O que é o Amor?

Por Michel Aires de Souza

Escrever sobre o amor é uma tarefa quase impossível, pois a linguagem é demasiadamente pobre para descrever os sentimentos. Quando digo que amo alguém profundamente, estou descrevendo superficialmente tudo o que sinto. A linguagem é infinita em possibilidades, mas é limitada para descrever o amor. O amor surgiu para ser sentido e não para ser compreendido.  Não podemos expressar sentimentos através da linguagem, assim como não podemos ouvir e sentir a música através de uma partitura. Os códigos que descrevem o amor perdem o sentido, na medida em que se tornam impotentes para dar significados aos sentimentos. Há um grande abismo entre os sentimentos  do coração, que são inomináveis, e os códigos linguísticos que tentam descrevê-los.  Se o amor é inexprimível e não pode ser compreendido, como falar sobre o amor?  Só podemos descrever o amor através de uma mitologia, a partir de imagens oníricas, de metonímias, metáforas, antropomorfismos. O discurso do amor deve ser poético e não lógico.      

        O amor é harmonia e união dos contrários, é atração ordenada dos opostos, é desejo de unidade e indivisão. No amor buscamos o ser complementar. Amamos o que nos completa, na busca do pleno preenchimento e da perfeição.  A vida sem amor é uma vida sem sentido.  Para Platão,  o amor (Eros) é uma força cósmica universal, que busca o bem e nos traz a felicidade, o conhecimento  e a virtude.   Em seu livro “O Banquete”, escrito há mais de trezentos e cinqüenta anos antes de cristo, Platão mostra-nos que o ser amado é a nossa outra metade há muito tempo perdido, cujo corpo estava originalmente ligado. Ele nos conta que no princípio de tudo  havia três tipos de humanos: o homem duplo, a mulher dupla e o  hermafrodita. Eram redondos, com quatro braços e quatro pernas e dois rostos numa só cabeça. Eram fortes, vaidosos e sentiam-se plenos de força. Por isso, decidiram ir aos céus. Mas foram punidos por Zeus, que os cortou ao meio. Desde este instante, cada metade vive uma carência eterna pela outra metade, sempre procurando a união, morrendo de desejo pelo outro. Eros busca a restauração da unidade primitiva e nos faz buscar a metade perdida. O homem é apenas parte, mas busca inconscientemente recompor uma totalidade. Por isso, é um ser insatisfeito por natureza. Sua vida consiste numa busca incessante pela felicidade. É nessa busca pelo amor que ele pretende superar sua carência, angústia e insatisfação diante da existência.   

          O amor por ser uma busca constante para aplacar a carência.  usa de todos os artifícios para conquistar a beleza. A beleza é fonte de satisfação e bem-estar, ela encanta gerando o desejo e o prazer.  O amor  busca sempre  a satisfação. Dessa forma,  usa do cálculo e da astúcia para conquistar a beleza. O amor é calculista, engenhoso, não se detém diante de nada, nem mesmo diante do perigo. O mito de Eros demonstra essa ideia.  Quando Afrodite (a Bela) nasceu todos os deuses foram convidados para festa, exceto Pênia (a Penúria) que foi esquecida. Escondida do lado de fora, ao término da festa, Pênia entra nos jardins e começa a comer os restos da festa. Todos estavam embriagados. Ao ver Poros (Engenho), filho de Metis (Prudência)  adormecido por causa do vinho, faz amor com ele. Ela  sempre  desejou ter um filho. Daí surge Eros (Amor).  Por ter nascido no aniversário de Afrodite, a Bela, Eros ama o belo. Mas é trágico o destino de Eros, pois  como sua mãe,  vive na penúria, sem casa, como um mendigo, dormindo pelas ruas, sempre carente e morto de fome. Por outro lado, como seu pai, Eros é engenhoso, astuto, calculista,  maquinador. Ele deseja tudo o que é belo. O amor é, portanto, carência e astúcia ao mesmo tempo. O amor floresce e vive, morre e renasce, sempre astuto, sempre carente, pobre e infeliz.  O amor é uma busca constante para aplacar a dor da falta.

      Há um outro conceito de amor concebido pela cultura grega: Filia. O conceito de filia nos remete ao amor entre amigos. É um amor pleno, desprovido de interesse, incondicional. A amizade se caracteriza pela afeição, afinidade e conhecimento mútuo. A lealdade, a cumplicidade, o altruísmo, a benevolência e a complacência são característica  da amizade. A palavra filosofia vem do termo Filia e Sophia, literalmente  amor a sabedoria.  O amor do filósofo pelo saber é filia, amizade  

       Os dois conceitos da cultura grega são importantes para entendermos o amor conjugal.   O amor conjugal é a união entre  Eros (amor sexual) e  Filia (Amizade). Podemos desejar o corpo  ou  desejar o espírito.  Luiza era bonita, gostosa, tinha seios fartos, fazia um homem chorar de prazer e dizer que a ama na cama, mas Luiza só oferecia isso. Acabava o sexo surgia o desejo de dispensá-la.  Era superficial, falava como um papagaio e era insuportável. Já Ana não era o tipo de mulher bonita. Era comum, sem seios fartos, sem bunda. Mas poderia se passar horas conversando com ela. Era agradável, singela, amável e profunda.

         O amor de Eros é fisiológico, sexual, diz respeito ao desejo e à atração. Já o amor de  Filia é sereno, equilibrado, constante, incondicional, altruísta. O sentimento amoroso está ligado ao impulso sexual.  Eros (amor sexual) se desvela como impulso de reprodução da espécie. Ele tem uma influência em todos os assuntos humanos, uma vez que interrompe tarefas, desorienta o indivíduo mais conservador, destrói relações de amizade e casamentos. Por isso é necessário o amor de filia, para gerar a cumplicidade, o respeito, a fidelidade e a doação de si. O amor de filia valoriza a confiança, o entrosamento, os projetos compartilhados. Sem Eros e Filia não há relação amorosa. Desejo e amizade são produtos e ingredientes do amor.

            Quando o homem passou a viver de forma conjugal,  dois ingredientes tornaram-se necessário para se viver a dois: sexo (Eros) e amizade (Filia).  Se faltar um desses dois não há amor. O amor é uma grande afeição entre duas pessoas, ausente de interesses, cuja finalidade é a doação de si mesmo, a gratidão, o afeto, a tolerância, o zelo,  a amizade, o desejo e a paixão.  

 

13 comentários em “O que é o Amor?

  1. Boa noite Michel, bela descrição. Obrigada. Gostaria de entender isso, dessa união Filia e EROS, existe um mais forte q o outro? EROS destrói relações de amizades e casamentos. Porém Filia, enraíza de certa forma, pela intensidade que se cria com suas características gerando o sofrimento, talvez apego. Nesse caso até parece que existe uma complexidade, Eros em ser algo bom e Filia ruim, uma contrariedade.
    Desejo e amizade são ingredientes do amor. A partir de que momento o homem passou a viver ou descobriu a forma conjugal como algo necessário? Gostaria de esclarecer. Obrigada novamente.

  2. Ola,bom dia…
    Sou Mestre de cerimonia,e pesquiso muito a respeito,sobre o amor,para meus cerimoniais.
    Eu adorei, e gostaria de saber se você me autorizaria a usá-lo em um casamento que vou realizar em outubro agora no dia 3.dizendo e colocando que este texto pertence a você Michel Aires de Souza.
    Meu te.0xx12 – 98704-2074 – OI
    Obrigado,e parabéns!

  3. Bom dia,muito profundo os dois paralelos,descreve muito bem o que é o amor nos dias de hoje,Eros,sem compromisso,Filio o que falta o amor sem interesse,afetivo.
    Bom eu gostaria de saber do Amor Ágape.

  4. Olá !
    Gostaria de mais detalhes sobre Zelofilia, estou me relacionando com um homem e diz ter isso,e fui pesquisar e não encontrei muitas informações a respeito, obf e aguardo resposta.

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