Como é se sentir um morcego: subjetividade e objetividade em Thomas Nagel

Por Michel Aires de Souza

 

Para Nagel compreendemos muito pouco as relações entre mente e corpo, assim como as características mais importantes dos fenômenos mentais conscientes. As atuais análises sobre esses problemas são de caráter reducionista. A redução consiste em considerar certas ordens de fenômenos como sujeitos às leis mais bem estabelecidas de uma outra ordem de fenômenos. Por exemplo, podemos considerar os fenômenos orgânicos como submetidos às leis dos fenômenos físicos e, esses últimos, como sujeitos às leis dos fenômenos mecânicos. Assim, toda redução tem uma analogia tomada das ciências moderna.

          Os alvos da crítica de Nagel são aos fisicalistas. Ele entende por fisicalismo “a tese de que uma pessoa, com todos seus atributos psicológicos, não é nada além do seu corpo com todos os seus atributos físicos” (NAGEL, 1996, p.121). Os estados mentais são reduzidos a estados do corpo; os processos mentais reduzidos a processos físicos.  Há uma identidade entre o mental e o físico. Isso significa, para Nagel, que nós  compreendemos muito pouco as características mais importantes dos fenômenos mentais. A maior parte das teorias reducionistas nem se quer buscam explicá-las.  Por estas razões, “trata-se de explicar porque os exemplos usuais não nos ajudam a compreender a relação entre a mente e o corpo; e porque na atualidade não temos um conceito do que seria uma explicação da natureza física dos fenômenos da mente” (NAGEL, 1981, p.257).

       Ao contrário dos fisicalistas que defendem uma teoria monista, afirmando a identidade entre corpo e mente, Nagel busca corroborar o dualismo mostrando que corpo e mente são identidades distintas.

          Para Nagel, a consciência é um fenômeno muito amplo aparecendo em muitos níveis da vida animal, ainda que não podemos estar seguros de sua presença nos organismos mais elementares. Pode ser que existam  consciências inteligentes  em outros planetas,  sistemas solares ou em todo o universo. O que importa de fato é que um organismo, seja ele terrestre ou não, tenha algumas experiências conscientes. Isso significa que há algo na experiência consciente que sente ser esse organismo, algo que sente ser a causa desse organismo. Nagel chama a isso o caráter subjetivo da experiência, ou seja, suas qualidades fenomenológicas. Este fato não é captado pelas análises reducionistas dos fenômenos mentais, que chegam a aceitar sua ausência. Assim, ele acha inútil basear a defesa do materialismo em uma análise dos fenômenos mentais que não trate  explicitamente de seu caráter subjetivo.

          Para ilustrar a relação entre a subjetividade e o ponto de vista, e mostrar a importância das características subjetivas, Nagel, “analisara” a fenomenologia de um morcego: “o que é se sentir um morcego?”. A partir dessa análise definiremos e mostraremos as relações entre o conceito de subjetividade e objetividade em seu pensamento.

        Nagel escolheu os morcegos e não as vespas, os ratos ou outros animais, pois se analisarmos a sua árvore filogenética, veremos que os morcegos estão mais relacionados com os homens do que outras espécies. Apesar disso, eles são muito diferentes dos seres humanos, pois  possuem um campo de atividade e um aparato sensorial muito distinto dos nosso.

           Para podermos ter uma ideia do que é se sentir um morcego, devemos, primeiramente,  aceitar que os morcegos tenham experiências tal como os outros animais, assim como os ratos e os pombos. Sabemos que eles são mamíferos e possuem uma visão bastante limitada. Nós sabemos também, que a maioria dos morcegos percebem o mundo por um sonar, detectando os reflexos provenientes dos objetos a seu alcance, com impulsos rápidos, sutilmente modulados, de alta frequência. Seus cérebros estão traçados para relacionar os impulsos emitidos com os ecos subsequentes, isso permite fazerem  discriminações precisas da distância, tamanho, forma, movimento e textura dos objetos.  

        Nagel nos convida a tentar imaginar o que é se sentir um morcego, mesmo que ao adotarmos seu ponto de vista, nós o adotemos de maneira tosca e parcial. Dessa forma, poderíamos imaginar que tivéssemos membranas nos braços, que isso nos permitisse voar à noite caçando insetos com a boca, e que passássemos o dia dormindo de cabeça para baixo, suspensos pelos pés. Perceberíamos o mundo que nos rodeia por meio de um sistema de sinais de som refletindo em alta frequência. Segundo Nagel,  podemos elaborar um conceito esquemático do que  isso seria. Por exemplo, poderíamos atribuir tipos gerais de experiências baseando-se na estrutura e no comportamento do animal. Descreveríamos o sonar dos morcegos como um tipo de percepção dianteira tridimensional. A partir disso, acreditamos que os morcegos sentem algum tipo de dor, temor, fome e luxúria, e que possuem outros tipos de percepções relacionados ao sonar. Acreditamos também que as experiências dos morcegos têm um caráter subjetivo específico que nunca poderemos compreender.

         Para Nagel o sonar é uma forma de percepção  e não possui um funcionamento similar aos dos homens, também não podemos supor que subjetivamente  se parece com algo que podemos sentir ou imaginar. Isso cria dificuldades à ideia do que é se sentir um morcego. Se tentássemos imaginar nos veríamos limitados pelos recursos da nossa mente, que são inadequados para essa tarefa.

           Como podemos notar, Nagel pretende demonstrar que os morcegos possuem um caráter subjetivo específico que não podemos compreender, pois possuem uma individualidade e uma consciência distinta da nossa. Se há vida consciente em outros sistemas solares, é provável que não possamos descrevê-las,  mesmo com todos os bens materiais e intelectuais de que dispomos.  O fato é que não podemos fazer uma descrição detalhada da fenomenologia de um marciano ou de um morcego. O realismo de Nagel acerca do caráter subjetivo afirma que há fatos fora do alcance dos conceitos humanos. Há fatos que os seres humanos não podem expressar ou compreender, pois sua estrutura não lhe permite funcionar com os conceitos requeridos. Para Nagel “refletir sobre o que é se sentir um morcego nos leva, por conseguinte, a concluir que há fatos que não dependem das verdades das proposições que podemos expressar em linguagem humana Podemos ver-nos impulsionados a reconhecer que existem fatos sem poder enunciá-los” (NAGEL, 1981, p.265.).

        O postulado citado acima se  relaciona diretamente  com o  problema da mente e do corpo. Quando analisamos um fenômeno analisamos a partir de nossa estrutura perceptiva. Os fatos da experiência surgem a partir de uma perspectiva, ou seja, surge da experiência do organismo que sente os fatos e só são acessíveis a partir de seu ponto de vista. Isso significa que nunca poderemos saber o verdadeiro caráter das experiências no funcionamento de outro organismo. Em outras palavras, qualquer que seja a experiência consciente de um ser humano, morcego ou marciano, os fatos parecem encarnar um ponto de vista particular, assim não é possível revelar-se os estados subjetivos de um organismo partindo da análise de seus processos neorofisiológicos.  Mesmo que um cientista humano possa adquirir conhecimentos sobre a neorofisiologia de um morcego ou os morcegos e  marcianos inteligentes possam aprender mais do que nós sobre o cérebro humano, nunca poderá saber sobre as experiências subjetivas de  uma outra espécie.  A análise da base física da mente deve explicar muitas coisas, mas não pode explicar a consciência, “se defendermos o fisicalismo, devemos dar uma explicação física das características fenomenológicas. Mas quando analisamos seu caráter subjetivo, parece impossível obter este resultado, porque todo fenômeno subjetivo está essencialmente relacionado com um só ponto de vista, e parece inevitável que uma teoria objetiva, física, abandone este ponto de vista” (NAGEL,1981, p.259-260).  

      Outro argumento de Nagel contra o fisicalismo, é que o corpo está submetido a processos físicos objetivos, enquanto os processos mentais têm necessariamente um caráter subjetivo. O eu dos processos mentais não pode ser um mero objeto físico.  Se possuímos estados mentais, somos o sujeito deles, de tal modo que nenhum objeto físico pode ser sujeito do seus atributos. Temos uma internalidade que as coisas físicas não têm. Temos um certo “self” (si mesmo) como sujeito, que não pode ser idêntico a um mero atributo de algum objeto como um corpo. Mas, temos ainda um corpo e, este, tem uma certa relação causal com o sujeito dos meus estados psicológicos.  Assim, o eu, o sujeito dos meus estados mentais, é alguma coisa a mais do que um corpo.

         Enfim, para Nagel a identidade  não pode ser reduzida ao corpo, pois  temos certos estados subjetivos que não podem ser meros atributos de um corpo. Temos uma subjetividade, ou seja,  somos a experiência consciente de um organismo, que sente ser esse organismo. Possuímos sensações, crenças, desejos e um ponto de vista particular que nenhuma análise neorofisiológica poderia revelar. Entende-se assim, que um organismo que esteja ligado a uma situação significativa por percepções, ações, expressões, é mais que um corpo, é uma subjetividade.

        Uma vez definida a noção de subjetividade e mostrado sua importância, mostraremos, a seguir, as relações que ela estabelece com a objetividade.

       Pode se dizer que os fatos fenomenológicos são objetivos, pois uma pessoa pode saber ou afirmar qual é a qualidade da experiência de outra, esta é uma experiência intersubjetiva. Contudo, para Nagel, os fatos objetivos são na verdade subjetivos, pois dependem de um ponto de vista particular. Um marciano inteligente que não compreendesse a percepção visual poderia compreender o arco íris, os raios ou as nuvens, como fenômenos físicos, ainda que não pudessem entender os conceitos humanos do arco íris, dos raios ou das nuvens, e o lugar que essas coisas ocupam no nosso mundo dos fenômenos. Assim, o raio tem um caráter objetivo que não se limita a sua aparência visual, e isto poderia ser investigado por um marciano cego. Aquilo que é redondo para um ser humano poderia ser quadrado para uma marciano inteligente, o quente poderia parecer frio, o visível poderia ser invisível.  A objetividade sempre dependerá de um ponto de vista. Com isso, Nagel acha mais adequado considerar a objetividade como uma “direção em que pode viajar o conhecimento”.

         Com efeito, se uma natureza objetiva pode ser compreendidas de muitos pontos de vista, então como podemos supor que um marciano que investigasse meu cérebro poderia observar os processos físicos, que são meus processos mentais.  Assim, um marciano que investigasse meu cérebro ou observasse os raios ou as nuvens, só poderia observá-los de um ponto de vista diferente. É muito difícil compreender o que pode significar o caráter objetivo de uma experiência separada de um ponto de vista puramente humano Os indivíduos de espécies radicalmente distintas podem compreender os mesmos processos físicos em termos objetivos, mas não é possível admitir que compreendam as formas fenomenológicas como esses processos se apresentam nos sentidos dos membros de outras espécies.

           Devemos reconhecer que uma teoria física da mente não pode explicar o caráter subjetivo de uma experiência e nenhum conceito na atualidade nos indica como poderíamos fazer isso.

Bibliografia 

NAGEL, T. Qué se siente ser murciélago?. In: La muerte en  cuestion: México; 1981, p. 229-255.

NAGEL, T. O fisicalismo. In: Cérebro, máquinas e consciência. Org. Teixeira, J. Edufscar: São Carlos: 1996, p. 119-142. 

Um comentário em “Como é se sentir um morcego: subjetividade e objetividade em Thomas Nagel

  1. acho que com o passar do tempo e o avançar da ciência e da tecnologia física atomica com os estudos aprofundados de partículas e células saímos da condição subjetiva e particular para alcançar a compreensão universal através das experiências evolutivas/construtivas.

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