Bourdieu e Jacotot: educação para emancipação intelectual

Por Michel Aires de Souza

Até a primeira metade do século XX, a educação era vista como uma instância de transformação e equalização social, estando ligada a princípios democráticos, mas a partir do livro, “A reprodução: elementos para uma teoria dos sistemas de ensino”, escrito por Bourdieu e Passeron, a educação foi desvelada como uma instância de reprodução social, cujo objetivo é legitimar a cultura e os privilégios da classe dominante. O que esses dois autores descobriram, através de pesquisas quantitativas e qualitativas feitas nos anos 50 nas escolas francesas, foi que o desempenho escolar não era um dom inato, uma qualidade natural ou dádiva de Deus, mas era determinado pela origem social do aluno. Os alunos das classes sociais mais privilegiadas tinham um certo capital cultural, que os diferenciavam dos alunos de classe social mais baixa. O capital cultural pode ser  entendido como um conjunto de conhecimentos, habilidades e competência adquiridos na família ou na escola. Para Bourdieu,  esse conceito foi primordial para compreender as desigualdades de desempenho escolar dos alunos de diferentes classes sociais. As classes mais abastadas, por meio da socialização, ensinariam a seus filhos de forma natural e espontânea um conjunto de referenciais culturais e linguísticos, assim como algumas habilidades, que apenas os indivíduos da classe dominante possuiriam. Esses conhecimentos apreendidos na família não seriam nada mais do que a cultura escolar, que foi reelaborada e sistematizada pela educação.

         As teorias antropológicas têm demonstrado que nenhuma cultura é superior a outra, existe múltiplos caminhos para o desenvolvimento da cultura de um povo. Cada sociedade, dialeticamente,  transforma a natureza a partir de seus instrumentos e o faz de forma particular e criativa. Cada sociedade se desenvolve de modo particular, em parte devido a suas próprias peculiaridades, em parte devido à influência de outros grupos. Dessa forma, cada cultura segue seus próprios caminhos de desenvolvimento. Levando em consideração essas descobertas antropológicas, Bourdieu e Passeron procuraram demonstrar que os valores, preceitos, atitudes, comportamentos e conhecimentos apreendidos na escola seriam, por definição, arbitrários. O mundo simbólico de significados ensinados na escola não está fundamentado em nenhuma razão objetiva, universal. “A cultura consagrada e transmitida pela instituição escolar não seria objetivamente superior a nenhuma outra. O valor que lhe é atribuído seria arbitrário, não estaria fundamentado em nenhuma verdade objetiva inquestionável. Mas, apesar de arbitrária, a cultura escolar seria socialmente reconhecida como a cultura legítima, como a única universalmente válida” (NOGUEIRA- NOGUEIRA, 2007, p.36).

         Para Bourdieu e Passeron, o arbitrário cultural transmitida pela ação pedagógica se expressa como violência simbólica, pois inculcar nos alunos os símbolos e as significações da cultura vigente, reproduzindo as relações de poder, as distinções sociais e as diferenças de classe. “Todo poder de violência simbólica, isto é, todo poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica, a essa relações de força” (BOURDIEU-PASSERON, 1975, p.19)

         A ação pedagógica, através de suas técnicas, seus métodos, e procedimentos,  ignora as desigualdades culturais das crianças. A ação pedagógica é, portanto, ação arbitrária da cultura dominante, que impõe seus valores, seus preceitos, suas formas de pensar e sua cultura as classes dominadas. Nogueira e Nogueira explica-nos que,  “uma vez reconhecida como legítima, ou seja, como portadora de um discurso universal (não arbitrário) e socialmente neutro, a escola, na perspectiva bourdieusiana, passa a exercer, livre de qualquer suspeita, suas funções de reprodução e legitimação das desigualdades sociais.” ((NOGUEIRA- NOGUEIRA, 2007, p.38).

           O grande objetivo da ação pedagógica para Bourdieu e Passeron é inculcar um habitus de classe. O habitus é um conjunto de disposições duradouras para a ação, que são interiorizadas pelas práticas sociais, são estruturas sociais incorporadas, que orientam os sentimentos, os desejos e a conduta dos indivíduos. Segundo Catani, “o habitus, constituído por um conjunto de disposições para a ação, é a história incorporada, inscrita no cérebro e também no corpo, nos gestos, nos modos de falar ou em tudo o que somos. É essa história incorporada que funciona como princípio gerador do que fazemos ou das respostas que damos à realidade e na realidade social (CATANI, 2007, p. 20).

          A ação pedagógica é, portanto, um trabalho de inculcação dos valores, preceitos, modos de ser, pensar e agir socialmente valorizados. Ela se fundamenta “como trabalho de inculcação que deve durar o bastante para produzir uma formação durável; isto é, um habitus como produto da interiorização dos princípios de um arbitrário cultural capaz de perpetuar-se após a cessação da ação pedagógica” (BOURDIEU-PASSERON, 1975, p.44). A partir disso, a escola torna-se uma instância de conservação das formas de domínio social. A cultura dominante é interiorizada nos alunos de modo natural como se fosse uma cultura universal, neutra e essencial para os indivíduos.

Apesar desse diagnóstico pessimista, o conhecimento continua sendo o único caminho para a autonomia, a consciência crítica e a emancipação intelectual. É possível a emancipação daqueles desprovidos de capital cultural. As pessoas “ignorantes”, apesar de ignorarem  muitas coisas, também sabem uma infinidade de coisas. Esse é o princípio da filosofia da educação de Joseph Jacotot. Jocotot foi  um pedagogo que viveu no século XVIII na França e se tornou conhecido por ter criado o método de emancipação intelectual. Para ele,  o conhecimento é o único caminho para a emancipação intelectual. Seu método parte de quatro princípios: o primeiro afirma que todos os homens têm igual inteligência; o segundo, que cada homem recebeu de Deus a faculdade de aprender sozinho; o terceiro, que podemos ensinar o que não sabemos; o último, tudo está em tudo. Na avaliação de Jacotot, o conhecimento não é uma dádiva que somente alguns privilegiados têm direito, todos podem adquirir, ele é democrático. O desejo de aprender é seu requisito. Por isso, ele denominou seu método de educação universal. “Esse método da igualdade era, antes de mais nada, um método da vontade. Podia-se aprender sozinho, e sem mestre explicador, quando se queria, pela tensão do próprio desejo ou pelas contingências da situação.” (RANCIÈRE, 2002, p. 30).

         Jacotot construiu seu método a partir de uma experiência inusitada, foi obrigado a dar aulas de Francês para uma turma de alunos que falavam Holandês. Ele não sabia falar o Holandês e os alunos não sabiam falar Francês. Com isso, sugeriu aos alunos, com a ajuda de um tradutor, que lessem o livro Telêmaco numa versão bilíngue. Para sua surpresa,  os alunos foram capazes de apreender sozinhos o Francês e discutir o livro com o professor. Sua grande descoberta,portanto, foi o de que qualquer pessoa pode aprender sozinho e que o professor pode ensinar mesmo que seja ignorante em um determinado assunto.

           A grande diferença das ideias de Jacotot em relação a um sistema escolar de massa é que o método de ensinar não se dá mais pela explicação, o professor transmite seus conhecimentos e verifica se o aluno entendeu. O modelo pedagógico tradicional parte do princípio de que o professor é o detentor e o transmissor do conhecimento. Ele é considerado um ser onipotente, que possui o saber e o aluno uma tabula rasa desprovido de qualquer conteúdo. Para Jacotot,  esse método leva ao embrutecimento e a estupidez. Em contraposição a isso, ele propõe seu método de emancipação intelectual. Ele parte do pressuposto que todos os alunos são iguais. A igualdade não é um objetivo a ser alcançado, mas é o meio para se aprender. Todos possuem uma bagagem cultural e intelectual antes da educação acontecer formalmente. É a partir desse saber que o mestre deve partir. Ele deve ser apenas um mediador da aprendizagem, um facilitador. Segundo Racière (2003), o mestre ignorante não é aquele que ignora o que o aluno deve aprender, mas que “ignora a desigualdade”.

           Na educação de massa a desigualdade é um pressuposto, o saber é o caminho para resolver o problema da desigualdade. “A educação é um instrumento de equalização social” (SAVIANI, 1987, p. 5).  Contudo,  como vimos, o pensamento de Bourdieu considera que as desigualdades sociais são reproduzidas como desigualdades escolares. “A escola agrava, por assim dizer, as desigualdades que têm origem nas posições ocupadas pelos indivíduos no espaço social, ela o faz, justamente por privilegiar a cultura dominante, ao valorizar relações com o conhecimento associados aos padrões de elite, ao construir e favorecer modos de avaliação cujos critérios também repousam sobre distinções sociais” (CATANI, 2007, p.17)

             Jacotot, como afirma Rancière em uma entrevista, procura dissolver essa tese sociológica da reprodução. Por isso,  concebe o saber como Ensino Universal, uma vez que preconiza uma aprendizagem para todos, onde todos são iguais. Ele compara o paradigma de Jacotot ao modelo de professor do establishment, cujo maior exemplo é Sócrates, o pai do racionalismo ocidental. Para Rancière, Sócrates é o modelo de professor autoritário. “(…) Jacotot vai ao sentido de mostrar que a figura de Sócrates não é a do emancipador, mas a do embrutecedor por excelência, que organiza uma mise-en-scène em que o aluno deve se confrontar às lacunas e aporias de seu próprio discurso: Jacotot mostra que nisso consiste, exatamente, o método mais embrutecedor – entendendo-se por embrutecedor o método que provoca no pensamento daquele que fala o sentimento de sua própria incapacidade. No fundo, o embrutecimento é a marca do método que faz alguém falar para concluir que o que diz é inconsistente e que ele jamais o teria sabido, se alguém não lhe houvera indicado o caminho de demonstrar a si mesmo sua própria insignificância”. (VERMEREN et al, 2003)

              Para Rancière, o método de Sócrates permanece em todo parte, é o modelo de pedagogia liberal. É o tipo de educação que Paulo Freire denominou de educação bancária. Esse entendia que a educação burguesa visava à mera transmissão passiva de conteúdos a partir do professor, que tudo sabe e o aluno como aquele que nada sabe. Cabia ao professor, portanto, depositar seu saber no aluno, assim como o cliente deposita seu dinheiro no banco. Jacotot inverteu essa lógica. Não se trata mais de um professor que sujeita o aluno a sua vontade, se abole a relação de autoridade, de poder e de desigualdade. Agora a relação é de inteligência para inteligência. É só a partir desse método que as desigualdades se dissolvem e o aluno pode se sentir confiante e livre para aprender.

        Com Jacotot o aluno assume um novo papel histórico, não deve mais memorizar conteúdos ou apenas assimilar o que o professor ensinou, mas deve ser um indivíduo ativo, buscando ser o protagonista de seu próprio conhecimento. A construção dos conhecimentos só ocorre a partir de um sujeito ativo, que produz sua identidade, sua inteligência, sua autonomia de modo dialógico, onde os indivíduos se eduquem em comunhão, mediatizados pela cultura, na própria realidade em que vivem. Dessa forma, os indivíduos tornam-se produtores do conhecimento, e não meros reprodutores do saber. O grande objetivo da educação, portanto,  deve ser o protagonismo dos alunos.  O papel do professor é levá-los a descobrir, analisar, refletir, argumentar, debater e constatar. O essencial estimular a autoaprendizagem e o autoconhecimento, partindo do princípio que cada aluno não é uma tabula rasa, mas possui certos conhecimentos prévios que devem ser o ponto de partida para a aprendizagem. É necessário respeitar as características de cada um, pois tudo o que a criança já sabe e entende faz mais sentido para ela.

Bibliografia

BOURDIEU, P e PASSERON, J.C. A Reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.

CATANI, Denise. B. A educação como ela é. Revista Educação, São Paulo, vol. 5, Especial: Biblioteca do Professor,  Bordieu pensa a Educação, p.16-25, set. 2007

NOGUEIRA, M.A. e NOGUEIRA, C.M.M. Um arbitrário cultural dominante.  Revista Educação, São Paulo, vol. 5, Especial: Biblioteca do Professor,  Bordieu pensa a Educação, p.36-45, set. 2007.

VERMEREN, P; CORNU, L; BENVENUTO, A.  Atualidade de O mestre ignorante, Educação e Sociedade, vol. 24, n. 82, Campinas, abril, 2003, p.185-202, disponível em <http://www.scielo.br/pdf/es/v24n82/a09v24n82.pdf > acesso em 29 de julho de 2012.

RANCIÈRE, J. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Trad. Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

SAVIANI, Demerval.  Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. São Paulo: Cortez, 1987.

11 comentários em “Bourdieu e Jacotot: educação para emancipação intelectual

  1. Sou educador e trabalho em uma escola particular, concordo com o texto ele foi muito bem escrito e com argumentação incontestável….

  2. Que texto maravilhoso pois traz uma realidade pouco admiitida justamente por mexer com o dominante ou o poder.

  3. Ótimo texto caro Michel, fazendo uma paralelo entre teses de educação de Bourdieu e sua escola conservadora e Jacotot e seu modelo emancipador. Mas é um grande desafio para os professores e educadores se adequarem a esse modelo de igualdade, conforme comenta Lilian do Valle…

    1. Olá Fernando,

      O grande objetivo da educação deve ser o protagonismo dos alunos. O professor é apenas um mediador, que deve guiar o aluno na busca do conhecimento. O papel do professor é levá-lo a descobrir, analisar, refletir, argumentar, debater e constatar. O essencial estimular a autoaprendizagem e o autoconhecimento, partindo do princípio que cada aluno não é uma tabula rasa, mas possui certos conhecimentos prévios que devem ser o ponto de partida para a aprendizagem. É necessário respeitar as características de cada um, pois tudo o que a criança já sabe e entende faz mais sentido para ela. Obrigado por sua pergunta, vou esclarecer melhor esse ponto no texto.

      Abraços
      Michel

  4. Michel, estou impressionado com o conteúdo tratado nos seus blogs em temas polêmicos. São muito bem escritos e com profundidade que merecem ser pesquisados como meio de enriquecimento cultural. Sou formado em Filosofia pela PUC-Camp. Sou diretor de Escola, e você nem imagina o quanto os seus esclarecimentos ajudam na compreensão conceitual de inúmeras situações. Parabéns pelo serviço que presta a educação. Abraços Tarcisio

    1. Obrigado Tarcisio, fico feliz por ter gostado dos meus textos. A minha intenção é justamente contribuir com pouco que tenho para a educação e para a formação das pessoas. São textos introdutórios, mas que pretendem esclarecer conceitos e problemas fundamentais nas áreas de filosofia, sociologia e educação.

      Abraços
      Michel

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