A teoria da alma em Platão

Por Michel Aires de Souza

  

Platão (428-348 a.C.) foi discípulo de Sócrates e escreveu trinta diálogos considerados autênticos. Hoje conhecemos a figura de Sócrates graças aos seus diálogos, que faziam dele seu personagem principal. Platão fundou a primeira escola conhecida no mundo ocidental na cidade de Atenas em 387 a.C, chamada Academia, em homenagem ao herói Grego Academus, que lutou na guerra de Tróia. Seu verdadeiro nome era Aristócles, mas foi apelidado de Platão devido aos seus ombros largos.   Era um homem rico e fazia parte da aristocracia que governava a Grécia. Seu pai, Aristão, tinha o rei Codros como seu antepassado e sua mãe, Perictione, foi parente de Sólon.

            O pensamento de Platão  foi muito influenciado pelas filosofias de Heráclito e Parmênides. Ele procurou reconciliar ambas as posições. Foi da controvérsia dessas duas filosofias que surgiu a “teoria das idéias”, núcleo central de sua filosofia. O problema que Platão propõe a resolver é o conflito “irreconciliável” entre a teoria da mudança em Heráclito e Parmênides.  Para Heráclito,  no universo não há nada acabado, fixo e estável, tudo está em permanente mudança. Sua metafísica identifica o Ser com o Não-Ser. Se o mundo é devir, vir-a-ser,  não existe um Ser fixo, estável,  ele está sempre se transformando, é sempre impermanente.   Já para Parmênides,  as coisas que existem têm múltiplas características, são pequenas, grandes, coloridas, pesadas, leves, são diferentes, como homem, animal, água, fogo, etc. Se usarmos a intuição e o raciocínio, perceberemos que há uma propriedade fixa em todas as coisas: elas “são”. Para Parmênides, o ser é uma propriedade de todas as coisas. Tudo que existe tem “Ser”. O Ser  é fixo, eterno, imutável, infinito. Dessa forma, as mudanças e transformações que ocorrem na natureza são uma ilusão de nossa percepção, pois algo que é não pode deixar de ser, e algo que não é,  não pode vir-a-ser, portanto, não há mudança.

           Para reconciliar ambas as teorias, Platão mostrou-nos que todos nós estamos sempre em contato com duas realidades: uma inteligível e outra sensível. A primeira é permanente, universal, nunca se modifica, é o mundo das idéias. A segunda,  é o mundo que percebemos por nossos sentidos, mutável e contingente, o mundo sensível.  Platão demonstra que o mundo tem uma forma a priori, uma estrutura inteligível.  “Através dos diálogos, Platão vai caracterizando essas causas inteligíveis dos objetos físicos que ele chama de idéias ou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis – o que significa dizer justamente que não está na matéria a razão de sua inteligibilidade. Seriam reais, eternas e sempre idênticas a si mesmo, escapando a corrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos. Merecem por isso mesmo, o qualificativo de ‘divinas’ (…). Perfeitas e imutáveis, as idéias constituiriam os modelos ou paradigmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tipos ideais, a transcender o plano mutável dos objetos físicos.” (Pessanha, 1987, XVI-II).

         A teoria das idéias de Platão está diretamente ligada a sua teoria da alma.   Na parte IV , do seu livro “República”,  Platão concebe o homem como corpo e alma. Enquanto o corpo modifica-se e envelhece, a alma é imutável, eterna e divina. A alma inteligente preso ao corpo um dia foi livre e contemplou o mundo das idéias, mas as esqueceu. É somente através da busca do conhecimento, através de um processo de recordação, de reminiscência,  o homem pode lembrar-se das idéias que um dia contemplou.   A realidade sem forma, sem cor, impalpável só pode ser contemplada pela inteligência, que é o guia da alma.

Platão divide a alma em três partes. O lado racional está localizado na cabeça, seu objetivo é controlar os dois outros lados, com ele adquirimos a sabedoria e a prudência. O lado irascível está localizado no coração, seu objetivo é fazer prevalecer os sentimentos e a impetuosidade, com ele adquirimos a coragem. Por último, temos o lado concupiscente que está localizado no baixo-ventre, seu objetivo é satisfazer os desejos e apetites sexuais, com ele adquirimos a moderação ou a temperança.  No Mito do Cocheiro, no diálogo “Fedro”, Platão compara a alma a uma carruagem puxada por dois cavalos, um branco (irascível) e um negro (concupiscível). O corpo humano é a carruagem, e o cocheiro (Razão) conduz através das rédeas (pensamentos) os cavalos (sentimentos).  Cabe ao homem através de seus pensamentos saber conduzir seus sentimentos, pois somente assim ele poderá se guiar no caminho do bem e da verdade.

           Platão afirma,  que não podemos ser felizes quando somos dominados pela concupiscência e pela cólera, isso porque as paixões sempre nos conduzem por caminhos perigosos e contraditórios e fazem com que os desejos e impulsos violentos de nosso corpo tirem nosso bom senso.  Já dizia Sócrates que todo vicio é ignorância. Não há nada mais deprimente do que uma pessoa que age por impulsos e é dominada pelas paixões. Ter autocontrole é essencial para sermos felizes. A felicidade só pode ser alcançada se formos capazes de dominar nossos sentimentos pela razão. A moderação é uma virtude,  e ela se realiza quando somos capazes de controlar a nossa concupiscência. O indivíduo moderado é aquele que não cede as suas paixões, impulsos e prazeres. Da mesma forma,  o indivíduo não se lançara a luta e a agressão indiscriminadamente, uma vez que a razão deve saber discernir o que é bom e mal para nossa vida, sabendo dominar a nossa alma irascível. Dessa forma, seremos felizes se através da razão soubermos controlar nossa vida, pois a virtude natural da razão é o conhecimento.

46 comentários em “A teoria da alma em Platão

  1. Essa comparação de Platão no Mito do Cocheiro, já não existia na Upanishad??? Qual veio antes???

    1. Olá Nilda,

      Se existia eu desconheço. É certo que a filosofia grega teve muito contato com o pensamento do oriente. Platão mesmo viajou para os países orientais.

      Abraços
      Michel

      1. Com todo respeito Michel, a resposta está incorreta, uma vez que o pensamento grego somente entrou em contacto com o oriental (Índia, no caso), após as conquistas de Alexandre o Grande e a Filosofia Grega já tinha se consolidado há muito tempo. Sócrates, Platão e Aristóteles, que são os seus verdadeiros consolidadores, já haviam morto há um bom tempo.

      2. Eu não disse que Platão viajou para a Índia, disse que ele viajou para o oriente. Ele viajou para o Egito (Oriente Médio) e teve contato com os sacerdotes egípcios. Também afirmei que desconheço se ele teve contato com o Upanishads. Se o mito do colcheiro de algum modo está nos Upanishads, ele entrou em contato com esse mito em uma de suas viagens.

        Abraços
        Michel

    1. Olá Bianca,

      A alma se compõe de três partes, a parte racional, responsável pela sabedoria e sagacidade; a inrascível, responsável pelos sentimentos e pela ousadia; e a parte concupiscível, responsável pela moderação dos desejos.

      Abraços
      Michel

  2. Os fundamentos platonícos são de grande importãncia para a era contemporânea.Embora, tenha surgido á 21 séculos atrás tornou-se perceptíveis e valorizados nos dias atuais.

  3. Obrigado, pelo texto, pois irei participar de um seminário onde o assunto é a composição da alma, ou seja, as três partes. Estava confuso!!!

    1. Olá Sirley,

      A palavra “theoria” na concepção clássica da filosofia tinha o sentido de conhecimento especulativo, abstrato, conhecimento puro em oposição ao mundo da experiência. A teoria das ideias de Platão é um bom exemplo disso, uma vez que, as ideias são universais, necessárias e eternas; ao contrário do mundo sensível, que é aparente e contingente. Foi somente com Aristóteles que começou a existir uma classificação dos conhecimentos científicos. Ele os dividiu em: ciências práticas (ação), como a política e a moral; poesis (fabricação) como o artesanato; e theoria (contemplação). A teoria foi compreendida, portanto, como “ciência da verdade”, ou seja, reflexão do que é universal e necessário, como a filosofia, a lógica e a matemática.

      Espero que tenha ajudado.

      Abraços
      Michel

    1. Olá Samuel,

      Platão define a alma em oposição ao corpo. Enquanto este é corruptível, composto e finito; a alma é definida como semelhante as coisas eternas, imortais e divinas, sendo ela indissolúvel, única, com uma identidade eterna e permanente. Espero que tenha ajudado.

      Abraços
      Michel

      1. sim,ajudou bastante, são poucas palavras com muita fundamentação….

        obg….samuel

  4. Boa noite Professor.
    Fico grato por ter compartilhado esse seu texto, foi útil no trabalho de conclusão de um curso de extensão que estou fazendo.
    A citação foi feita conforme manda o figurino ok?

    Att.:

    Wilson Lara Jr

  5. A Gênese narra no Cap 2, v v 5a7 a definição de alma e que só entenderão os espiritualistas.
    O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprando-lhe nas narinas o sôpro da vida, passando a ser o hemem ALMA VIVENTE. A alma é pois, o resultado da união do espírito ao corpo e que quando o devolve a terra, resta-lhe o perispírito. Então o homem encarnado é espírito, matéria e perispírito, sendo esta união denominada alma que rompendo os laços físicos a alma volta as suas orogens celestiais.O erquívico é a criatura confundir alma e espírito já que a alma só existe enquanto no corpo. A evoluçaõ do espírito guarda todas as informações no perispírito que o acompanha ao longo de todas as suas existências.Uma coisa é espírito imortal, alma temporária como a materia e permanente o perispírito, este que é confundido com a alma.

  6. Professor boa noite, agradeço-lhe muito pelo imenso trabalho que feito em prol da educação. gostaria que me respondesse a seguinte pergunta:
    Platão fala-nos do mundo das ideias, da alma, o que o levou acreditar que ser humano não aprende nada de novo já detém um conhecimento inato. Relacione essa ipótse inatista à aprendizagem dos seus alunos?

    1. Olá Vitorino,

      O melhor exemplo para se trabalhar em sala de aula o caráter inato do nosso conhecimento foi dado por Platão no diálogo entre Socrátes e o escravo de Ménon. O escravo desconhecia totalmente geometria, mas Sócrates, a partir de desenhos geométricos, feitos no chão, juntamente com perguntas objetivas, levou o escravo a descobrir um problema difícil de geometria. Não foi a toa que Platão escreveu trinta diálogos, a busca das verdades inatas é possível por meio do método dialético. É por meio do diálogo que o professor deve com seus alunos partir das ideias mais simples e cotidianas buscando as ideias puras e universais. É a partir do mundo sensível que podemos compreender o mundo inteligível. O conhecimento em Platão se dá por um diálogo intenso de perguntas e refutações onde se busca definir os conceitos universais e necessários de toda experiência possível. É por meio da dialética que se chega a epistême (conhecimento) como crença verdadeira e justificada em oposição à opinião (doxa).

      Abraços
      Michel

  7. Platão é o maior. Muitas das minhas teorias sobre o amor são suportadas por coisas que Platão disse. Descobri isto na semana passada! Ou seja, as minhas teorias estão certas e já me ajudaram muito a mim e aos meus. Adoro filosofar. É essencial para pessoas que gostam de racionalizar tudo!

    1. “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. A mudança é mera cópia da eternidade, está ligado ao mundo sensível. É mera opinião (doxa). O ser das coisas não é geração, nem devir, por isso a mudança é uma ilusão, mas é captada pela nossa percepção como algo existente. O ser é imutável, portanto, a eternidade é imutável, imóvel e perene.

    1. Olá Ewerton,

      Academus era um herói da Guerra de Tróia no século XII a.C. Platão também tinha um amigo chamado Academus. Segundo a lenda esse herói foi sepultado naquelas terras onde Platão fundou sua escola. Veja as bibliografias de Plutarco sobre Teseu: AS VIDAS DOS HOMENS ILUSTRES GREGOS E ROMANOS.
      Michel

  8. Olá Michel. Somente agora tive acesso aos seus textos. Achei-os bem didáticos, e como dizia Ortega Y Gasset , a clareza é a cortesia do filósofo. Valorizo muito iniciativas como esta a que você se propõe. Queria saber, se continua ainda a publicar textos ? E se podemos encaminhar dúvidas, que eventualmente surgem . Abçs.

    1. Olá Cristina,

      Nem sempre eu tenho tempo para responder, mas na medida do possível eu tento. Também não sou um especialista, respondo perguntas sobre os pensadores que mais leio. Se tiver alguma dúvida é só dizer.

      Abraços
      Michel

  9. Olá professor Michel .
    se há uma dicotomia no pensamento grego, se o corpo e separado da alma; como, segundo Platão, se dá a união entre eles ?
    Poderias me responder?

    1. Olá David

      Há uma separação entre corpo e alma, mas não sei se Platão deixa claro como se processa a união entre ambos. Ele afirma que a o corpo é o túmulo da alma, um cárcere da alma, um lugar onde a alma está presa. Morrer, portanto, seria libertar-se desse cárcere. A alma passaria por vários corpos e a cada nova mudança ele teria acesso as ideias perfeitas. Mas, em vida, o corpo seria um impedimento para o acesso a essas ideias. “A alma pensa melhor quando não tem (…) nem a vista, nem o ouvido, nem a dor, nem prazer de espécie alguma, e concentrada em si mesma, dispensa a companhia do corpo, evitando qualquer comércio com ele, e esforça-se por apreender a verdade” (Fedon)

      Abraços
      Michel

  10. Quueriaa Saber Como a Filosoria Plantão Considera a “alma” ?

    se vooçce podeer responder por favoor euh agradeço

  11. Quando surgiu a tricotomia, isto é, o homem ser formado por corpo, alma e espirito? Platão faz alguma mensão a distinção de alma e espírito?

    1. Olá Brito,

      Desconheço essa divisão, Descartes no século XVI dividiu em corpo (res extensa) e espírito (res cogitans) como substâncias diferentes.

      Abraços
      Michel

    2. Olá, Brito, um bom estudo pode ser encontrado no livro A Linguagem dos Deuses, de Antonio Farjani, disponível na Amazon.

  12. como posso elaborar um artigo cientifico falando ao mesmo tempo da concepção de alma em platao e aristoteles?

  13. Olá, tudo bem? Então, eu estou começando a gostar de filosofia e gostaria da ajuda de vocês… Eu não entendi a visão de Platão para alma e copo.
    Alguém me ajude nessa questão???
    Obrigado pela atenção!!
    Valter.

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