Nietzsche e a filosofia como libertação

Por Michel Aires de Souza

Nietzsche pode ser considerado um dos filósofos mais importantes do mundo contemporâneo, sendo o grande responsável pela “crise da modernidade”. Nasceu em Roecken (1844), na Prússia, estudou filologia em Bonn e Leipzig, tornou-se professor de filologia clássica na Universidade de Basiléia, na Suíça, em 1869. Foi influenciado pela filosofia pessimista de Schopenhauer e tornou-se amigo do músico Richard Wagner, com quem depois rompeu relações

           Nietzsche foi um crítico mordaz dos valores do racionalismo iluminista e dos valores morais e religiosos de nossa época. Ele constatou que noções como verdade, justiça, razão, bem, mal, virtude, Deus foram relativizados no mundo moderno como conseqüência do progresso técnico e científico. Dessa forma, segundo o professor Oswaldo Giacóia, ele “dedicou sua vida a realizar três tarefas: compreender a lógica desse movimento contraditório ao longo do qual o progresso do conhecimento leva à perda de consistência dos valores absolutos; a partir daí, denunciar todas as formas de mistificação pelas quais o homem moderno oblitera sua visão dos perigos de sua condição; por fim, destruídos os falsos ídolos – e esses são os valores mais venerados pelo homem moderno -, assumir corajosamente o risco de pensar novos valores, abrir novos horizontes para a experiência humana na história.” (Giacóia, 2000, p.17).

           Nietzsche é considerado o filósofo dos instintos e da vontade de potência, sendo inimigo do “amolecimento moderno dos sentimentos” e condenando o homem moral, fraco e religioso. Ele se propôs a si mesmo fazer uma crítica dos valores morais, colocando em questão o próprio valor desses valores. Com isso, identificou a razão e a racionalidade com a decadência e o ódio aos instintos. A racionalidade desde o nascimento da filosofia tornou a razão (logos) o paradigma para o mundo ocidental, fundamentado nas categorias éticas que têm orientado os homens ao longo da história, reprimindo os instintos de vida celebrados pela tragédia grega, em nome de uma vida ética e consciente. O “logos” subjugou os instintos criadores. O homem de rapina que age guiado pelos instintos foi substituído pelo homem racional. A vida foi subjugada pela razão.

              A filosofia de Nietzsche é uma filosofia dos afetos, das paixões e desejos, que contempla o individualismo, a força, a abundância e os instintos de vida. Para ele filosofar não era uma atitude teórica e contemplativa, mas uma atitude prática que se enraíza na vida, um ato de libertação de toda subjugação, de toda moral, de toda deformação e de tudo aquilo que nos prende a religiões, grupos e ideologias. Em “Crepúscolo dos Idolos” Nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro. “Pois o que é a liberdade? Ter a vontade de responsabilidade própria. Manter firme a distância que nos separa. Tornar-se indiferente a cansaço, dureza, privação, e mesmo à vida. Estar pronto a sacrificar à sua causa seres humanos, sem excluir a si próprio. Liberdade significa que os instintos viris, que se alegram com a guerra e a vitória, têm domínio sobre outros instintos, por exemplo, sobre o da ‘felicidade’. O homem que se tornou livre, e ainda mais o espírito que se tornou livre, calca sob os pés a desprezível espécie de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é um guerreiro.” (Nietzsche, 1974, p.348-9)

             A filosofia como libertação se personifica em um dos seus personagens: Zarathustra. Zarathustra é aquele que nos ensina o caminho da liberdade, ensina-nos como devemos ser senhor de si mesmo. Publicado entre 1883 e 1885, “Assim falou Zarathustra”, é considerado um dos seus principais livros. Neste livro, de forma poética, está condensado toda sua filosofia. Através de Zarathustra Nietzsche criticou os valores morais de sua época, desconstruiu a metafísica, denunciou o atraso da educação e cultura alemã, criticou o estado e a política. Mas o que nos interessa em Zarathustra são seus ensinamentos. Ele nos ensina que a dor e o sofrimento é parte integral da vida e que viver é um processo contínuo de libertação. É sobre este personagem que trataremos.

            Afinal, o que Zarathustra nos ensina?

           Zarathustra é o além do homem (Übermensch), pois ele viu muitas coisas, sofreu muito, amou, odiou, foi guerreiro, experimentou a morte, comemorou a vida. Em seu caminho cheio de pedras ele superou a si mesmo. Em sua Odisséia ele superou muitos monstros, muitos dragões até tornar-se ele próprio, até tornar-se Zarathustra. O que Zarathustra nos ensina é tornar-se “si mesmo”. Essa é sua principal sabedoria. É isso que devemos aprender com ele, devemos aprender a ser nós mesmos. Não devemos seguir ninguém, não devemos seguir ídolos, nem mesmo a Zarathustra . Ele nos exorta a comer muito sal, a aprender com a pedra, que ela é dura, a saber que na dor há esperança e que o destino somos nós que fazemos. Quem nunca sentiu dor não sabe o que é a vida. Todos nós temos Zarathustra dentro do coração, mas também temos um dragão que impera com suas regras e normas. Para fazer surgir uma estrela que dance devemos quebrar muitas tábuas de leis. Quem quiser nadar que entre na água. Quem quer, mas não age, apenas deseja e sofre.

            Foi muito difícil a Zarathustra tornar-se si mesmo, foi preciso muita coragem, foi preciso engolir muito sal. Ele soube reconhecer seu destino. Ele soube viver sua vida. A maior parte dos homens não vive sua vida, não cumpre seu destino. Temos que aprender a coisa mais difícil desse mundo: aprender a viver. Viver é saber qual é o nosso destino. O destino não pode ser imposto de fora, ele deve ser puro como o mais fino brilhante, ele vem de dentro de nossos corações, devemos identificá-lo. Quem reconheceu seu destino quer cumpri-lo. Quem deseja amar, que ame. Quem deseja a liberdade, que se liberte.

             No destino há dor, mas também há esperança. É na dor que aprendemos qual é o nosso destino. A dor nos ensina a viver. Devemos respeitá-la e amá-la como algo necessário.   Muitos indivíduos não respeitam sua dor, não aprendem nada com ela. Estão sempre se lamentando e maldizendo a vida. Muitos nem ao menos sabem por que sofrem. Acham que a dor é causada pela falta de dinheiro, falta de amor, falta de emprego. Se  tentassem entender a dor,  tudo seria mais fácil. Perceberiam que ela não é causada pelo mundo, mas é uma dor pessoal causada pela insatisfação, causada pelo desejo de viver, causada pelo desejo de liberdade.  Não percebem que é seu destino que reclama dentro de seus corações. Os homens sufocam seu destino e é na dor que o destino grita por socorro.      É o destino em nossos corações que reclama à vida

                      Zarathustra nos ensina que falta obstinação ao homem. Falta personalidade. Temos que viver conforme o nosso coração. A verdade está em nós mesmos. Não devemos seguir o rebanho. Temos que deixar de ser gregários. Temos que adquirir perspectivas pessoais. Temos que ser frios e corajosos.  Tudo que existe possui um destino. O destino do pássaro é voar. O destino do peixe é nadar. O destino do homem é realizar seu sentido interno. Temos que descobrir o nosso sentido interno, a nossa natureza.  Só assim nos tornamos um espírito livre.  Temos que  voltar a sermos crianças, pois “a criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação” (Nietzsche, 2004, p.36)   A criança é um espírito livre. Ela segue seu sentido interno. Ela é pura espontaneidade, necessidade, liberdade, não sente culpa, não tem malicia, é inocência e sua vida consiste em brincar. Já o adulto é consciente de seus atos, sabe que para viver em sociedade deve abandonar uma grande parte de seus sonhos e desejos, pois deve se adaptar as exigência da vida social. O homem civilizado vive uma vida inautêntica. É um ser não-livre, moral, que sente culpa e remorso pelos seus atos.

           Para Zarathustra o destino do homem é crescer enquanto indivíduo. O sentido interno do homem está ligado a sua vontade de potência, a sua vontade de crescimento. O que importa é a nossa força interna, a força vital. O importante é cumprir o nosso destino individual. Enquanto seres gregários não temos individualidade. A individualidade é algo que temos que adquirir através do nosso destino pessoal. Temos que viver autenticamente a vida. Temos que ser nós mesmos. O indivíduo só se torna o que se é por suas próprias forças, ou seja, por sua vontade de potência. “E onde há sacrifício, serviço e olhar de amor há também vontade de ser senhor. Por caminhos secretos desliza o mais fraco até a fortaleza, e até mesmo ao coração do mais poderoso, para roubar o poder. E a própria vida me confiou este segredo. ‘Olha – disse – eu sou o que deve ser superior a si mesmo’”.(Nietzsche, 2004,p.96-7) O que Zarathustra nos ensina é ser senhor de si mesmo, pois aquele que é senhor de si mesmo é senhor do mundo.

Bliografia

Giacóia , O. Nietzsche. Publifolha, 2000 (Folha explica)

Nietzsche, F. Assim Falou Zarathustra. Martin Claret: São Paulo, 2004

Nietzsche, F. Crepúsculo dos idolos. In: Os Pensadores.São paulo: Abril, 1974

12 comentários em “Nietzsche e a filosofia como libertação

  1. Muito bom seu texto. Contas de Nietzsche: eterno retorno + vontade de poder = além-do-homem. Penso que Nietzsche vai chegar ao auge do reconhecimento daqui a uns séculos. Irá, certamente, ocorrer uma revolução na consciência humana num futuro distante. O capitalismo e o consumismo estão a castrar o ser humano. Um dia a bomba nietzschiana vai rebentar.

  2. Olá Michel

    Sou um curioso por filosofia e estou conhecendo ainda muitas coisas. Já li o crepúsculo dos ídolos, mas confesso que Nietzsche me parece muito contraditório. Como praticar essa total “liberdade moral” sem tanger a loucura (que me parece foi o que ocorreu com o próprio filósofo) ?

    1. Nietzsche é mesmo contraditório, inclusive ao propor um super-homem que nega a igualdade entre eles. Ora, a realidade diz que NÃO EXISTE AINDA O SUPER-HOMEM, LOGO SOMOS TODOS IGUAIS – NÃO SUPER-HOMENS… logo ou todos seremos super-homens ou nenhum o será. Leia DIMENSIONISMO ESPACIAL – GOOGLE.

    1. Na verdade, quando Nietzsche traça referida afirmação ele está apenas mencionando o que já fora feito por outros.
      Trata-se de uma metáfora que ilustra a superação da metafísica como centro das diversas correntes filosóficas e, que a partir da “modernidade” passam a ter a razão ou a experiência em seu centro, a depender da corrente ser analítica ou empírica.
      Por exemplo, a compreensão de fenômenos que antes eram justificadas a partir de fundamentações metafísicas, com Kant são compreendidas a partir do que ele denomina de “juízos sintéticos a priori”.

      Me parece que quando Nietzsche traça essa frase, ele está fazendo uma referência clara a Kant. Nietzsche apenas “levou a culpa” porque mencionou isso de forma expressa, porém, trata-se de uma perspectiva acerca do objeto de compreensão de fenômenos analisados pela filosofia e, não de uma posição anti religiosa pura e simplesmente. É como me parece.

      Abraços.

  3. Nietzsche foi só mais um louco problemático que queria aparecer. Teve problemas na igreja que participava e rebelando-se começou a escrever contra a igreja. Basicamente todas as suas afirmações interessantes são passagens bíblicas. Aliás para que serve a Filosofia???? Para instigar o homem a pensar? Mas o homem já pensa, sempre pensou, alguns pensaram de forma tão aleatória que se tornaram os Nietzsches da vida. Não existe liberdade de pensamentos, todos os pensamentos são baseados em algo ou alguém. Toda filosofia de vida será baseada nos pensamentos de alguém, não existe algo que o mundo nunca tenha visto ou presenciado. Todos são prisioneiros de todos da mesma forma todos são livres de todos.

  4. Site muito bom! Expõem de forma clara e coesa o que muitos professores não conseguem transmitir nas aulas. Agora tenho um site em que posso estudar e compreender filosofia! Obrigada por nos ajudar. Parabéns pelo site! Abraços

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