Compreendendo o crescimento da China

Por Michel Aires de Souza

Download da palestra do professor Martin Jacques (London School of Economics)

          O professor Martin Jacques da “London School of Economics” em sua palestra, “Compreendendo o crescimento da China”, procurou demonstrar que em um futuro próximo o mundo vai ser dirigido e moldado não pelos velhos países desenvolvidos, como os países da Europa ou Estados Unidos, mas sim pelos países em desenvolvimento. Sua palestra se deteve na China, pois este país daqui uma década vai ultrapassar a economia norte-americana e em 2050 vai ser duas vezes maior. Isso significa que o mundo inexoravelmente tornar-se-á menos familiar daqui alguns anos. Ele não vai ser mais dirigido e influenciado pelos valores norte-americanos e europeus, mas sim por culturas e experiências que o ocidente não está acostumado.  Os países em desenvolvimento como a China, Índia, Brasil, Indonésia e tigres asiáticos provavelmente vão ter uma enorme influência no panorama mundial e vão moldar os novos valores em um futuro próximo. 

        Hoje se tornou comum pensar que, enquanto os países se modernizam, eles também se ocidentalizam. Essa é uma grande ilusão afirmou o professor em sua palestra. Para ele, o ocidente tem sido tão dominante nos últimos 200 anos que despreza outras culturas e civilizações. O maior exemplo disso é a ignorância quanto à cultura chinesa. O ocidente insiste em pensar que pode entender a China a partir de sua experiência, usando conceitos ocidentais. Para o professor, essa atitude é típica daquela mentalidade mesquinha ocidental. É de um tipo arrogante. É arrogante, porque se acha melhor que outras culturas. O ocidente se coloca como a medida do universal, a pedra angular que sustenta o mundo. Mas na verdade essa mentalidade é tipicamente etnocêntrica. É etnocêntrica porque pensa que seu mundo fundamentado na racionalidade, no progresso da razão e do conhecimento é superior e deve ser o parâmetro do universal. A mentalidade etnocêntrica do ocidente trata outras culturas como inferiores, que devem seguir o padrão ocidental. A ideia de um estado democrático de direito, com instituições racionais, cujos princípios são o direito à vida, à propriedade e à liberdade, deve ser modelo para todas as culturas.  O ocidente esquece que há outras formas de racionalidade, assim como novas formas de existência e valores que não podem ser ignorados.

       Em sua palestra o professor Martin Jacques traz três importantes fundamentos para compreender o que é a China e no que ela se tornará.

      O primeiro fundamento afirma que a China como o mais representativo dos países em desenvolvimento não compartilha da ideia de “estado-nação”, a identidade chinesa é muito antiga e surge de uma noção bem distinta de Estado. O mais importante para os chineses é sua unidade, ou seja, a manutenção da civilização chinesa. Por isso, ela é, afirma o professor, um “estado-civilização unido”.  Se nos países do ocidente existe apenas um estado e um sistema, a China é um estado e vários sistemas.  Essa foi a resposta natural aos sistemas de Hong Kong e Taiwan.

        Outro fundamento importante colocado pelo professor para se entender a China e que o ocidente ignora é sua noção de raça. A identidade chinesa está ligada à dinastia Han. Dos 1,3 bilhão de chineses, noventa por cento deles pensam pertencer a mesma raça: a Han. Enquanto muitos países populosos são multirraciais, como EUA, Brasil, Índia e Indonésia, a China permanece unida a partir da identidade Han, esse é o seu cimento. No entanto, a China não deixa de ser etnocêntrica. Os chineses realmente acreditam em sua própria superioridade e assim são desrespeitosos com outras culturas. Daí surge sua fragilidade.

           O último fundamento afirma que os chineses têm uma relação bastante diferente com o estado, bem diferente do preconceito ocidental que considera o estado chinês como uma ditadura comunista perversa, comparada aos sistemas totalitários. Segundo o professor Jacques no estado chinês há mais legitimidade e autoridade do que nos países ocidentais. Nos países do ocidente a legitimidade e autoridade do estado é uma função da democracia, mas que são constantemente desafiadas. O estado é um intruso, um estranho, seu poder deve ser constantemente limitado. Algo que não ocorre na China.  Por mil anos o estado chinês não foi desafiado. Não tem rivais sérios. O estado na China é visto como representativo, é o guardião da civilização chinesa. Para os chineses o estado é íntimo, não como um membro da família, mas como a cabeça da família, o patriarca da família.

          São pelas razões citadas acima que a China é o país do futuro. Ela acredita no mercado e no estado, mas de maneiras muito diferentes do ocidente. 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s