A luta simbólica por reconhecimento social

Por Michel Aires de Souza

Nas últimas horas após a morte de Steve Jobs 4,5 milhões de menções foram feitas no Twitter, saíram 65 mil publicações na internet, 290 mil  curtidas no facebook, milhares de camisetas foram vendidas por 8 dólares. A morte dele foi anunciada em todos os jornais e programas de televisão do mundo. Ele foi apresentado como modelo de homem ousado, perfeccionista, criativo, inovador. Enquanto as televisões do mundo anunciavam a morte de Jobs, quase 12 milhões de pessoas estavam morrendo de fome e sede no Quênia, Djibuti, Sudão e Uganda, devido a seca e a falta de comida. É natural indagarmos, por que a humanidade daria mais importância à morte de um homem do que à morte de 12 milhões de seres humanos. Essa resposta tem uma explicação sociológica. Esse fato reflete uma falta, uma carência, um desejo, a necessidade de sermos competentes, inovadores, criativos, amados e desejados como Jobs. Jobs é aquilo que não somos, somos seres medíocres vivendo em apartamentos apertados, numa vida monótona e sem sentido. Jobs é aquilo que sonhamos ser e que acreditamos poder ser, mas que na verdade nunca seremos. A nossa interioridade é vazia e nossa existência é regular e monótona, mas sempre achamos que ela vai mudar como num passe de mágica. Um dia seremos admirados, invejados e viveremos em coquetéis que serão feitos em nossa homenagem. Acreditamos que pelo esforço pessoal alcançaremos o poder, a fama e o dinheiro, pois nos incutiram tais ideias. Somos eternos sonhadores e devemos continuar sendo, pois assim nos ensinaram. Vivemos em uma época onde os valores se relativizaram e onde o vazio interior e a falta de sentido tornaram-se parte da experiência humana. Por estas razões somos tão facilmente manipulados.

      Kingsley Davis e Wilbert Moore atribuíram um papel positivo a luta pela ocupação social. Ao estudarem a divisão social do trabalho esses dois autores mostraram que as diferenças entre os indivíduos surgem em função da posição que ocupam no mercado de trabalho. Segundo eles, algumas posições ou funções conferem prestígio, benesses, fama, dinheiro e poder. Isso significa que os indivíduos devem adquirir competências, recursos, obrigações, comportamentos e trabalhos pesados que são essenciais à manutenção da sociedade. Em outras palavras, a competição entre os indivíduos é benéfica para a sociedade como um todo, uma vez que os mais competentes ocupam os melhores lugares. Para alcançar as melhores funções, os indivíduos se esforçam para se tornarem competentes, e uma vez atingido seus objetivos, eles serão cuidadosos e zelosos para manter a função.

      A tese de Davis e Moore é conservadora, pois a estratificação social é apenas positiva para a reprodução do capital e não para os indivíduos, pois fomenta uma luta simbólica por reconhecimento social. As posições na hierarquia social são limitadas enquanto o número de indivíduos é ilimitado. O resultado disso é a frustração, a impotência e o desajustamento social. Zygmunt Bauman em seu livro “ Vida para o Consumo” (Consuming Life) mostra-nos que “na sociedade do consumo, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável” (BAUMAN, 2008, p. 20). Buscar qualidades esperadas pelo mercado, agregar valor à profissão, fazer plástica, malhar na academia, falar inglês e alemão, fazer várias faculdades,são o apanágio de um mundo que se mercantilizou. Tudo se tornou mercadoria. “A tarefa dos consumidores, e o principal motivo que os estimula a se engajar numa incessante atividade de consumo, é sair dessa invisibilidade e imaterialidade cinza e monótona, destacando-se da massa de objetos indistinguíveis” (BAUMAN, 2008, p. 21) Consumir para Bauman significa, portanto, que o indivíduo deve investir em si mesmo obtendo qualidades que o tornem desejável para o mercado. Nesta sociedade os indivíduos devem obter no mercado os serviços para que se tornem cada vez melhores como mercadorias. Eles devem se equipar com um ou outro produto fornecidos pelo mercado se quiserem ter a capacidade de alcançar e manter a posição social. O ser humano rejeita sua própria incompletude e procura superar essa solidão de ser invisível num mar de mercadorias. “Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade” (BAUMAN, 2008, p.76).

      Herbert Marcuse no seu livro Eros e Civilização de 1955 já havia percebido o princípio norteador que rege a sociedade do consumo, ele o denominou de “princípio de desempenho”, pois “insiste no fato que, sob sua lei, a sociedade é estratificada de acordo com o desempenho competitivo de seus membros” (MARCUSE, 1955, p.50). Dessa forma, somente é reconhecido aqueles cujo desempenho superam as expectativas do sistema. O indivíduo deve se sacrificar para alcançar um lugar ao sol. Em consequência disso, cria-se uma sociedade unidimensional; unidimensional porque o aparato produtivo e as mercadorias se impõem ao sistema social como um todo. Os produtos da sociedade capitalista invadiram a dimensão interior do homem submetendo-a as formas de domínio social prevalecentes. O próprio indivíduo reproduz e perpetua os controles externos em sua consciência. Essa introjeção ocorre a partir de processos relativamente espontâneo, onde o “Eu” transfere o exterior para seu interior. O pensamento torna-se assim unidimensional tal como a sociedade.

        São pelas razões citadas acima que a tese de Davis e Moore é conservadora. A estratificação social é perniciosa aos indivíduos. As instituições na atualidade estariam socializando comportamentos, papéis e funções não para promover a estabilidade social, mas para reproduzir as estruturas de domínio social vigentes, e para manter alienados os indivíduos no interior das práticas sociais. A busca escarnecida por um lugar ao sol somente alimenta a sociedade do consumo e ajuda a manter a estratificação social. É por este motivo que Jobs ganha visibilidade enquanto milhares de seres humanos morrem de sede e fome na África. Como afirmou Bordieu, “talvez não exista pior privação, pior carência, que a dos perdedores na luta simbólica por reconhecimento, por acesso a uma existência socialmente reconhecida, em suma, por humanidade” (BORDIEU, P. apud BAUMAN, Z., 2008,  p. 7).

Bibliografia

BAUMAN, Zigmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

DAVIS, Kingsley e MOORE, Wilbert E. Alguns princípios de estratificação. Org. Gilberto Velho, Estrutura de classes e Estratificação social. Rio de Janeiro, Zahar , 1974.

MARCUSE, H. Eros et Civilization, Paris, Edtions de   Minuit, 1955. et Civilisation. Paris: Les Editions Minuit,1955.

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