicas da Provincia, que infelizmente como as outras do Imperio, não usava senão de fabricas ultramarinas, como permittia tambem a muitas pessoas ajuntar consideraveis fortunas, que ainda existem em algumas mãos.

Porém o systema arruinado de agricultura, usado em umas terras tão favorecidas sobre diversos pontos, tem cançado as mesmas de tal sorte que hoje não produzem senão carrascos, debaixo dos quaes raros animaes, que por acaso resistiram a tão desastrosa peste, procuram algum alimento, que com difficuldade encontram; e o que é mais ainda a perda, por muitos annos, em Minas Novas, das sementes que produzem o algodão.

Algumas minas exploradas, tambem, no mesmo tempo, accrescentariam ainda a felicidade dessa Comarca, porém, trabalhadas a talho aberto, entupiram-se e ficou de menos aos Minanovenses a esperança de verem-se levantar o seu paiz, por minas de ouro, que na verdade são todas de quartzo, o que augmenta ainda a inconstancia que geralmente caracterisa esse genero de riqueza.

Encontrei, finalmente, pedras preciosas a saber: crysolithas, aguas marinhas ( do numero das quaes foi a tão afamada pedra de 16 libras que foi offerecida á Sua Magestade Dom João VI pelo seu descobridor ) que serviam para augmentar um futuro não remoto á felicidade de Minas Novas.

Mas os botocudos Jiporocas, que com muito custo se haviam afugentado, e não se vendo sem pouca magua despojados de suas terras, fizeram um ultimo esforço e continuaram independentes a percorrer as suas vastissimas possessões.

A sua presença e as suas atrocidades horrorisam de tal maneira a alguns emprehendedores que essas riquezas poderiam procurar, que nenhum d`elles se atreve a ir sacrificar a sua existencia.

Presentemente os Minanovenses vivem sobre si mesmos e do que conseguiram ajunctar em tempos mais felizes.

Foi este o estado de pobreza em que achei Minas Novas, não lhe ficando para remedio á sua decadencia senão uma communicação mais immediata com o littoral do Oceano e ainda a cultura de fertilissimas mattas; portanto ocioso seria pintar a V.Ex.ia o enthusiasmo com que os Minanovenses me receberam, fazendo mil votos afim de que eu desenvolvesse n`essa empreza toda a coragem, constancia e patriotismo que me poderia sugerir a minha patria adoptiva.

Apezar da penuria que já expuz a V.Ex.ia, muitos fazendeiros, vendo que por meio d`essa empreza podiam se livrar dos indios, fizeram uma subscripção que subiu a 117$000, quantia esta destinada á abertura de uma estrada, diminuindo assim a despeza do governo.

Dirigi-me tambem ao Tenente-Coronel Francisco Innocencio de Miranda Ribeiro, encarregado pelo Ex.mo Governo, não só para dirigir a Commissão com os seus conselhos, mas tambem auxilia-la com dinheiro, tendo-se mandado uma lettra de 1:000$000 que para esse fim foi destinada.

Esse digno e honrado militar prestou-se com todo o patriotismo e desvelo de que é dotado e de que já tem dado exhuberantes provas, tendo, o mesmo Snr., dado todas as providencias necessarias afim de que nada faltasse durante aquella viagem.

Estavamos promptos a principiar a nossa deligencia, não esperando senão a chegada dos soldados das divisões que por 2 vezes foram expedidos do Quartel Geral, precedidas de dez praças cada uma.

Tendo eu recebido, conforme determinação do Ex.mo Governo, a quantia de 200$000 destinada á compra de brindes para os Botocudos, encarreguei o Cidadão José Antonio Coelho de mos comprar.

Chegados os soldados das divisões, sahimos, de Minas Novas a 25 de Abril, com grande receio dos habitantes de que pagassemos o dizimo ás mattas do Rio Mucury.

Seguindo sempre a direcção léste indo para a Fazenda da Conceição, da qual, é possuidor o Snr. Antonio José Coelho, fazendeiro rico, de cento e tantos captivos, que sendo morador das encostas das mattas, tem soffrido immensos prejuizos causados pelos Botocudos – Nak-nanuks, que de vez em quando lhe fazem visitas sempre hostis e perigosas, matando-lhe o gado e destroçando as suas plantações.

É na esperança de se vêr livre de semelhantes visinhos que esse Fazendeiro fez os maiores sacrificios, e ultimamente prometteu fazer ( pelo Ex.mo Governo ) uma estrada transitavel para os animaes – cargueiros – até o Rio Mucury.

Chegados n`esta Fazenda da Conceição aos 28 do mesmo mez de Abril, esperavamos contemplar d`esde então aquellas tão antigas e magestosas florestas; foi-nos, porém, necessario ainda pôr um termo á nossa impaciencia, porque tendo o Cidadão Antonio José Coelho aberto um espaço de caminho, seguindo os antigos vestigios de Bento Lourenço, que ahi penetrou no anno de 1816, que foi impedida pela apparição de fumaça que se presumia ser dos Botocudos Jiporocas ( cujo nome só basta para horrorisar não somente aos habitantes civilizados, como tambem aos seus proprios visinhos – os Nak-nanuks ) voltou e tomou outra direcção, abrindo uma estrada tendente a procurar as cabeceiras do mesmo rio na distancia de 12 leguas.

Depois de feita esta, pudemos emfim preencher os nossos desejos fazendo a nossa entrada por esse caminho aos 9 de Maio, acompanhados: pelo Capitão Antonio Gomes Leal, seu filho, um interprete e soldados das divisões, seguindo a direcção de léste-sudéste, sem ter tido nada de extraordinario a notar n`esta travessia, a não ser mattas ordinarias pertencentes ao Rio Setuval.

Chegados a esse ponto, onde acabava a estrada, fizemos um quartel, distante ½ legua das cabeceiras do Mucury, afim de podermos verificar si os arredores preenchiam as vistas do Governo, e por isso subi a uma alta pedra de formação granitica, podendo alcançar até uma distancia assaz consideravel para me convencer de que não podia ser este o logar adoptado; resolvemos, então, a acompanhar o curso do rio Mucury até encontrar a travessia da antiga estrada de Bento Lourenço.

N`este ponto achei reunidos para mais de 300 Botocudos ( entre homens, mulheres e creanças ), da nação Nak-nanuks que, sendo mansos muitos delles tinham sido chamados pelo seu capitão – que hoje se entrega ao trabalho e vive muito amigo dos brazileiros, achando-se ao serviço na casa de Antonio Gomes Leal; e outros, – bravos – ainda, acompanhavam estes ultimos afim de partilharem dos brindes que eu fazia aos Botocudos mansos.

Os Nak-nanuks, cuja etymologia na sua linguagem quer dizer – habitantes da serra, ( por ser com effeito verdade, visto como habitam as serranias que devidem as aguas dos rios Mucury e Gequitinhonha ) fazem parte da grande e numerosa nação dos Botocudos, que chegados áquellas paragens ha 50 annos, mais ou menos, das partes ( deve se suppôr do Norte ) em numero immenso ( apezar de todos os esforços que fiz para saber dos mais velhos de onde vieram e que marcha haviam seguido, nunca me souberam dizer ) parece-me terem vindo da Asia, pelo estreito de Bhering quando o mar ainda não havia creado a passagem descoberta pelo celebre navegante que lhe traz o nome.

Atacavam, em diversos pontos e debaixo de differentes nomes, os antigos habitantes das mattas regadas pelos rios Doce, São Matheus, Mucury e Gequitinhonha; obrigaram, depois de ataques sanguinolentos, a nação dos indios, tambem dividida em grupos de differentes nomes, a se entregar á civilisação, resistindo, apenas, a este ataque geral os indios puris-, que ficaram nas suas possessões.

A sua linguagem, muito aspirada, tem uma semelhança extraordinaria com a chineza, como se poderá facilmente reconhecer por um vocabulario que tirei; o seu semblante é bem parecido com os dos chinezes, seus cabellos pretos, lisos e duros; têm pouca ou mesmo nenhuma barba ( supponho que a arrancam ).

Elles julgam homens corajoso aquelles que têm muita barba e crescida, por isso só os seus capitães deixam crescer a barba ( no queixo ) para tornar patente o seu grande animo.

São de estatura alta, constituição forte e genio extraordinariamente vingativo e independente.

Este caracter moral da maneira por que são creados, pois tendo eu visto um filho que por ter sido castigado por seu pae ( sem duvida por tel-o merecido ) batera em seu proprio pae auxiliado por sua mãe, que lhe ensinou por esta conducta que nunca se devia deixar impune qualquer offensa.

As idéas religiosas são poucas ou nenhumas; apenas elles suppoêm a existencia de um – ente supremo – que chamam em sua linguagem – Krenhouh Jissa Kijú – ( Chefe Grande ), mas não lhe rendem culto absolutamente algum; pelo contrario quando troveja, suppondo ( pelo seu caracter já descripto ) que não se pode aplacar a ira senão pelo medo, lançam flechas ao ar, com muitos gritos e dizendo: – Krenhouh Jissa Kijú jak jemes ( que o chefe grande está bravo ) e que precisam amansa-lo ou o atemorisar.

São nomades, isto é, nunca residem no mesmo logar, e arrancham aonde com mais facilidade podem encontrar caça; são antropophagos e gostam principalmente de negros, que chamam – Ankorá – ( macaco do chão ), porém nunca deixam de passar a carne ao calor do fogo; comem algumas raizes, e entre ellas a – caratinga -; tambem comem cipós, que contêm fecula assaz abudante e agradavel.

Quanto ao mais ignoram inteiramente o uso de plantas medicinais e somente os vi usar um – remedio – que consiste em encher de cynza ou terra qualquer ferida que tenham, por mais profunda que seja.

São muito achacados a dôr de olhos.

Vivem em constantes combates com os seus visinhos; e as suas flechas são hervadas com o – ucurú -; vivem até muita adiantada idade e um d`elles me pareceu ter para cima de cento e cincoenta annos!.

Abrimos uma picada, por entre brejos e pantanos, em uma distancia de dez legoas, onde encontramos vestigios do caminho seguido por Bento Lourenço; o nosso mantimento ia carregado nas costas dos soldados, porém tendo nós encontrado outros Botocudos ( da mesma tribu dos Naknanuks ) mais bravos ainda e aos quaes nos foi necessario distribuir viveres para grangear a sua amizade, fomos obrigados a nos estabelecer nas margens do rio Mucury e ahi fazer um – quartel -, pois o mantimento que tinhamos calculado poder durar dous mezes, já estava quasi acabado.

A picada que haviamos seguido era intransitavel para os animais cargueiros e distava doze leguas da Fazenda mais proxima.

Resolvemos dar promptos remedios aos nossos males, abrindo, do ponto em que nos achavamos, uma estrada que fosse encontrar a que Antonio José Coelho havia abandonado por causa dos Jiporokas.

Portanto aos soldados que dirigiamos, demos para esse fim todo mantimento que nos ficava, afim de que abriviassem um trabalho tão necessario; mas fomos illudidos, não indo nós mesmos assistir o trabalho ( para que não augmentasse o gasto do pouco mantimento que havia, e assaz necessario aos trabalhadores ): assim, sem mantimento algum, em um lugar distante 22 leguas da primeira Fazenda, cercados de Botocudos ( que muito embora tivessem relações comnosco, não deixavam de mostrar caracter hostil bastantemente accentuado ), vivendo, como elles, de cipós e cocos de brejauba, sem apparecer caça alguma, afugentada ou destruida por tão extraordinario numero de pessôas, entregues a uma cruel fome, que conta, no meio de suas victimas, um velho soldado das divisões: luctando todos os dias com o desejo de desempenhar a importante commissão de que fomos incumbidos e pensando na deshonra que nos acompanharia por uma vergonhosa retirada, e ainda os sentimentos de humanidade, que me suggeria ao vêr os males de meus companheiros, desconfiado, ainda, de que os soldados que mandára abrir a estrada, haviam succumbido ás flechas dos Jiporokas, que já tinham feito recuar Antonio José Coelho, resolvi a me sacrificar ou soccorrer os meus companheiros; e 15 dias depois da sua partida, puz-me em marcha, acompanhado pelo capitão Antonio Gomes Leal, seu filho e mais dous soldados, tendo deixado o Snr. Amedèe Lavaissière com seis soldados, duas ordenanças e alguns botocudos mansos que ja se achavam ao nosso serviço.

Promettemos-lhe breve socorro; e no 5.º dia depois de tão penosa viagem, privados do sustento necessario, tivemos a felicidade de encontrar um dos filhos do Capitão Antonio Gomes Leal que vinham socorrer os soldados que eu havia mandado.

Pedi-lhes que fossem com brevidade prestar soccorros ao quartel de Mucury, e eu, seguindo a minha viagem, acompanhado por dous soldados, tratei de abreviar a conclusão da estrada.

No dia seguinte ao da minha chegada a Fazenda da Conceição, voltando para o quartel do Mucury, com as ferramentas necessarias e os soldados da divisão, que se achavam na referida Fazenda, abri cinco leguas de estrada, n`esta parte, em quanto que o Capitão Antonio Gomes Leal abriu em outro ponto, igual distancia até nos encontrarmos, tendo eu feito pontes em todos os ribeirões, indo chegar justamente á margem do Mucury, onde estava estabelecido o Quartel, communicando-se com a outra margem do rio por meio de uma ponte que fiz construir sobre elle.

Foi na occasião em que eu estava abrindo esta estrada que tive occasiãode fazer experiencia de uma fructa que tem toda a semelhança com a – noz moscada – da India, e que eu suppunha, por essa razão, ter identicas propriedades; e sentindo-me com uma febre bastante forte, cansado, soffrendo um inverso rigoroso, fiz d`ella bebida que me foi tão favoravel e proveitosa que fiquei immediatamente alliviado do encommodo.

Algumas d`essas fructas se acham commigo, que poderei mostrar si assim o determinar V.Ex.ia.

Tambem n`esta mesma occasião, experimentei uma canella que não é bôa como a da India, mas que cultivada será em tudo igual a ella.

As diversas quinas conhecidas no Brazil, existem ahi em abundancia, e devo principalmente notar uma de casca fina, vermelha e que compete em tudo com a do Perú, devendo-se observar que o effeito febrifugo d`aquella é devido á chinconina em quanto que o effeito desta é devido á quinina.

O sassafraz, por ser muito conhecido no Brazil o seu effeito, e existir em tamanha abundancia n`aquelles sertões, não merece senão uma simples referencia.

A congonha – encontra-se tambem, a cada passo, de differentes qualidades e todas bôas.

Até ao ponto em que estava feita a estrada, abandonada por Antonio José Coelho, as terras ainda são vertentes do Jequitinhonha, porém deste ponto para deante começam as vertentes do Mucury, e mudam-se completamente as mattas, que desde logo tomam outro aspecto.

Á vista destas mattas tão vastas, gigantescas, bellas e ricas regadas por tão abudantes rios; á vista desses magestosos arvoredos, cujas frondosas copas impediam a penetração do Sol até as humildes plantas que rastejavam no chão; á vista d`esses enormes cipós que se estendiam de uma a outra arvore e assim pareciam liga-las para resistirem á impetuosidade dos ventos; á vista d`esses outros mais finos que humildemente se serviram dos troncos das arvores como amparo á sua ephemera duração; á vista de tudo isso, a minha imaginação me representou o emblema da sociedade, prescrevendo-me as regras que a devem reger.

Emquanto estava fazendo a ponte, no Mucury, para passar os animaes cargueiros, o Sr. Amedée Lavaissiére, continuava a estrada que se dirigia a Todos-os-Santos, e ahi chegamos todos aos 2 de agosto, ( terça-feira ) seis dias depois de sahir do rio Mucury, onde havia deixado a ordenança Fagundes com alguns outros soldados das divisões que deviam me aguardar n`esse ponto.

A estrada que vae até Todos-os-Santos ( chamado na linguagem dos Botocudos Tenta-hó ) dista 20 leguas do rio Mucury.

Esse rio já foi visitado pelo Coronel Bento Lourenço e algumas bandeiras que alli tinhão chegado e voltaram impedidos pelos Botucudos que lhes mataram tres ou quatro companheiros.

Esse logar tinha adquirido fama das mais extraordinarias riquezas possiveis, a saber: diamantes, esmeraldas, aguas marinhas, e crysolithas, que disputavam ao afamado rio a honra e o previlegio de serem arrastadas, no seo leito, pelas suas aguas correntes, que se iam junctar ás do Mucury de que é tributario.

Mas estudando a constituição geologica do logar e todos os indicios que me pudessem denunciar a presença de tão appreciaveis mineraes tive o desengano dessas supostas riquezas, e reconheci que as aguas d`aquelles rios não carregam senão os despojos das ricas florestas que regam.

Em quanto eu me occupava n`estas difficeis investigações que foram sem proveito. o sr. Amedée Lavaissiére foi visitar a serra chamada das Ametistas por suppo-la composta de pedras do mesmo nome e que se achava a 2 leguas de distancia do Quartel de Todos-os-Santos, não podendo eu, pelas amostras que me trouxe o mesmo sr., provar a supposta existencia de ametista n`aquella formação de accumuladas materias mineraes.

Aos 7 de Agosto chegou o soldado Innocencio, sendo portador de um officio de V.Ex.ia communicando-me os desejos que tinha de ver explorado o rio Mucury até á sua foz, ou embocadura no Oceano Atlantico.

Depois de sua volta da serra das Ametistas, dispoz-se o sr. Amedée ir á Fazenda da Conceição providenciar alguma cousa necessaria para a viagem, ficando a meu cargo toda a triangulação do logar destinado ao degredo e exploração ( por terra ) do rio Todos-os-Santos.

Portanto aos 8 do mesmo mez de Agosto, o sr. Amedée partiu com destino á fazenda da Conceição, e logo no dia seguinte comecei a exploração do rio Todos-os-Santos, que corre com enorme differença de nivel, atravessando grandes rochedos, que produzem n`elle immensas cachoeiras; as aguas que correm em seu leito são em pequena quantidade, tornando a sua navegação custosa.

Na distancia de doze leguas até a sua barra, correm vinte quatro corregos dos quaes sómente cinco d`elles conservam a agua no tempo da secca; não obstante esta falta no tempo da secca, podem industriosos colonos se utilizar de suas ricas mattas.

Durante essas digressões não encontrei os Jiporocas apezar dos esforços que fiz para chama-los á cathequização, si bem que tivesse encontrado frescos vestigios que testemuhavam a sua incontestavel presença.

Todas essas explorações estavam sendo feitas com a bussola na mão tomando todas as voltas do caminho pelas diversas direcções que tomava a agulha magnetica, e regulando com o relogio a distancia percorrida.

Este methodo, que não é de exactidão mathematica, não merece o nome de topographico, mas sim o de reconhecimento de terreno; outro meio é porém, impraticavel até hoje n`essas matas tão sombrias.

Os dous pontos necessarios do mappa são exactamente conhecidos, sendo cada um delles determinado pela sua Latitude e Longitude.

Emquanto eu explorava o rio Todos-os-Santos os soldados das divisões estavam empenhados na construcção das canoas que nos deviam conduzir até o Oceano, e logo depois do meu regresso fui medir o logar destinado ao dicto degredo, e que se acha distante 4 leguas do rio Todos-os-Santos, nas serranias que dividem as aguas do Mucury e Todos-os-Santos, tendo subido ao cume da serra afim de poder fazer a medição.

A natureza já havia destinado este logar para semelhante empresa.

Grande numero de serranias quasi inaccessiveis ao homem cerca este reducto em uma distancia de duas legoas sobre meia de largura; dous ribeirões que nunca seccam, e mattas fertilissimas o cobrem, não existindo senão duas entradas e uma bocaina por onde passa o ribeirão.

Assim com certas obras que poderão ficar em 25:000$000, ahi poderão ser guardados e seguros os criminosos que forem remettidos, sem jamais poderem conservar esperança de se evadirem; e se tal acontecesse teriam uma matta de 40 legoas a atravessar até chegar á primeira Fazenda, e não lhes deixando armas de qualidade alguma como tambem mantimento á sua disposição, parece muito custoso poderem se evadir.

A colonia ahi estabellecida, estará limitada de uma parte pelo rio Mucury, da outra pelo rio Todos-os-Santos, fazendo um triangulo isoceles de 20 leguas de um lado, 12 de base e 10 de altura, appresentando por tanto uma area de 120 leguas.

Os criminosos principaes ficariam circumscriptos a uma area fechada trabalhando a terra durante o dia, e sendo recolhidos a noite.

E em logar dessa ociosidade que se entregam os criminosos recolhidos nas cadeias publicas, ver-se-hiam obrigados a trabalhar, e talvez que lhes voltasse o amôr ao trabalho e por essa obrigada applicação ( esquecendo os vicios acoimados em seus corações ) tornassem a ser uteis á sociedade e a si mesmos.

Para esse fim deveria ser formado um quartel de divisão composto de 80 praças, repartidas em diversos destacamentos, conforme exigirem as circuntancias.

Acho aqui occasião para falar no gonum que alguns chamam azogue vegetal ou tambem Anna Pinta, e que se acha em grande abundancia n`essas paragens.

O seu effeito em muitas enfermidades é assaz conhecido pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Merece maior attenção ( por não ser conhecida ) uma fructa cujo oleo extrahido tem a propriedade de combater as mais pertinazes empigens.

Algumas dessas fructas acham-se em meu poder, e farei a este respeito o que determinar V.Exc.ia.

Encontrei tambem outra fructa que sendo cultivada poderá ficar uma das melhores que temos e que os Botocudos chamam de Kapamja.

A ipecacuanha ( poaia ) impede pela sua abundancia o progresso de muitas outras plantas que nascem nesses logares.

Havendo finalmente terminado a medição do degredo voltei para o quartel de Todos-os-Santos onde achei tudo prompto para a viagem, esperando apenas para me embarcar pela presença do sr. Amedée; e receando ao mesmo tempo embarcar só com os soldados, e descer o rio ainda intransitavel, por não ser ainda navegado, esperei 6 dias, vivendo no meio da matta, unicamente com dez soldados, quatro botocudos mansos, um – lingua – e o meu camarada.

A estação pluviosa que já estava adeantada, e que ia tornar impossivel a navageção do Mucury; o grande empenho e desejo que eu tinha de levar a effeito a empresa começada, resolveram-me a embarcar aos 13 de Septembro com 7 soldados, 4 Botocudos, um – língua – e o camarada tendo enviado os outros para se ajuntarem aos que se achavam no quartel do Mucury, onde de ante mão tinha dado providencias para que no meu regresso encontrasse os mantimentos necessarios.

A este respeito officiei a V.Ex.ia aos 10 de Septembro, relatando igualmente o que havia até então occorrido.

Esperei neste logar o sr. Amedée, e tinham já decorridos 36 dias sem delle ter noticia alguma.

A ordenança Lourenço achando-se doente não me poude acompanhar e voltou para a Fazenda da Conceição.

Embarcando-me finalmente aos 13 de Septembro de 1836, encontrei trez dias depois ( 16 ) a barra do rio Todos os Santos no Mucury.

O rio Mucury até encontrar o rio Preto, que desagua n`elle, na parte norte, é largo e magestoso; para baixo do rio Preto encontra-se o primeiro cordão de serranias, sobre as quaes elle faz grande numero de entaipadas e travessões, que apezar da muita correnteza não offerecem nem dificuldades, nem perigos aos navegantes, podendo asseverar a V.Ex.ia, que sómente tres vezes tivemos de conduzir as cargas na distancia de 40 a 50 passos apenas.

No 7.º dia de viagem, logo para baixo do Rio Preto, tive o primeiro encontro com os botocudos selvagens ( da nação dos Jiporocas ) em numero de 25 arcos; pouco mais ou menos 80 pessôas.

Não pressentiram elles a nossa chegada por causa das muitas precauções que tomei, ordenando sempre que não dessem tiros, nem gritassem, pois não desejava encontral-os com tão pouca gente ( da minha parte ), e tão minguados socorros; e graças a essas precauções, escapamos milagrosamente de diversos ataques a que talvez não resistissemos com facilidade.

Impedidos, pela violencia com que desciamos, de nos lançarem flechas, avisaram com gritos estrondosos, aos seus companheiros que iamos rio-ábaixo.

Mandei então parar as canôas no meio do rio, e por meio do – lingua – que comigo levava, e depois de ahi pemanecermos até á noite resolveram chegar a falla.

Reparti entre elles algumas ferramentas, que para esse fim levava, e pelo que pude colligir, elles nunca tinham conhecio pessôa alguma civilizada, não vendo nas suas possessões cousa alguma por que pudesse descobrir indicis do uso de ferramentas, como tambem lhes eram desconhecidos os mais usuaes vivees usados pelos habitantes da Provincia.

Passei a noite no meio d`elles, e já adormecendo, quando sahirão todos com as flechas mettidas nos arcos, cercando-nos e tomando a sahida das canôas.

Dei immediatamente ordem aos soldados para que tivessem promptas as armas, caso fosse necessario usar d`ellas.

Conhecedor de seus instinctos, sabendo que não nos faziam mal sinão por trahição, tinha certeza de que nada nos faziam si vissem qualquer pessôa accordada.

Suponho que o projeto d`elles, apezar de apparente amizade que nos testemunhavam, era o de nos tirar a vida, apoderando-se do que existia nas canôas.

Embarquei-me no dia seguinte bem cedo e já com a noticia de que outra tribu que achava rio-abaixo.

No 8.º dia de nossa viagem, tivemos a infelicidade de ver-se submergir a canôa que levava o mantimento, vivendo nós, até chegarmos ao Oceano, de pouca farinha, que se havia salvo, sem nos podermos utilizar da caça que apparecia para não dar a conhecer aos selvagens a nossa presença por aquellas paragens.

Todos os objectos conduzidos na canôa, tanto pertencentes ao Governo como aos soldados, perderam-se.

Tres dias depois tive um segundo ataque de outra tribu que se achava logo ábaixo da ultima cachoeira: esses nos haviam pressentido, e por isso, fazendo emboscada, já nos esperavam na entrada de um boqueirão, onde o rio muito diminuto rm largura, permittia-lhes esconderem-se atraz das pedras que ahi se achavam.

Chegados á entrada do boqueirão, que não nos permittia mais voltar ( caso entrassemos ), e já arriscados pelos vestigios que appareciam, e avistando uma fumaça na parte Norte do rio, mandei embicar a canôa na parte contraria, e ainda não tinhamos desembarcado, quando um numero consideravel de flechas lançadas de distancia muito proxima nos mostrou o eminente perigo, mas protegidos pelos troncos das arvores, aonde nos abaixavamos, mandei-lhe dirigir a palavra, convencendo-lhes de que não era nosso intento fazer-lhe mal algum e que pelo contrario lhes traziamos instrumentos mais faceis e mais violentos dos que usavam.

Nada aplacava a ira que lhes causou a nossa presença.

Cada flecha era novo trabalho para mim que já não podia conter os soldados que anhelavam responder com tiros.

Perdidos seriam para sempre, os nossos trabalhos, e para sempre fechadas essas mattas ao elemento civilisador, si dessem algum tiro, porque instigados pelo caracter moral de que já fiz mensão, principiaram uma guerrilha interminavel, como si vê ainda nos botocudos do rio Doce que quasi sempre atacam os passageiros si bem que entregues á civilização.

Vendo assim, que nem as promessas, nem outros meios faziam demover-lhes a ira, usei de uma estrategema que satisfez cabal os meos intentos.

Tendo eu sabido pela tribu que deixei atraz que existia uma rixa entre esses botocudos e os indios de beira-mar, ( chamados na sua linguagem: Makão Kugi – indio pequeno ), approveitei-me dessa noticia e disse-lhes que havendo sabido nos paizes longinquos d`essa rixa e os prejuizos que lhes causavam esses inimigos, vinha para auxilia-los.

Immediatamente longe de nos hostilizar, fazendo-nos gestos de alegria e satisfacção, pediram-me que não tardassemos em vinga-los.

Reparti entre elles o restante da ferramenta que trazia, e ficando muito satisfeitos, prometteram-me não atacar mais a pessôas que por alli passassem.

Depois de tão innumeros trabalhos, cheguei aos 29 de Septembro á barra do rio Mucury, onde desagua no Oceano Atlantico, tendo-o explorado e tomado todas as suas voltas por meio da busula e regulada a celeridade da canôa por uma ampulheta que fiz, e uma corda a qual tinha amarrado um peso para servir de ponto fixo: esta corda era dividida em metros e conforme a celeridade da canôa se desenvolvia mais ou menos durante o tempo em que vasava a sobredita ampulheta.

O rio Mucury corre para Léste-Sudéste e serve de limite natural ás provincias brazileiras do Espirito Santo e Bahia ( pelo Norte ).

A trinta leguas rio-ácima existe outro limite natural entre a Provincia de Minas ( ao Oeste ) e Bahia ( a Léste ); é uma cordilheira que corre de Norte a Sul, e na qual tem nascimento muitos rios.

D`esta cordilheira em diante o rio corre com muita mansidão, e é chamado pelos naturaes – Rio de Areia -.

A barra do Mucury é uma das melhores na costa Sul do Brazil, pois tem canaes de 8,14 ou 18 palmos d`agua ( maré baixa ), com fundo de lama e agua doce para as embarcações.

No pontal feito pelo rio e o mar existe uma pequena villa, composta de quarenta fogos habitada por pescadores, cujo aspecto e existencia é o mais miseravel possivel (chama-se villa de S. José do Porto Alegre ).

Está situada a 18º e 30` de lattidude e 41º 37` e 30“ de longitude, e habitada pelos antigos indios – Mukuinis – que vieram nestas costas procurar um refugio contra ataques dos botocudos – Jiporokas.

As margens do rio são ferteis em madeiras de lei, a saber: jacarandá, cabiuna, cinhatico, balsamo, ipê, jiquitibá, aroeira e brauna.

Não tem ramo algum de febres malignas, nem sezões, vantagem que bastaria para torna-lo preferivel aos rio Doce e Gequitinhonha, cujos habitantes são diariamente assolados por innumeras epidemias.

Além de todas essas vantagens, offerece uma navegação ( que principia da barra do rio das Americanas, que desagua nelle na parte do Norte ) menos perigosa e mais rapida.

O unico obstaculo que se offerece, pois, a pôr uma communicação por agua entre esta tão desgraçada Comarca de Minas Novas, é o numero de Bugres que infesta as margens do Mucury, obstaculo este muito facil de se solver, confiando-se a um homem de zelo, prudencia e capacidade reconhecida a cathequisação dos selvagens habitantes d`essas mattas; e estou certo de que no espaço de dous annos, contará o Governo d`esta Provincia mais este elemento de prosperidade em seu seio.

Por esta obra de philanthropia e de dever, estarão francas aos emprehendedores as riquezas existentes no rio das Americanas.

Tendo eu perdido a esperança de voltar pelo mesmo caminho ( rio ácima ) por causa de uma grande enchente, e não querendo esperar para não perder algum tempo que me não pertencia, resolvi-me a costear o mar ( por terra ), dirigindo-me para Norte, procurando a estrada que acompanha as margens do Gequitinhonha e seguindo-a até Porto Seguro, distante 40 legôas da Villa de São José de Porto Alegre.

Rompendo a picada chamada das boiadas, achei-me, no fim de 5 dias de viagem, na estrada do Gequitinhonha, até á barra do Arassuahy ( seu continente ) e chegado ao Calhão dirigi-me para a Fazenda da Conceição, onde cheguei aos 14 de Novembro depois de haver percorrido 150 legôas desde Porto Alegre até a Fazenda da Coelho, como se poderá vêr no mappa que tenho a honra de appresentar a V.Ex.ia.

Durante esta viagem gastei com 15 pessôas a quantia de 110$000.

A navegação do Gequitinhonha, que tambem tive a occasião de explorar, é a peior, posivel, e não o permitte alimentar esperança de se verem facilitados em seu seio os meios de communicação, sem contar ainda no numero das difficuldades as sezões que assolam annualmente os habitantes, que contam no meio das victimas, uma decima parte de suas povoações.

No dia seguinte ao da minha chegada na Fazenda da Conceição tratei de fazer o Relatorio que vos appresento.

Chegando á Villa de Minas Novas aos 3 de Janeiro do corrente anno, onde me occupei em finalizar as contas relativas á expedição, puz-me em marcha para essa Capital, passando pelas Villas de Diamantina e do Principe.

Chequei finalmente a esta Capital aos 21 de Fevereiro, onde tenho tratado dos ultimos retoques na prestação de contas da incumbencia que me coube.

O Governo poderá tirar da miseria e penuria a que está entregue a Comarca de Minas Novas, que por meio da navegação por mim indicada, e cujos serviços poderão ficar em 20:000$000, abrirá communicação immediata com o Oceano, podendo-se ir de Minas Novas a Porto Alegre em 13 dias ( com canôas carregadas ) e d`ahi por mar até a Bahia em 2 dias.

Deve, porém, ser preferida a navegação para o Rio de Janeiro, apezar da inconstancia dos ventos que sopram de Léste Nordeste, podendo-se fazer esta viagem, de Porto Alegre, em 3 dias.

Entregando á V.Ex.cia este meu trabalho, reclamo, de um lado, a indulgencia por algumas faltas imprevistas, e alguns erros, que si os tive, foram dictados pelo amor e grande interesse que tomei por esta tão grande, ardua e melindrosa tarefa, e vangloriando-me si por esses limitados serviços, puder pagar o tributo do reconhecimento á tão conhecida hospitalidade desta rica e bella Provincia.

Deus guarde á V.Ex.cia.

Ao Ill.mo Ex.mo Snr. Antonio da Costa Pinto, Muito Digno Presidente d`esta Provincia.

Do encarregado da expedição, – Victor Renault.

Ouro Preto, em 2 de Abril de 1837.

Esta transcrição foi realizada em 1998 por João Carlos Renault.

 ________________________________________________________________________________

Publicado na Folha da Manhã, domingo, segunda-feira, 24 e 25 de janeiro de 1954

PIRATININGA : 1532 – 1560

Sergio Buarque de Holanda

 ROMA, janeiro (Via Panair do Brasil) – A fundação, há quatrocentos anos, de um povoado de portugueses apartado doze leguas do litoral atlantico, em sertão quase invio – só acessivel através de asperas veredas, que até ao seculo passado seriam o tormento ou o espantalho dos viajantes – sugere problemas que transcendem o alcance de uma simples historia regional. Em parte alguma das suas conquistas, certamente em lugar algum do Brasil, tinham os lusitanos formado um assento urbano tão longe da costa maritima ou dos rios navegaveis. O principio que, expresso ou não, governa por essa epoca toda a sua expansão ultramarina, manda que as regiões de terra a dentro não se povoem antes de assegurado o povoamento, a defesa e a posse da marinha. O contrario seria desampararem-se, com funesto efeito, as mesmas conquistas, sobretudo se em sitios infestados de inimigos e corsarios.

Precisamente no Brasil, aquele principio, ditado pelas condições especiais de sua metropole européia, que não dispunha de gente numerosa e nem, por isso mesmo, de poderosa milicia, para ensaiar em seu longo imperio uma empresa de molde aparatoso, comparavel à que se vinha realizando nas Indias de Castela, é manifesto já nas cartas de doação das capitanias, onde se estipula que aos donatarios será licito erigirem tantas vilas quantas queiram junto ao mar ou aos rios navegaveis, porem que pela terra a dentro as não poderão fazer, salvo se entre uma e outra corra espaço minimo de seis leguas. A idéia era, claramente, conterem-se os povoadores nas imediações dos portos de embarque e pontos vulneraveis da costa, pois não seriam os colonos em tamanho numero que pudessem ser encaminhados ao sertão sem se despovoarem aqueles sitios. Em resultado de uma tal providencia, o Brasil quinhentista não abriria exceção à regra então dominante no mundo português, que um historiador dos nossos dias definiu sugestivamente dizendo que constava de “uma linha de fortalezas e feitorias de dez mil milhas de comprido” (1)

Mas a exceção existe. Existe, paradoxalmente, no ponto exato onde a barreira das montanhas, que no Brasil acompanham a orla costeira, parece oferecer maior estorvo ao acesso e penetração do territorio. Ainda mais: “O empenho de triunfar sobre esse natural obstaculo e de se instalar serra acima parece perseguir os colonizadores logo depois de familiarizados com o litoral vicentino.

Nada, ou quase nada, sabemos das entradas daqueles portugueses – reinóis ou mazombos, brancos e mestiços da terra – que, antes de chegar a armada de Martim Afonso de Sousa, tinham na ilha de São Vicente um povoado estavel, onde se dedicavam ao trafico de escravos indigenas. Mas não foi certamente por acaso que o capitão português, tendo corrido toda a costa conhecida dos demonios portugueses na America, elegeu aquele ponto para penetrar o sertão e ali levantar pelourinho nos campos de Piratininga. Como, por falta de comodidade, logo se dispersasse essa primeira vila, nem assim esmorece o empenho de povoar o planalto. Passados quase vinte anos, em 1550, o padre jesuita Leonardo Nunes escala, por sua vez, a serra fragosa, encontra ali derramados os cristãos pertencentes ao nucleo disperso, que não tinham tornado ao litoral, e trata de juntá-los novamente. Como não pudessem ter vida civil ou religiosa, por falta de quem curasse disso, fez com que se reunissem todos, desta vez à borda do campo, em torno da pequena igreja que fizera construir. Com razões provaveis supõe Serafim Leite que se tratasse da ermida e povoação, mais tarde vila, de Santo André, o celebre reduto de João Ramalho e de seus filhos mamelucos (2).

O nucleo originario da atual São Paulo é notorio que não foi ali, mas em lugar distante duas leguas para o sertão, à margem do rio que então se chamava Piratininga e, de fato, “onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou” (3). Sabe-se hoje que a fundação dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nobrega, ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro do ano seguinte, se inaugurou a casa nova, de taipa, destinada aos irmãos, ainda se conservava no local a velha cabana em que ficara situada a “escola de meninos” do irmão Afonso Rodrigues, diferente da “escola de gramatica”, ou de latim, do irmão José de Anchieta. O adjetivo “velhissimo”, expressamente aplicado ao edifício (“pauperrimo et vetustissimo… tuguriolum”) no texto jesuitico onde vêm consignados estes fatos, não combina facilmente com a suspeita de que datasse apenas do estabelecimento preliminar dos inacianos anterior de cinco meses à fundação oficial e ao batismo do povoado. É perfeitamente natural, por outro lado, a suposição de que subsistisse ainda em 1554, no local, alguma das taperas da vila de Martim Afonso de Sousa. Nesse caso não é audacioso dizer que o povoado de Nobrega se enlaça perfeitamente ao de Martim Afonso e, assim, que as comemorações atuais se hão de referir, não tanto à fundação inicial, como a uma segunda e definitiva fundação. A primeira dataria, em realidade, de 1532.

Nada disso diminui o papel que coube ao Provincial dos jesuitas nas origens da atual São Paulo. Melhor do que outros, melhor do que o primeiro Governador-Geral, soubera ele ver as vantagens, ao menos para o mister da catequese, de uma entrada e fixação nas areas de serra-acima. E ainda que essas vantagens parecessem resumir-se, de inicio, no seu desejo de conservar o gentio da terra livre de contacto assiduo com os colonos, o interesse que depois mostrou na mudança para o novo local dos moradores de Santo André da Borda do Campo – mudança que se fará em 1560 por determinação de Mem de Sá – indica que tal razão não seria preponderante em seu pensamento. E em carta de março de 53, escrita a seu mandado e só agora divulgada por Serafim Leite, diz-se que já era intenção do Provincial ir pela terra dentro e fazer entre os gentios “uma cidade” (4).

Contra esse pensamento, as razões opostas por Tomé de Sóusa, que tratou obstinadamente de embargar o plano de um novo estabelecimento na boca do sertão, obedecem ainda à concepção portuguesa tradicional, que só via em uma tal iniciativa o risco de ficar inteiramente desamparado o litoral maritimo. Esse risco era particularmente sensível no momento em que surgia noticia ou esperança de haver ouro e prata por aquele sertão. À mesma razão alude Nobrega quando tenta discriminar as causas da resistencia do governador. “Porque”, observa em carta daquele ano de 53, “fôra abrir as portas a grandes males e a se despovoar esta capitania”. Adiante, na mesma carta, justifica-se mais pormenorizadamente aquela noticia, ou esperança, com a alegação de se terem encontrado minas de prata, embora, por falta de quem as fundisse, não se soubesse ao certo o que fosse, “as quais minas”, diz-se textualmente, “acharam e descobriram os castelhanos do Paraguai, que estarão daqui desta Capitania (de São Vicente) 100 leguas e está averiguado estarem na Conquista de El Rei de Portugal”.

É de todo interesse aproximar-se a essa informação o constante de um documento aparentemente ainda inedito existente no “Archivo General de Indias de Sevilha”, onde o espião castelhano Martin de Orue relata os resultados da missão secreta que lhe fora confiada em cedula de sua majestade Catolica, de obter pessoalmente, com a melhor diligencia, em Lisboa, varias informações relativas à expedição de Luís de Melo. Nesse papel, a que tive oportunidade de aludir em outra ocasião (5), declara Orue que, no mês de setembro de 1553, “veio um homem da mesma capitania de São Vicente e vizinho dela, chamado Adão Gonçalves, por parte do capitão daquela terra, o qual trouxe certos metais que houvera da gente do Rio (da Prata), que lhe haviam dado os espanhóis que tinham pousado em sua casa e o que lhes tomou o capitão da terra e parte desses metais diz que eram da Assunção e parte do Piquiri”. Acrescenta que, chegando a Lisboa, Gonçalves dera parte do caso a Martins Afonso de Sousa e, feitos dos metais certos ensaios, acharam que era prata e de boa qualidade (6).

A noticia logo se divulgaria em Lisboa e os mesmos Martim Afonso e Adão Gonçalves, juntamente com dois mercadores que tinham seus negocios de açucar em São Vicente, a saber o flamengo João Benyste (isto é Jan Van Hielst, agente dos Schetz de Antuerpia) e o genovês Felipe de Adorno, pleitearam de sua alteza que por nenhum modo permitisse passagem pelo caminho entre São Vicente e Assunção, caminho este que Tomé de Sousa mandaria cegar, por assim convir melhor à real fazenda. Ao mesmo tempo solicitavam lhes fosse autorizado entrar pela terra a dentro em busca de minas e metais, e que onde os achassem e povoassem, pagariam os quintos e direitos pertencentes à Coroa. Outrossim, onde quer que encontrassem os ditos metais, e por espaço de vinte leguas em torno, nenhuma outra pessoa poderia entrar a buscá-los ou descobrí-los.

Segundo o mesmo documento, deferiu El Rei ao pedido, dando aos requerentes o alvará necessario. E seu fim – comenta Martin de Orue – “era ir às minas do Piquiri, porque dizem que aquela terra e ainda a Assunção entram na demarcação do rei de Portugal”. Com esse despacho, já em março do ano seguinte saiam de Lisboa, com destino a São Vicente, os ditos Gonçalves e Adorno, decididos a pôr o plano em execução.

Seja qual for a parte de fantasia que possa entrar na relação de Ourue, entregue ao “Conselho de Sua Majestade o Imperador em Valadolid” a 5 de setembro de 1554, suas informações completam e ampliam em partes o que sabemos através das palavras de Nobrega e de Tomé de Sousa. A noticia da existencia de prata no Piquiri resultaria sem fundamento após exames mais acurados do que os que se teriam ensaiado em 1553 no metal ali encontrado. E quando Felipe de Adorno e Adão Gonçalves partiram de Lisboa, em março de 1554 já estava fundada, e com seu nome definitivo, a povoação nova do campo de Piratininga.

Os pretensos achados de minas só indiretamente poderiam ter influido no bom exito do estabelecimento. E no entanto é de todo provavel que de algum modo estimulassem a penetração do territorio. É de crer que a mesma causa tivesse agido vinte e dois anos antes sobre o animo de Martim Afonso quando decidira criar um vila no planalto: por isso ficou dito acima que não seria casual sua decisão de escolher este e não outro ponto dos dominios portugueses para fundar um primeiro nucleo fixo de moradores fora da orla maritima. E tambem não terá sido por acaso – acrescente-se – que, tendo percorrido toda a costa brasileira, foi em São Vicente que obteve seu quinhão ao instituir-se o regime das capitanias.

Em realidade, das terras que quase certamente cabiam na demarcação lusitana da America, era esta, geograficamente, a mais chegada às regiões platinas, já celebres pelas riquezas fantasticas que lhe atribuiam os primeiros navegantes. Já ao sul de Cananéia principiava a area que esses marujos tinham batizado com o nome de “costa do ouro e da prata”. Dali os homens da armada de d. Nuno Manuel tinham levado, a partir de 1514, noticias da existencia de um misterioso povo serrano que trazia “ouro batido à maneira de arnez do peito”. Ali, segundo se dizia, fora colhido o fabuloso machado de prata que tanto trabalho deveria dar às imaginações quinhentistas. Por ali, conforme tinham apurado marujos castelhanos e lusitanos entre gente da beira-mar, ganhava-se facil acesso ao país do lendario Rei Branco. Do Porto dos Patos, em Santa Catarina, saira o português Aleixo Garcia, um dos naufragos da expedição de Solis para a magnifica jornada aos contrafortes andinos, de onde pudera recolher grande copia de metal precioso antes de ser sacrificado, no caminho de volta, pelos indios carijós. Dessa expedição provinham as peças de ouro que outro componente da armada de Solis, Melchior Ramirez, exibira a Caboto em Santa Catarina. Um companheiro de Ramirez, Henrique de Montes, tambem conservava, consigo, grande quantidade de ouro.

E segundo depoimento de uma testemunha, dizia este à gente da expedição que “nunca ombres fueron tan bien aventurados como los de la dicha armada, que avia tanta plata y oro en el Rio de Solis, que todos serian ricos…” (7). Desse mesmo Henrique de Montes sabe-se que Martim Afonso o levaria consigo como lingua e pratico da terra e não será de admirar se, conhecedor da aventura de Garcia, foi um dos animadores da entrada que o futuro donatario mandou sair de Cananéia rumo ao sertão longinquo, sob o comando de Pero Lobo. Em reconhecimento pelos seus prestimos, apesar do malogro da jornada, foi ele recompensado com uma extensa sesmaria, a mesma que, por sua morte, vitima dos indios, seria dada a um criado do donatario, Brás Cubas.

Se Martim Afonso fixou sua escolha, para a primeira povoação sertaneja, no interior das terras de São Vicente, não no da Cananéia ou de Santa Catarina, a razão estaria em que a adjudicação destas terras à Coroa lusitana tinha menos probabilidades de ser contestada por parte dos castelhanos, inclinados naturalmente a ver ampliadas, tanto quanto possivel as areas de sua demarcação. Os portugueses, por sua vez, pagavam em moeda identica, e vimos como bem mais tarde ainda pretendiam negar os direitos de seus vizinhos sobre Assunção. Contudo uma prudente cautela aconselhava Martim Afonso a não trocar o certo pelo duvidoso ou discutivel, sob pena de deitar a perder todo o seu esforço. Se não faltava entre castelhanos quem reivindicasse para sua coroa a propria São Vicente, tais pretensões eram mais indecisas: prova estava no fato de já existir de longa data no litoral vicentino um povoado de portugueses, e portugueses que mantinham relações amistosas com o gentio de serra acima. Tudo isso era de perfeito conhecimento dos marinheiros espanhóis que frequentavam tais paragens e traficavam com os moradores ou se utilizavam de seus serviços. A simples presença de um tal nucleo onde se incluiam, sem duvida, homens longamente habituados à terra e conhecedores de seus segredos, não era menos, para Martim Afonso, um motivo de boa esperança. Entre esses homens poderia ter colhido o capitão informes sobre a possibilidade de comunicações por terra firme com o Peru ou a Nova Granada. De tal possibilidade há noticia posterior nos curiosos “apontamentos oferecidos a d. João III por certo Diogo Nunes acerca das viagens que realizou em terras peruanas, onde participou da expedição de Mercadillo ao país dos Omagua.

Nesse texto, que Varnhagen encontrou na Torre de Tombo e foi o primeiro a divulgar, diz-se como do Peru se poderia chegar ao Brasil pelo Amazonas, e acrescenta-se: “Tambem poderei ir a São Vicente atravessando pelas cabeçadas do Brasil…” O proprio Varnhagen tentou indentificar o redator do papel com certo Diogo Nuñez de Quesada que em 1544 andou em Lisboa de volta do Peru. Capistrano de Abreu mostra, no entanto, em nota à História Geral do Brasil, a improbabilidade de uma tal identificação. E, por sua vez, associa Diogo Nunes ao mameluco levado do Brasil por Tomé de Sousa, mencionado em uma carta que o embaixador Luís Sarmiento de Mendoza escreveu de Lisboa no ano de 1553. Esse mameluco, filho de um português, tambem fora do Peru ao Brasil levando noticias de ouro e prata. Como argumento em favor de seu alvitre, observava Capistrano de Abreu que “é mais facil existir no mesmo tempo, no mesmo lugar, com os mesmos planos, um só homem do que dois”. E ainda acrescenta: “Se Diogo Nunes descendia de pai português e mãe india, é provavel que fosse natural da capitania de São Vicente”.

Não obstante tamanhas probabilidades, as conjeturas do grande historiador são prejudicadas pelo seguinte trecho que se lê na relação acima citada de Martin de Orue: “Del peru vyno por el año pasado un pasajero natural português que se dize domyngo nunez natural de moron ques Junto ala Raya de Castilla el qual trajo de veynte a treynta myll ducados este andando persuadiendo al Rey por una conquysta por el (Brasil) para por ally entrar a las espaldas de cuzco”. Essa passagem deixa poucas duvidas sobre o assunto. A dificuldade principal para a identificação entre o Nunez natural de Mourão e o dos “Apontamentos”, ou seja a diferença nos prenomes, torna-se de pouca monta quando ponderamos que “Domingo” e Diego” são palavras que se podem eventualmente confundir e que, abreviadas, segundo o uso generalizado na epoca, não apresentam diferença alguma.

É certo que as comunicações diretas entre São Vicente e o Paraguai, caminho do Peru, não teriam sido utilizados entre europeus, muito antes da fundação de São Paulo. Do contrario explica-se mal a informação escrita depois de 1554 por d. Mencia Calderon, viuva de Juan de Sanabria, e publicada pelo historiador chileno Morla Vicuña, de que se podia ir a Assunção, de São Vicente “por cierto camiño nuevo que se habia descubierto”. Justamente por esse caminho tinham querido alcançar o Paraguai alguns dos naufragos da armada de Sanabria. Nos dois anos anteriores tinha sido ele trilhado por numerosos castelhanos e portugueses que, segundo parece, iniciaram atraves dele um rendoso comercio. Para os castelhanos especialmente, era de grande proveito, depois do abandono da primeira Buenos Aires, por fornecer ocasião de negocios lucrativos com os moradores. Tanto que Tomé de Sousa, em carta de junho de 1553, observava como, em resultado das comunicações frequentes entre as duas cidades, a alfandega de São Vicente rendera, no ano anterior, cem cruzados de coisas que traziam a vender os castelhanos. Já me ocorreu, em outro escrito, apontar alguns nomes de viajantes que nos são conhecidos através de documentos da epoca. Pode-se dizer que essas comunicações constituem, propriamente, uma pré-historia das bandeiras paulistas, ainda que fossem feitas nos dois sentidos e mais ativamente, talvez, por parte dos castelhanos do que dos lusitanos. Contudo, inquieto com as consequencias possivelmente funestas que podiam resultar de tais contatos, principalmente depois das noticias das supostas minas de prata do Piquiri e do Paraguai, o primeiro governador geral ordenou que cessasse de todo o transito. E a partir de então, apesar da viagem clandestina, pelo Tietê, de João de Salazar e seus companheiros – entre eles os dois filhos de Luís de Gois – e, mais tarde, das lutas de Jeronimo Leitão contra os carijós do sul, cessam quase de todo, por longo tempo, os contatos por terra firme com o sul. A propria atração do metal precioso que por essa epoca seria menos forte entre os moradores da capitania do que a caça ao gentio da terra, deveria incliná-los para outras direções. Era esse o resultado das pesquisas de Luís Martins e Brás Cubas como o seriam tambem os dois achados dos dois Sardinhas, pai e filho.

Segundo todas as probabilidades, a um parente do primeiro donatario e do primeiro governador-geral, a d. Francisco de Sousa, se deverá, já em principios do seculo seguinte, a intensificação das entradas em outra direção, que já não será a do Paraguai e do Prata. A bandeira de André Leão, que data de 1601, dirigiu-se para a região do rio São Francisco. E o mesmo rumo tomaria a de Nicolau Barreto, segundo os estudos de Orville Derby, que já hoje nos parecem novamente os mais convincentes, não obstante as conclusões diferentes de historiadores recentes, que resultariam no entanto, de um equivoco na leitura da ata da Camara de São Paulo onde se esclarecem certos pormenores da expedição. E contudo não se perde a lembrança do caminho do sul, revivida, ao contrario, depois que, em 1505, quatro soldados vindos de Vila Rica, provincia do Paraguai, chegam inesperadamente à terra paulista.

Não é improvavel que o projeto inicial de d. Francisco visasse, a partir de São Paulo, localizar mais facilmente as mesmas minas que expedições anteriores tinham procurado a partir das capitanias do centro. É interessante notar-se que, justamente durante seu governo, segundo se apura de documentos existentes no Arquivo Mediceo, de Florença, e ainda mal conhecidos, o então grão-duque de Toscana, Fernando I, pretendeu seriamente criar um estabelecimento no litoral do Espirito Santo, o outro caminho natural para as minas do sertão remoto. E é significativo o interesse que o mesmo grão-duque, mostrou pelas coisas do Brasil, na correspondencia mantida com Baccio de Filicaja, seu sudito, e companheiro de d. Francisco, que o levara a São Paulo como engenheiro das minas. Quando e se forem encontradas a descrição e a relação das suas viagens no Brasil que Baccio escreveu para o grão-duque, é provavel que venham à luz muitos fatos ainda desconhecidos ou mal explicados acerca desse periodo (8). É inegavel, contudo, que a partir de d. Francisco de Sousa, São Paulo estava maduro para a vocação pioneira dos seus moradores. Vocação que germinara contudo desde 1532, com a chegada de Martim Afonso, firmara-se em 1554, quando Manuel da Nobrega, contrariando as opiniões mais tradicionalistas, fundou a Casa de São Paulo – em sitio onde os indios pudessem ter melhor sustento – e se consolida, definitivamente, a partir de 1560, quando, por ordem de Mem de Sá, são mudados para o campo os moradores da vila de Santo André.

 Notas 

 1. – R.H. Tawney, “Religion and the Rise of Capitalism”, Londres, 1936, pg. 72.

2. – Serafim Leite S.J., “Nobrega e a Fundação de São Paulo” Lisboa, 1953, pg. 30.

3. – “Cartas de Nobrega” (Rio de Janeiro, 1931), pg. 145.

4. – Serafim Leite, S.J., op. cit., pg. 18.

5. – “Expansão Paulista em fins do seculo XVI e principio do seculo XVII”. Publicação do Instituto de Administração da Faculdade de Ciencias Economicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (São Paulo, 1948), pg. 11.

6. – MS. do Archivo General de Indias: 25 – 1/14 R.o 22.

7. – Cf R. Diputazione Veneta di Storia Patria, Di Giovanni e Sebastiano Caboto. Raccolte e Documentate da F. Tarducci (Veneza, 1892), pg. 196, ss.

8. – Carta de Baccio ao Cav. Belisario Vinda, secretario de S. A. Serenissima, de Lisboa, 5 de janeiro de 1609. MS do Archivo di Stato di Firenze – Arch. Mediceo – f. 945, c. 60.

_________________________________________________________________

Publicado na Folha da Manhã, quinta-feira, 25 de janeiro de 1940

 

 

 

 

 

 

São Paulo

Primeiro, é a luta do Homem contra o Sertão – o cyclo heroico do bandeirismo. Os “gigantes de botas”, em avalanches que se despenham do planalto de Piratininga, investem para o Sul, para o Oeste, para o Norte. Uns, descem por Sorocaba, pelos campos geraes, através a trilha dos Tupiniguins, e lá vão enfrentar o castelhano e o guarany, nos seus reductos do Guairá, do Tape, do Paraguay. Outros galgam a Mantiqueira, alcançam Minas Geraes, avançam combatendo e vão surgir na Bahia, no Piauhy, em Pernambuco e no Maranhão. Outros, ainda, rumam pelo Tieté e pelo Paraná pelo Tapajós e o Madeira e repontam, após mezes de lutas, em plena bacia amazonica. Muitos enfrentam os serranos e vão surgir no Perú. Não poucos investem contra hespanhóes, Charruas, Tapes e Minuanos e vão parar no vice-reino do Prata.

Fernão Dias corta, de extremo a extremo, o territorio uruguayo. Antonio Domingues conquista as aldeias de Maracajú. André Fernandes tala as terras do Prata. Raposo Tavares e Manuel Preto devastam o Guairá. Braz de Arzão varre a bacia do Prata. Pedroso de Barros conquista as aldeias do Rio Grande. Francisco Pedroso Xavier derrota Andino, ex-governador do Paraguay e arraza Villa Rica. Diogo Coutinho de Mello arraza, com Raposo, as provincias de Uruguay e do Tape.

Outros, em bandeiras maritimas, infletem do litoral. Brito Peixoto funda Lagunda, apossa-se do litoral catharinense e desce para o Rio Grande. O seu filho Francisco liga Laguna ao Rio Grande, a Maldonado, a Sacramento e a Montevidéo. O seu genro João de Magalhães estabelece as primeiras estancias de gado no Rio Grande. Manuel Dias da Silva neto do bandeirante de igual nome, occupa o sertão de Vaccaria, onde levanta um padrão com esta phrase: “Viva o muito poderoso rei de Portugal D. João V, senhor dos dominios deste sertão de Vaccaria”.

Em menos de cincoenta annos, os paulistas expulsam os castelhanos do sul. Villas, aldeias, arraiaes, reducções, fortes e fortins castelhanos desapparecem, varridos pela onda bandeirante.

“No sul – escreve Oliveira Vianna – os feitos dos paulistas enchem de assombro as imaginações mais frias e positivas”.




E, por onde passam as legiões bandeirantes, surgem povoados, levantam-se arraiaes. Em Matto Grosso, Paschoal Moreira funda Cuyabá, os irmãos Paes de Barros fundam S. Francisco Xavier e a vila da Santissima Trindade. José Paes Falcão ergue o arraial de S. José, Rodrigues Thomaz levanta Trahyras, S. José do Tocantins, Cachoeira, Sta. Rita, Agua Quente. José de Almeida faz surgir Santa Isabel. Manuel Peres Calhamares funda o arraial da Anta e Manuel Dias a aldeia de Sta. Cruz – Em Goyaz, Anhanguéra funda Goyaz, Sant’Anna, Ferreiros, Barra e Ouro Fino – Na Bahia, João Amaro Maciel Parente funda a villa de João Amaro. Em Sta. Catharina Brito Peixoto funda Laguna. Francisco Dias Velha funda Desterro e Cachoeira. Em Minas Gerais surge, erguidas pelos bandeirantes paulistas, as villas de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Caetá, Pitanguy, S. José, Paracatú, Diamantina, Arassuhy, Montes Claros, Queluz, Grão Mogol, Serro Rio, Rio Doce, Januaria, Araxá… Saint Hilaire, que visita essas povoações, mostra-se assombrado com a rapidez com que elas surgem e se desenvolvem.

Investem para o Sul, até o rio da Prata, avançam para Oeste, até os contra-fortes dos Andes… percorrem o Norte, povoam o Nordeste… Raposo Tavares, Castanho da Silva, Pedroso de Barros percorrem Mato Grosso e vão parar no Perú. Manuel Dias da Silva penetra o Paraguay e vae surgir na Bolivia. Legiões de bandeirantes entram em Goyaz, surgem no Pará. Outros vão dar na bacia amazônica. Moraes Navarro e Mathias Cardoso, salvam o Nordeste derrotando os barbaros no Maranhão, Piauhy, Ceará e Rio Grande do Norte, João Amaro arraza os indios revoltados da Bahia. Domingos Jorge Velho estirpa o kisto negro dos Palmares. Ha bandeiras anonymas no Amazonas, no Perú, por todo o immenso territorio sul-americano, em lutas com indios e castelhanos. Legiões paulistas concorrem para a “restauração de Pernambuco” em poder dos hollandezes.

“Os paulistas – na phrase de Euclydes da Cunha – desarranjavam toda a geographia sul-americana”.




O cyclo da caça ao indio dá origem ao cyclo da caça ao ouro. Mas, simultaneamente, surge a colonização pacifica. Escreve Oliveira Vianna: “Não será exacto, porém, dizer que é o ouro, a sua descoberta, a sua exploração, a principal força motriz que impelle os bandeirantes paulistas para os sertões do norte, do oeste, do sul. Na phase mais intensa, já não diremos na descoberta, mas mesmo da exploração dos campos auriferos, vemos uma larga e tranquilla migração dos colonizadores paulistas para rumos diversos dos das regiões do ouro”.

Fundam-se, então, os campos pastoris das planicies de Matto Grosso, e no norte das Geraes, nos curraes da Bahia, no sul do Piauhy, no oeste de Pernambuco, nos campos do Nordeste…

Urbino Vianna, no seu grande livro “Bandeiras e Sertanistas Bahianos”, escreve que, “nas ribeiras do rio das Velhas e S. Francisco havia mais de cem familias paulistas entregues à criação de gado, antes mesmo do descobrimento das minas”. A acção colonizadora dos paulistas e o seu instincto rural, é que darão ao bandeirismo uma finalidade patriotica. Ao bandeirismo de resgate, segue-se o bandeirismo de luta. Preado o indio e salva a lavoura, vae-se expulsar o castelhano. O bandeirismo, então, na expressão de Calógeras, “torna-se a expedição guerreira que vae conquistar terra sobre gente inimiga e sáe a repellir o adversario tradicional”.

Mas, como accentua Pedro Calmon, “o paulista era um guerreiro com faculdades de fixação perfeitamente patriarchaes. Em geral, sua idade aventureira correspondia aos annos da robustez; na velhice elle se afazendava como um colono sóbrio e productivo. Vamos, por isso, encontrar “clans” paulistas do seculo XVII nos campos de Curytiba, no rio das Velhas, no valle do S. Francisco, no Piauhy-Maranhão, na Parahyba… Arraiaes com o nome de “Paulista” permaneceram na maioria das capitanias , por vestigio do bandeirante”.

Alarga-se, assim, irresistivelmente, o territorio que o papa Alexandre VI, pela bulla “Inter Coetera”, limitara a uma nesga litoranea. Conquistado o oeste do meridiano pela força das armas e colonizado pelo instinto de fixação do paulista, é em vão que a Hespanha clama e reclama. Bradam os jesuitas, insultando, berram os vice-reis, ameaçando, desatinam-se os diplomatas e luta-se furiosamente em varios pontos da America.

Na Europa, lusos e castelhanos se desavêm em disputas que não têm base e, principalmente, que não têm fim. Briga-se pela colonia do Sacramento e altera-se pela terra das missões. Invoca-se, de um lado, a bulla alexandrina e, de outro lado riem-se della. Cosmógraphos e geógraphos, chamados a pressa, não fazem mais que aumentar a confusão. Appela-se para o tratado de Utrecht, invoca-se o Accordo de 1701, cita-se o Acto de 1715, e só se encontra, de parte a parte, hostilidade e intransigencia. A Hespanha, sahida da grande guerra européa, ainda é uma potencia, mas Portugal, armado de razão, não recua, não cede e recusa a mediação da Hollanda e da Inglaterra. Tanto que respondendo ao embaixador Maseratti, que propor um accordo, o principe regente luso não concorda em negociar as terras ao ceste do meridiano de Tordesilhas. E fecha a questão escrevendo: “… esse territorio os paulistas o conquistaram e o defenderam em porfiada guerra”.

Surge, então, no desnorteante scenario da politica européa um grande paulista: Alexandre de Gusmão.

Filho do cirurgião-mór da villa de Santos Francisco Lourenço e de Dona Maria Alvares, irmão do padre Bartholomeu Lourenço de Gusmão o “Voador, Alexandre nasce naquella villa em 1695, faz seus estudos iniciaes no Collegio dos Jesuitas e o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Tomas parte na deslumbrante embaixada que vâe a França, após a guerra da Hespanha e recebe, na Universidade de Paris, o grão de doutor em Direito Civil e Ecclesiastico ingressando na diplomacia. De volta a Portugal, é nomeado para a Secretaria dos Negocios do Reino. Mas tarde, é honrado com o cargo de secretario particular do rei D. João V e, depois ministro dos Negocios Ultramarinos.

É nesse momento que, aproveitando-se habilmente de ligeira trégua no secular conflito lindeiro entre as duas Corôas peninsulares, Alexandre de Gusmão lança a rêde diplomatica em que haviam de enrodilhar-se, irremediavelmente, bullas, accôrdos, tratados e actos confusos, incoherentes ou contradictorios. Fixadas, pela acção do bandeirismo, as linhas essenciaes de posse do immenso territorio em litigio, vale-se dellas o grande paulista para, no preambulo do Tratado que o immotalizaria, firmar pela primeira vez, e perpetuar, o grande principio juridico do “uti possidetis. O famoso Tratado, pelo qual a Hespanha cede à Coroa lusitana um territorio immenso como um mundo e graças ao qual se triplica do Brasil, é redigido por Gusmão, linha por linha, e é ainda Gusmão depois, numa carta admiravel de 66 paginas, dirigida ao brigadeiro Antonio Pedro de Vasconcellos, quem defende esse Tratado. Dessa admiravel obra diplomatica, diz Calógeras que é um documento a rarissimos comparavel e “que todo brasileiro deveria conhecer, para reverenciar a memoria do Santista eminente que o concebeu e redigiu”. E Basilio de Magalhães accrescenta que o Tratado de Madrid “foi a homologação da conquista dos bandeirantes e a sanção diplomatica da occupação tambem effectuada ao nordeste e ao norte pelos criadores de gado e missionarios cathodicos”.

Assignado em Madrid a 13 de janeiro de 1750, delle diz o historiador paraguayo padre Bernardo Capdeville “que provocá-la indignación de España y de las provincias del Rio de La Plata e fué considerado como la verguenza de lá diplomacia espoñola”.

É, convenhamos… não era para menos…




Mas, com a morte de D. João V, e a ascenção do ministro Sebastião José de Carvalho, que não tolera o “brasilico”, soffre Gusmão as primeiras perseguições. Com sua “mentalidade policial”, Sebastião de Carvalho partureja um grupo de tratadinhos interpretativos, enquanto gesta um vasto tratado que, afinal não vêm à luz. O que sáe é o Tratado de 1761 que vem consolidar-se no de Santo Idefonso, em 1777.

E, para gloria de Alexandre de Gusmão, este Tratado outra coisa não é senão o de 1750, com ligeiras alterações.

“O que Gusmão ideara vinte e sete anos antes – escreve Calógeras – d. Joseph de Molino firmava outra vez, menos lato, entretanto, no accôrdo de Santo Ildefonso. Servia de base novamente, força imanente das cousas, o conceito da occupação, o “uti possidetis”. E, mais adiante, accrescenta o eminente polygrapho: “… os dois tratados, de 1750 e 1.777 não divergiam senão em detalhes minimos”.

Foi assim que o Brasil cresceu.




Li ha tempos, já não me lembro onde, esta cousa enorme… que não mais me sahiu do cerebro: “Os regionalistas que vivem a falar em bandeirismo…”

Poder-se-ia responder de muitas formas. A mais util, porém é ensinar. E accrescentar, depois, com inabalavel convicção que, sem o conhecimento da historia das Bandeiras não é possivel compreender-se a historia do Brasil.

Cultivemos, pois,. a “mystica bandeirante”, de que fala Afranio Peixoto, porque ella é a “mystica da bravura nacionalizadora”, a “mystica brasileira”.

________________________________________________________________

Publicado na Folha da Manhã, domingo, 24 de novembro de 1935

 

O FAMOSO BANDITISMO DOS BANDEIRANTES

Iniciava-se, assim, o tumultuoso cyclo da caça ao indio:

As terras ferteis se estendiam, promissoras de séaras opulentas, mas arranhadas apenas, aqui e ali, desordenadamente, em culturas primarias, pela ausencia quasi absoluta do operario rural. No norte, após o ensaio quasi inoperante da escravidão selvicola que, mesmo assim, conseguira arrancar do sólo o esplendor da cultura da canna, o indio fôra substituido, no problema servil, pelo negro africano que, em levas successivas e systematicas, atravessava o oceano, despovoando a Costa da Mina e a Guiné em favor das terras virgens do novo mundo.

Mas o Norte nadava em ouro. Os ricos senhores de engenho, graças ao concurso do braço indigena, podiam, quando o quizessem, dar-se o luxo de comprar “peças” africanas, dispensando os riscos da captura e forrando-se aos onus da exploração dos autochtones, embora a legislação das cortes portuguezas, tendentes a assegurar a liberdade dos índios, não passasse de puro despistamento juridico. Leis, alvarás e cartas-regias sahidas, com tão impressionante exhuberancia, através tres seculos, das immediações da Real Fazenda, nada mais eram, no dizer de Taunay, do que “refalsada hypocrisia”.

Até então, escravizavam-se indios no Brasil inteiro. Já em 1550, Manuel da Nobrega escrevia ao seu provincial: “Nesta terra, todos ou a maior parte dos homens têm a consciencia pesada por causa dos escravos que possuem contra a razão”.

E se, no seculo do bandeirismo, apenas os paulistas realizavam, com intensidade, esse trafico, foi pela razão muito natural de que, sendo elles no geral pobres, não podiam ser humanitarios… comprando negros na costa da Africa. Dir-se-á, para suprema ignominia dos chefes bandeirantes, que uma coisa é comprar escravos e outra, muito diferente, é escravizal-os. O argumento, como se constata, é irretorquivel, e lembra o caso daquelle santo homem da anecdota que era um grande amigo dos animaes. Não matava um frango porque, dizia elle, lhe confrangia fundamente a alma judiar das pobres avesinhas. O que, aliás, não o impedia de lamber os beiços e sentar-se soffregamente a mesa, empunhando um facalhão, toda vez que lhe apresentavam um frango assado ou uma gallinha de molho pardo…

Todos quantos se lembram de investir contra os bandeirantes, accusando-os de terem praticado as maiores atrocidades contra os “pobres selvicolas”, fiam-se excessivamente na documentação dos missionarios hespanhoes – parte interessadissima na secular contenda entre as duas forças que se chocaram, vezes sem conta, nas terras barbaras do novo mundo. Emquanto os hespanhoes se apossavam do territorio sul americano, pelo sul e pelo oeste, na tentativa de estabelecer o seu grande imperio theocratico hispano-guarany, os paulistas, na sua ansia expansionista, rompiam a linha tordezilhana que tentava contel-os no ambito asphyxiante da capitania, e sahiam – como dizem os documentos coévos – em busca de “remedio para a sua fraqueza”, isto é, dos braços de que necessitavam para suas lavouras.

Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla, escrevia este:

Ihs – Senor governador. Sabado y noviembro 7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho animo y brio”, etc. (1).

Mas não era sempre que as reducções atacavam os paulistas, matando-os a pelotaços, com “mucho animo y brio”. Defendiam-se, tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles se são o fizessem. No assalto a uma das villas do Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê, os bandeirantes não investiam contra gente inerme. As reducções viviam, aliás, em constantes questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay, quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação colhida no enorme acervo do “Archivo General de Indias”, em Sevilha, carinhosamente colligidas nos “Annaes” do Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções que se esparramavam pelas regiões do Guayrá, Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas e munições. Num desses documentos pede-se ao provincial ibero que “todas las armas que esa Religion tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido a los indios de que se conponen, se la entregassen para que estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas ni en los allardes otra acion politica ni militar”, etc. (2).

… Noutra carta, pede a Côrte ao governador do Paraguay que retire 150 arcabuzes e mosquetes, 70 “botijas” de pólvora e 70 quintaes de chumbo, sendo que havia nas reducções jesuiticas, então, segundo testemunho do governador, nada menos de 800 boccas de fogo. As reducções defendiam-se bravamente e faziam muito bem.

Como se vê, os hespanhóes não andavam absolutamente tranquilos, ao saberem que seus indios estavam de tal modo armados. Forneciam-lhes armas, é verdade, quando os paulistas ameaçavam as reducções, mas tratavam prudentemente de recolhel-as, logo depois, porque, como escrevia don Gregorio Henestrosa, governador do Paraguay, ao presidente da Real Audiencia de La Plata “a estos yndios no se deben consentir estas armas de fuego, aun que sean para su defensa, fundandose em que pueden con el tiempo venir a usar mal de ellas, volviéndolas contra los espanoles de estas partes”.

Tudo isso é symptomatico e quem quer que saiba lêr nas entrelinhas, se convencerá de que as famigeradas “atrocidades” dos paulistas não foram tantas nem tamanhas como pretendem. Tanto isso é provavel que, muitas vezes, os indios das reducções adheriam logo aos invasores: “los yndios reducidos se dan la mano con los que entram por el ytatin”. Numa “Real Cedula” dirigida ao vice-rei do Peru’, marquez de Mansera, narrando occorrencias no Sul, confessava a Côrte que os paulistas tinham se apoderado de tudo, porque “todos, indios e residentes, tinham-se juntado aos invasores, davam-lhes informações e os guiavam a outras villas e reducções”.

Seria insensatez, evidentemente, rogar-se a grandiosidade da obra evangelizadora dos jesuitas na America, principalmente diante das figuras impressionantes de Anchieta e Nobrega no Brasil e de Jumpero Sierra e Garcez na California. Innumeros jesuitas foram, póde-se affirmar, mais santos do que homens. Isso, todavia, não quer dizer que, para o Brasil, seria uma das sete maravilhas do mundo o estabelecimento do Imperio Theocratico que, na opinião de Sylvio Romero, os hespanhóes, com tanta pertinacia, levavam à realidade na America, escorados no meridiano de Tordesilhas. Nesse sentido, a devastação leva a effeito pelos bandeirantes na Guayrá, no Tape e no Paraguay, é um feito que deve orgulhar a raça paulista porque dahi resultou a extincção definitiva da sorrateira ameaça e o avanço implacavel das fronteiras orientaes do Brasil até quasi a cordilheira dos Andes.

Dêmos de barato, porém, para argumentar, que a escravização de indios pelos paulistas, nesse tempo, fosse uma ignominia. E concordemos também em que os bandeirantes, nessas lutas, commetteram atrocidades.

Já dissémos – e todo o mundo o sabe – que não foram os paulistas que inventaram a escravidão, nem tiveram privilegio della. No Brasil inteiro se escravizaram indios, façanha que só terminou no Norte, quando se percebeu que o escravo negro, caçado na Africa, era mais submisso e mallevavel do que o indigena. Todavia, essa submissão e essa maleabilidade produziram, sabe Deus porque, a dantesca tragedia dos Palmares, para cuja extincção se appellou, em ultima instancia, para os “famigerados” bandeirantes de São Paulo… E se os negros da Guiné e da Costa da Mina, tão conformados e tão humildes, chegaram àquelle extremo, fugindo aos senhores de engenho como diabos que fugissem da cruz, deviam ter razões muito poderosas para fazel-o…

Tudo isso, porém, estava no espirito da epoca e, principalmente, nos costumes da terra semi-barbara. Todos quantos observam, e tentam julgar, os acontecimentos do seiscentismo e do setencentismo paulistas através do prisma civilizado dos nossos dias, devem lamentar-se de não terem os indios americanos se munido de “habeas corpus” preventivos contra as incursões dos bandeirantes, nem, ante a ameaça da escravização, appellando para a Lei de Segurança Nacional…

Todavia, não parece impertinente esta pergunta: quem, ante os tumultuarios e arrazantes “rushs” dos paulistas, poderá atirar-lhe a primeira pedra?

Tudo o que os bandeirantes fizeram de possivelmente barbaro no cyclo da caça ao indio, está longe, astronomicamente longe, do que fez aquelle antigo guardador de porcos que se chamou Francisco Pizarro, devastando, com indescriptivel ferocidade, a maravilhosa civilização incaica e trucidando um povo que viera amigavelmente ao seu encontro, um povo cuja cultura estava ao par, senão àcima de muitos outros da civilizadissima Europa (3). E, todavia, não faz ainda um anno que se inaugurou em Trujillo, uma estatua do conquistador…

Longe ainda, infinitamente longe, das famigeradas crueldades dos bandeirantes, estão as incriveis façanhas de Fernando Cortez, reduzindo a escombros a incomparavel civilização aztéca, no Mexico, tão maravilhosa quanto a incaica do Peru. E o que este ibero feroz realizou no imperio de Montezuma, não está muito distante do que fizeram La Salle De Soto na America do Norte. E, se estes ainda não possuem estatuas glorificadoras, estão emprestando o nome illustre a duas marcas de lindos automoveis.

Longe, ainda, estão, as crueldades dos paulistas, das arripiantes incursões do francez Dlonnais que arrazou Maracalbo, S. Antonio de Gilbraltar, Puerto Cavallo e S. Pedro. Esse tremendo filibusteiro só não incendiou mais porque, a paginas tantas, os indios conseguiram agarral-o e, depois de o assarem com todas as regras culinarias, devoraram-no.

Foi assim que povos civilizados, cometteram as maiores scenas de barbarie, não só no Novo Mundo, como tambem no Velho. Não ha quem desconheça as atrocidades praticadas pelos anglo-saxões contra os Pelles-Vermelhas nos Estados Unidos, pelos hespanhóes contra os “yumas” do Colorado, os “quixúas” do Peru e os “guaranys” do Paraguay; pelos francezes contra os indios da Guyanna; pelos germanos na Venezuela, na sua ephemera tentativa de colonização.

“O inicio dos “estabelecimentos”, diz Cochin, é um misto de heroismo e de desordem, de sublime devotamento e de cupidez feroz. Foi um heroico navegante, Enambuc, de Picardie, o fundador da colonização das Antilhas. Foi um soldado heroico, o cap. D’Olive, quem, com M. de Plessis, pediu, em 1635, aos Senhores da Companhia das Ilhas, uma commissão para occupar Guadalupe. Sabe-se, porém, com que selvageria, depois da morte do seu companheiro, elle se atirou sobre os infelizes “caraibas”, declarando-lhes – segundo o relato de um jesuita – uma guerra tão injusta quão vergonhosa”. (4).

A propria Inglaterra que, no anno de 1102, tinha extinguido a escravidão, restaurou-a alguns seculos depois, “aperfeiçoando-a” com o famoso tratado anglo-hespanhol que lhe dava o monopolio do trafico, apezar dos clamores indignados do general William Wilberforce (5).

A barbarie, nesse periodo torvo da humanidade, era geral, mas, pode-se affirmar que os indios escravizados em S. Paulo não soffriam mais, não soffriam tanto como os que se entregavam ao labor martyrizante nas minas de Potosi, nos hervaes paraguayos de Maracaju, nos engenhos do Norte do Brasil ou nas lavouras de Cuba, Haiti e S. Domingos…

Couto Magalhães affirma: “tempo houve em que, só ao redor de São Paulo, existiam mais de 60.000 indios”. Ora, conhecendo-se a rebeldia innata no selvicola e sabendo-se que, nessa época, a população de S. Paulo não ia além de 4.000 brancos e mestiços (6), não se faz mistér muita imaginação para calcular-se a facilidade com que os senhores seriam chacinados pelos escravos, caso tentassem martyrizal-os…

É verdade que, nesse cyclo tumultuario e dramatico da Historia do mundo, surgiam, às vezes, visionarios – como foi o caso de “sir” Walter Raleigh. Este, porém, além de aventureiro era poeta. E, na conquista dos Estados Unidos, quiz agir como poeta, à moda romantica.

Resultado: “tres expedições successivas foram tres irremediaveis desastres: a fome e, principalmente, os indios, mataram os expedicionarios.”

“Sir” Raleigh só acordou de seu sonho de visionario muitos annos depois. E voltou à America, não mais como poeta, mas como um homem do seu tempo:” Il suivit l’usage du temps ou la piratarie etait encore la guerre, ou Draka illustra son nom em arretan les galions de l’Espagne, avec laquelle l’Anglaterra etait en paix: Releigh se vengea de sa mauvaise fortune, en pillant et en destruisan l’establishment espagnol de Saint Thomas” (7).

Seria fastidioso enumerarmos o que de atrós e de barbaro se praticava no mundo, nesse periodo cyclonico. A historia da Inquisição ahi está no conhecimento de todos; ahi estão ainda os arripiantes “pogromos” com que, desde a Edade Média, a civilizada Europa vem estarrecendo os proprios selvagens da Africa: judeus trucidados ou queimados vivos, na praça publica, na França, Allemanha, Russia, Portugal, Hespanha, desde o anno 1000 até aquem do seculo XIII; chacina de mulheres judias na Ukrania em 1918, já em pleno seculo da Civilização; creanças massacradas em Ekaterinoslaw e Bilostok, em 1905…

Para que proseguir?

Deante de tudo isso e de tudo quanto, nas guerras de conquista, se tem praticado no mundo; deante dos horrores que se testemunharam ha vinte annos atrás, durante a guerra européa; deante das horipilantes invenções chimicas e mecanicas e das composições bacteriologicas com que as potencias do mundo se preparam para uma proxima guerra de vingança e de odio – deante de tudo isso, as famosas “atrocidades” dos bandeirantes como que se ennevôam, se esgarçam, se diluem…

E, entretanto, para certos juizes apressados, os unicos bandidos do mundo continuam sendo os paulistas do bandeirismo…

Do livro

“Bandeiras e Bandeirantes” em preparo.

_____________

(1) – Doc. sobre as Bandeiras Paulistas. – Do “Archivo General de Indias” em Sevilha, Sep. t. V dos “Annaes” do Museu Paulista, pag. 7.

(2) – “Real Cedula al provincial de la Comp. de Jesus del Paraguay. – Op. Cit.

(3) – William Prescott – “Les Incas et la conquête du Perou”.

(4) – A. Cochin – “L’Abolition de l’esclavage”, pag. 4.

(5) – Rob, and Sam Sons – “The life of W. Wilberforce.

(6) – A. Taunay – “Hist. Geral das Bandeiras Paulistas”, vol. 1,pag. 70.

(7) – E. Laboulaye – “Hist. Des Etats Unis”, pag. 66.

____________________________________________________________________________________________

 

 

 

 

 

 

Be the first to start a conversation

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 501 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: