Omar Kahayyán: como devemos viver a vida

Por Michel Aires de Souza

A vida não é um mar de rosas. A experiência nos mostra que pessoas honestas são perseguidas, que a hipocrisia e a mentira são normas e lei nas relações sociais, que os idiotas e ineptos são engrandecidos e adulados, que ter nascido não é uma graça divina, e que a vida é uma escravidão onde tudo é claustro, frívolo e precário.  Quem pensa assim é Omar Kahayyán, o maior filósofo pessimista da Pérsia, atual Irã.  Nasceu por volta do ano 1080 perto da cidade de Nishapur e veio morrer aos oitenta e cinco anos de idade. Era filósofo, matemático e astrônomo,  preocupado em entender o sentido da vida e o enigma do universo. Apesar de enxergar friamente a vida, tal como ela é, encontrou na poesia, no vinho e nas mulheres a razão do seu viver.  O ocidente o conhece graças as suas poesias. Ele as escrevia despreocupadamente como uma forma de desabafo e de alívio de suas frustrações. Seus poemas foram denominados pela tradição de “Rubaiatas”, plural de Rubaía, cujo significado é quadra, estrofe de quatro versos. São três os motivos de seus rubaiatas: a tristeza de se viver neste mundo; a insensatez dos dogmas da religião; e os prazeres do vinho e da sensualidade.

             Para ele  a vida é sem sentido, sem rumo, sem finalidade; negava o mundo e o concebia como um “cárcere asfixiante”.

Somos joguetes

nas mãos do Destino

Simples brinquedos,

à nossa custa

diverte-se o universo

Joguetes

que vivem redemoinhando

ao sabor dos ventos

Não se trata de metáfora,

nem exagero no que digo:

esta é a realidade

No passado,

ingenuamente brincávamos

no tablado da vida.

Seremos hoje

uns após outros,

carregados

no féretro do não-ser

            Em um de seus poemas,  Omar Khayyán dizia que se tivessem consultado sobre sua vinda a terra,  teria dito não. Sentia-se triste por ter nascido, achava que a vida é um algoz que nos força a aceitar um destino que não escolhemos. Ele nunca aceitou o fato de viver nesse mundo.  Sentia-se perplexo e desajustado, também sentia angustia diante da morte, uma vez que ela nos leva a um “aniquilamento final inexorável.”

        Ele  também criticou as crenças e valores de sua época. Achava impossível ao homem provar a realidade de Deus. Em seus poemas usava a ironia desvelando as contradições dos dogmas religiosos.

O Allah!

semeaste de armadilhas

e eriçaste de pecados

as curvas do meu caminho!

 e depois advertiste:

– Ai de ti se caíres!

Sabemos

que nem um só átomo se esconde

à Tua visão

Em todo o universo

Ora,

se determinaste

que assim se me desdobrasse

o percurso da existência

e se tão meticulosamente

preparaste a minha queda,

Allah!

Por que me chamas

Pecador?

        Apesar de seu extremo pessimismo,  Omár Khayyán cultivava um ideal hedonista de vida.  Incitava seus contemporâneos a renunciar a tudo neste mundo: poder, fama, cargos e dinheiro. Achava que esses desejos só traziam pertubação à alma, eram indícios inexoráveis de infelicidade.

Renúncia a tudo

neste mundo

fortuna, poder, honrarias.

desvia teus passos

de todo caminho

que não te conduza à taberna

nada peças, nem desejes,

senão vinho, canções, música, amor!

Nobre e formoso mancebo,

apanha o odre

e empunha a taça

bebe

mas, cuidado!

não seja frívolo,

não fales em vão

              Para ele,  o afeto, o amor e a compreensão são os alicerces da vida. “A vida é amor e nada mais”.  O mais importante na existência é conquistar o quinhão de ventura no decorrer de cada dia e nos entregarmos a nossa amada com uma taça de vinho nas mãos.   Também dizia,  que devemos ter poucas necessidades. Se diariamente um homem consegue um pedaço de pão e um pouco de água, por que deveria trabalhar para outro? Por que precisa se humilhar diante de um estranho?  Em sua opinião, quanto mais necessidades temos,  mais dores e sofrimentos colhemos para o corpo e para a alma. Dizia que, na vida,  devemos ser livres e tranquilos.

           Ele asseverava que não devemos molestar, não odiar e não causar dano ou prejuízo a ninguém. Temos que idealizar uma vida serena, em quietude suportando risonhos as ofensas e todo horror das calúnias. Também não devemos culpar o destino pelo mal de que padecemos e  não devemos agradecer os céus pelos bens que desfrutamos. Toda fatalidade, alegria ou tristeza que temos surge à revelia. Tudo que ocorre no mundo é contingente.

            Diante das tristezas e percalços da vida aconselhava-nos a beber vinho. O vinho é exaltado e enaltecido em quase a metade de suas poesias. Para ele,  o vinho nos abre as portas da percepção e não nos deixa alheios à vida, fazendo com que satisfaçamos nossos instintos mais primordiais. Assim,  nos liberta da dor, do sofrimento e nos propicia alegria e prazer.

 Bebe vinho dourado

É repouso para o espírito

Bálsamo providencial

Para alma e coração ferido

Se fores assediado

Por um dilúvio de tristeza

Se te vires,

Por todos os lados,

Acometidos de pesares

Agarra-te, sem receio,

Ao delicioso vinho dourado

É o barco da salvação.

         Em toda sua vida Omar Khayyán só encontrou consolo na bebida e nas mulheres. Sentia-se perplexo diante da incógnita da existência, era uma alma torturada em busca da verdade. Não encontrou respostas as suas indagações, sentiu depressão, angústia, desespero e acabou por se resignar. O vinho não era uma fuga ou apenas um simples prazer dos sentidos, muito pelo contrário, era um instrumento de êxtase místico para se atingir a verdade. Uma verdade que ele nunca encontrou.

Bibliografia

khayyán, Omar. Rubáiyiát. São Paulo: Martin Claret, 2005

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