Sartre e a Origem da Angústia

Por Michel Aires de Souza

1526277_452766098179860_1291755122_nO grande problema do homem moderno é a falta de sentido  da vida e o vazio de sua  interioridade.  O indivíduo não sabe o que quer e também não sabe o que sente.  Constantemente vive reclamando da vida e em conflito consigo mesmo. Algumas vezes encontra-se  angustiado ou em depressão.  Sua vida é regular e monótona, realiza atos habituais e rotineiros. Levanta-se sempre a mesma hora,  segue sempre o  mesmo trajeto para o trabalho,  volta para casa sempre no mesmo horário. Ao chegar em casa faz sempre as mesmas  atividades, como assistir televisão, tomar uma cerveja ou ficar na internet.  A  grande maioria abandonou aquela ambição típica da juventude de ser feliz a qualquer custo.

          A falta de sentido da vida provém da incapacidade do ser humano se auto-conhecer e de agir como ser pensante e autônomo. Ao não perscrutar e analisar sua existência e seu mundo  interior o indivíduo torna-se incapaz de dirigir sua própria vida. Vivemos uma época em que os indivíduos perderam a exuberância, perderam a capacidade de viver à vida apaixonadamente. O homem moderno não tem mais a responsabilidade pelo que é. Ele perdeu a capacidade de fazer alguma coisa por si mesmo e se sentir bem com a vida.   A falta de sentido, de objetivos, de finalidade tornou-se  a condição existencial do homem contemporâneo. O desespero tornou-se parte da condição humana. Em uma entrevista Sartre  reconheceu que “via no desespero uma imagem lúcida do que era a condição humana.” (SARTRE, 1980, p. 19)  

        Em uma época onde os valores se relativizaram,  e onde vazio interior e falta de sentido tornaram-se parte da experiência humana, o existencialismo tem algo muito importante a nos oferecer.   É um instrumento que pode nos ajudar a superar nossas angústias e nos levar à liberdade, nos ajudando a agir de forma autônoma.  O existencialismo pode nos ajudar a repensar nossa própria vida e nossas ações no mundo. Mas, antes, devemos saber o que é isto,  o existencialismo?  

          A partir da segunda guerra mundial  o homem experimentou a barbárie, a regressão social  e a falta de sentido da vida. Tornou-se comum no vocabulário das pessoas a famosa frase de Sartre, “a existência precede a essência”.  Sartre explicou essa frase em uma conferência, que o tornou famoso: “O existencialismo é um humanismo”. Nesta conferência ele procurou defender sua filosofia das críticas que lhe eram feitas,  buscando introduzir o público leigo nos conceitos de sua filosofia.  Sartre iniciou sua  palestra explicando o fundamento de sua filosofia. Para isso, ele usou um exemplo de como um objeto é feito, imaginou como um corta-papel seria projetado.  No nosso dia-a-dia deparamo-nos com uma infinidade de objetos. Se pensarmos como eles são feitos, chegamos à conclusão de que todos seguem uma receita, um plano.   Para criarmos um corta-papel  temos que planejar, temos que ter uma ideia de sua forma, seu tamanho, suas características e sua finalidade.  Para que este objeto torne-se funcional temos que ter um projeto em nossa mente.  Neste caso a essência do objeto precede sua existência.  Este exemplo bastante simples mostrar-no que,  se Deus existisse,  ele seria parecido com  um fabricante de corta-papel, pois  teria criado o mundo a partir de um projeto.   Contudo, para Sartre,  este raciocínio não se aplica a existência humana. O existencialismo de Sartre é ateu. Ele defende a tese de que “a existência precede a essência”. Não há um Deus criador, um demiurgo, que antes planejou o ser humano a  partir de uma ideia prévia, assim como o escultor produz sua obra a partir da matéria bruta. O ser humano simplesmente existe e só se define a partir do que ele faz de si mesmo. Não existe uma natureza humana pronta, acabada e pré-definida. O homem é livre para fazer o que quiser de sua vida. A essência do indivíduo se define por aquilo que  ele faz de si mesmo. Isso significa que o homem está condenado à liberdade. Não existe destino, o destino somos nós que fazemos. 

           O existencialismo de Sartre postula que o homem não é um “ser em-si”, não é um objeto inanimado como as coisas no mundo. Só as coisas são em-si.  O homem é um “ser para-si”, pois tem consciência de si mesmo. O homem é um ser da liberdade, da escolha. É aquele que deseja e escolhe o que deseja. Mas não se trata de obter o que se quer, mas desejar com a alma, com discernimento, com autonomia, determinar-se a querer por si mesmo. Dessa forma, o homem nada é, mas torna-se o que se é quando constrói sua própria liberdade e, portanto, sua própria essência. 

         É notório que em nossa época o homem moderno não escolhe autenticamente a vida que quer levar. Ele assume compromissos sociais, morais e religiosos que geralmente não pode cumprir.  Por escolher mal ele paga um preço muito alto, pois não consegue se libertar de suas escolhas e fica angustiado.  Para Sartre,  a angustia surge da consciência de nossa liberdade, surge da responsabilidade por nossos atos.  “É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade (…) na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão”. (SARTRE, 2002, p.72).  Dessa forma,  a angústia   resulta da revelação da nossa própria liberdade sem peias, limitada apenas por si mesma, fonte absoluta de todo sentido.  Mas, esta liberdade, “só é descoberta reflexivamente, quando, engajado no mundo, em vez de realizar meus possíveis (se se quiser, meus fins ou meu futuro), eu os aprendo como meus” (MOUTINHO, 2003, p.77)  

          Sartre diagnosticou em nossa época  que a maior parte  dos seres humanos preferem  não serem livres. O homem prefere a não-liberdade do que sentir a angústia de escolher sua própria liberdade.  Alguns homens  prendem-se a riquezas, outros a fama. Uns levam o peso de seu orgulho, outros o peso de sua solidão. Uns prende-se ao casamento, outros a religião. Um curva a cabeça ao seu chefe, outro a família.  Só para exemplificar, hoje em dia nós vemos uma grande parte dos casais vivendo juntos sem amor, apenas se suportando. Isso por causa dos filhos, por causa dos bens ou mesmo por dependência psíquica em relação ao outro. A vida torna-se insuportável. O resultado são as brigas, as traições,  a ansiedade, as compulsões e as neuroses. Também há profissionais que fazem a mesma atividade e odeiam o que fazem, são incapazes de mudar de vida. Ficam na mesma profissão por anos a fio, mesmo odiando o que fazem. É um desperdício das capacidades físicas, intelectuais e da criatividade.   A explicação de Sartre para estes problemas está na angústia da escolha. O homem tem medo da liberdade. Para muitos seres humanos a liberdade gera a angústia. Muitos não suportam esta angústia, e para não assumir a liberdade, fogem dela. São incapazes de escolher. São homens da má-fé.  A má-fé é a atitude característica do homem que não é capaz de escolher. Este tipo de homem aceita passivamente sua situação, pensa que sua vida é assim porque Deus quis e que  não pode mudar seu destino. Ele aceita os valores, normas e regras da tradição passivamente sem nunca refletir sobre elas. Ele engana a si mesmo e pensa que é dono de seus atos.

           O exemplo de má-fé no amor é bastante ilustrativo.  Para Sartre,  a união amorosa é um conflito irreconciliável, já que assimila a própria individualidade e a do outro em uma mesma transcendência. Em conseqüência disso, implica o desaparecimento do caráter de um dos dois. Quem ama limita a liberdade alheia, apesar de respeitá-la. Dessa forma, no amor,  a atitude da má-fé acontece quando o indivíduo está com alguém há anos sem sentir amor, mas, por questões morais, religiosas ou por gratidão, fica assim mesmo com a pessoa. Ele não a ama, mas dissimula para si mesmo que a ama.  Ele não quer fazer uma escolha pela qual teria que se responsabilizar. O indivíduo recusa a dimensão do para-si e torna-se em-si. Ele é um objeto, uma coisa, o puro nada. É o homem responsável que recusa sua liberdade e se torna um ser conformado.   

         Quando não  temos convicção sobre o que realmente  desejamos  e sentimos,  somos levados a desejar e a querer o que a sociedade ou o  grupo nos inculcam. A ambição e as metas que temos não são nossas, mas aprendemos e a adquirimos  de outros. Lutar pelo êxito financeiro, procurar ser um profissional bem sucedido, ter fama ou poder para sermos amados e admirados torna-se  uma ilusão. O resultado disso é a ansiedade, o vazio interior e a solidão.  Quando os verdadeiros sentimentos e desejos se perdem surge a apatia e a resignação. A vida torna-se fútil, sem emoções, e os sonhos perdem sua importância.  Esse medo e  incapacidade de escolher nos leva ao vazio.   O vazio vem do sentimento do nada que experimentamos. A pior coisa que pode acontecer a um homem é o nada. O nada é o não-ser, o não se realizar, o não querer mais, é o cansaço e a impotência.

MOUTINHO, Luiz D.S.  Sartre:Existencialismo e Liberdade. São Paulo: Moderna, 2003

SARTRE. J. L’Existentialisme est un humanisme. Paris: Gallimard. Col. Folio. 1996

SARTRE. J. O testamento de Sartre.  Paris: 1980. L&PM, São Paulo, p. 17-64. Entrevista concedida a Benny Lévi para Nouvel Observateur

SARTRE, J. P. O Ser e o Nada: Ensaio de ontologia fenomenológica, trad. Paulo Perdigão Petrópolis: Vozes, 2002.

22 comentários em “Sartre e a Origem da Angústia

  1. Olá! puxa vida…eh mtu engraçado e ao mesmo tempo assustador quando a filosofia explica exatamente tudo q agnt pensa!!! nos faz sentir meros fantoches do mundo moderno! Meus parabens nao significam muita coisa, mas de qualquer maneira, estao ai! vc escreve mtu bem! Abraço!

  2. Bom, vejo em Sartre, ou melhor, no Existencialismo, uma Filosofia que medita a condição humana em relação ao seu estado natural. Isto é, a Liberdade!
    O homem nasce livre e deveria ao menos permanecer assim.
    O problema é, que com a Liberdade vem responsabilidades, e com esta, os riscos. Como é impossível não escolher, a responsabilidade das escolhas que fazemos nos conduz diretamente ao seu resultado final.
    Percebo que “O Homem-Moderno” assim, naturalmente como qualquer outro homem, seja dessa época ou de épocas passadas, terá sempre a sua frente um “leque” de possibilidades, que por sua vez se abre em uma cadeia de variadas escolhas em cada uma de suas partes.
    Hoje, a Sociedade, os Governos, as Instituições, são mais pragmáticas, porém não menos repressivas e opressivas. O que, limita, a escolha dos indivíduos. Tornando-os assim, menos felizes e incapazes de planejar sua existência.
    Imagine, se, pudéssemos escolher, cores variadas e infinitas para colorir nosso arco-íris ao invés desse cinza metálico?
    Então, posso concluir assim, que o que o Existencialismo tem a contribuir e o que posso esperar dele, é muito mais do que se espera de um livro de “auto-ajuda” ou, um folheto cristão falando da salvação! Mas algo profundo que conduz a uma reflexão sincera sobre algo inerente a toda a humanidade: LIBERDADE!

  3. Queria manifestar minha imensa gratidão à quem escreveu o texto. Sou estudante do terceiro ano do ensino médio e estava com extrema dificuldade em entender tal assunto. Procurei em muitos livros e sites e não atingí tal compreensão e estou extremamente surpresa pelo dom de explicação que o senhor possui. Agora sim, faz todo sentido. Muito obrigada ! Parabéns !

  4. Estou extremamente feliz por ter encontrado esta pagina na net, foi por acaso que isto aconteceu, procurando um assunto sobre a racionalidade no mundo comtemporaneo, encontrei esta pérola. Parabéns professor Michel se já gostava de filosofia agora não vou mais parar de lê seus artigos, comecei por Sartre e entendi o objetivo do seu Existencialismo, agora vou adquiri o livro O ser e o Nada, pois acredito que tenho condições de entedê-lo melhor.

    Betty Jane.

  5. ola tudo bem .. parabéns pelos texto muito bem escrito e de fácil entendimento, estou escrevendo meu trabalho de conclusão de curso em sartre gostaria de pode trocas u mas ideias ,

  6. parabéns professor pelos seus textos. Eu também estou encantado com esta página continue escrevendo , isso tem me ajudado muito a entender os pensamento de grandes pensadores.

  7. Parabéns professor. Escreveu bilhantemente. Foi bem claro e direto ao explicar o Existencialismo de Sartre.

  8. Excelente texto. Eu fico no meio de minha vida fazendo perguntas sobre eu mesmo e o mundo: cogito. Eu li so ser o nada e demorei uns 2 anos para entender a obra pelo menos em sua maior parte. Tem o bla bla bla de sartre que o senhor já conhece e as ferramentas que nos foi dada por sartre para ajudar a gente a pensar. No meio disso, temos o conceito de vazio que sentimos e sartre coloca como solução que devemos escolher nossa existência. Ai eu pergunto: Nos dias hoje, eu sou um jovem e tenho dificuldade sobre isso, que tudo muda rapidamente, como definir sua identidade e seu projeto de forma que ele tenha uma validade capaz de colhermos resultados antes de seu vencimento?

  9. Parabéns pelo texto e a articulação do mesmo. Me emocionou bastante e quase que se materializou, eu vejo vida.

  10. QUANDO vemos coisas bem escritas, sentimos um pouco de angustia de olhar as redes sociais, mas, glorificamos a liberdade de dizê-las, mesmo quando não dizem nada, ja demonstram ao menos algum sinal de progresso!

  11. Confesso que nunca lí Sartre. O artigo lembrou-me Eric Fromm em o Medo à Liberdade. Seria interessante – pra mim, lógico – uma comparação entre a abordagem predominantemente psicanalítica e a predominantemente filosófica. Nem mesmo sei se a probabilidade de acerto com esses “predominantemente” é baixa,média ou alta. Na minha incerteza não importa se é tudo psicologia,filosofia ou tudo ao mesmo tempo. Separar nem sempre ajuda,né?

  12. Parabens!!! Estou fazendo um artigo sobre a angustia e todos os artigos ou livros relacionados ao assunto nao me foram suficientes, ficou algo vago, e depois que li seus textos foi como se uma luz tivesse clareado e mostrado o caaminho certo, muito obrigada!!!

    Att,
    Marciana Duarte

  13. Parabéns pelo texto! Sou acadêmico do terceiro período de Filosofia e sou apaixonado pela corrente existencialista, nela, me encontro. Em meu tcc, escolhi Sartre para me acompanhar! Se tu pudesses me ajudar com algo, ficaria muito contente! Irei trabalhar a má-fé, mas preciso delimitar o tema para ver se consigo uma coisa mais concreta… Pensei em tratar da superação da má-fé como elemento positivo na construção da identidade, levando em conta toda a proposta de liberdade, engajamento e responsabilidade dada por Sartre. Desde já agradeço e estou gostando muito do seu blog. Parabéns, mais uma vez!

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