Entropia e Pós-Modernidade: o mundo em que vivemos.

Por Michel Aires de Souza

Pollock

      Há um princípio da termodinâmica, a entropia,  que postula uma tendência para a desorganização das moléculas em um dado sistema. Quanto maior a temperatura, maior é a desorganização das partículas. Quanto maior a desorganização das partículas, maior é a entropia. Contudo, o nosso objetivo aqui não é especular sobre a termodinâmica.  O que buscamos refletir é sobre a experiência pós-moderna. Desse modo,  o conceito de entropia serve-nos para pensarmos essa  experiência de luta e contradição, desintegração e mudança,  vazia de sentido e finalidade. O que podemos notar em nossa atualidade é uma tendência universal em todas as esferas da vida social para a disfunção,  para a anomia. Os vários sistema sociais como a política, a economia, a cultura, o meio ambiente, a família passam por um processo de ordem para um estado de desordem crescente.

         O capitalismo é esse processo de produção e reprodução material e espiritual que gera relações, processos e estruturas de dominação, antagonismo, conflito e integração, que num primeiro momento se organizou em moldes nacionais, e que paulatinamente   foi se mundializando e tornando-se global.  A consequência disso,  foi a criação de uma sociedade fundamentada no consumo exacerbado, na destruição dos recursos naturais, na subjugação e escravização dos seres humanos,  gerando a barbárie e a regressão social.

     A mais contundente demonstração desse processo de desintegração e mudança na experiência moderna é a dissolução da família.  Aquele casamento formal, de um casal com filhos, que durava toda vida, cujo chefe de família era o homem,  começou a se desintegrar. As mudanças que aconteceram foram mundiais. Hobsbawn (2001), em seu livro “Era dos extremos: o breve século XX” , nos mostra vários dados a este respeito. Na Inglaterra e no País de Gales,  existia em 1938 um divórcio para cada 58 casamentos. Já nos anos 80,   existia um divórcio para cada 2,2 casamentos. Nos países fortemente católicos,  como Bélgica, França e Países Baixos,  entre as décadas de 70 e 80,  o número anual de divórcios por mil habitantes triplicou.   Após a década de 60,  o parto de mães solteiras também começou a se multiplicar. Na Suécia dos anos 80,  metade dos partos eram de mães solteiras. Nos Estados Unidos, em 1991,  quase 70% de todas as crianças negras eram de mães solteiras.

       Outro dado apontado por Hobsbawn (2001),  é a quantidade de pessoas vivendo sós. No começo do século  até o final da década de 50,  existiam apenas 6% de pessoas vivendo sós na Inglaterra, mas nos anos 60  já eram quase 22%. Nas grandes cidades do ocidente,como Paris, Berlin, Londres,  metade das casas eram de pessoas sozinhas.  Já o número de casas com casal e filhos estava cada vez mais se retraindo. Nos Estados Unidos, entre as décadas de 60 e 80, essas famílias caíram de 44%  para 29% de todas as casas.

      Em nossa atualidade,  a família como formadora da individualidade se fragmentou. Os laços familiares se tornaram frágeis por causa das exigências do mundo exterior. A família não constitui mais um núcleo fixo de produção da individualidade. Os jovens  de hoje, em muitos casos, não têm mais o convívio do pai ou da mãe,  esses precisam trabalhar para poderem  sobreviver. Hoje a formação dos jovens acontece de maneiras variadas e contraditórias. A socialização se constitui  em contextos sociais múltiplos. Os valores aprendidos da família são confrontados com outros valores, como os da escola, de grupos de amigos ou da mídia. O casamento, a moral, a religião não possuem mais sentidos universais fundamentado na tradição, os valores se relativizaram. Aquilo que denominamos  tradição parece não mais existir.  Vivemos numa época onde as instituições e os códigos sociais e morais não podem mais determinar os modos de existência. Não há mais grupos de referências, que poderiam servir de modelos para a vida dos indivíduos.

      Outro aspecto da disfunção em nosso mundo pós-moderno é o trabalho. Hoje vivemos na era da acumulação flexível. A partir da década de 70, as empresas entraram em em um novo ciclo de reestruturação produtiva. Naquela época surgiu um período de racionalização e maior controle do trabalho. Foi o começo da  automação, intensificação tecnológica,  criação de novos produtos para novos mercados,  fusão de empresas, terceirização e  mudanças de grandes indústrias para países com mão de obra abundante e barata. Harvey (1993) chamou essa nova reestruturação do capital de “acumulação flexível”. É flexível, pois,  “se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional” (HARVEY, 1993, p. 140).

      A principal consequência da reestruturação produtiva foi a desregulamentação do mercado de trabalho, que era rígido e protegido pelo Estado de bem estar social (Welfare State). A desregulamentação criou o desemprego em massa,  o trabalho informal e as relações precárias de emprego. Surgiu o trabalho temporário, a jornada parcial, o trabalho terceirizado e a subcontratação. Os indivíduos não permanecem no mesmo emprego o resto da vida como antigamente. Durante uma vida é possível mudar de emprego mais de vinte vezes. As novas exigências no mundo do trabalho não só diminuíram o poder de reivindicação dos trabalhadores, mas também desestruturou famílias, produziu insegurança, e ainda hoje tem gerado problemas sociais, como miséria, fome e violência.  Hoje experimentamos uma realidade de curto prazo, onde a vida perdeu sua linearidade costumas. Nesse sentido,  Sennet (2009) afirma que o capitalismo afetaria o caráter pessoal dos indivíduos, uma vez que a vida não  possui mais uma narrativa linear.

       O padrão de acumulação flexível  também ajudou a criar a sociedade do consumo em que vivemos.  Vivemos uma época marcada pela supremacia dos objetos, uma época em que as relações sociais são mediadas pelas mercadorias, uma época em que se é aquilo que se consome. Nunca se consumiu tanto como hoje. Os objetos tornaram-se misticos, transcendentes,  mágicos,  possuem certos poderes de significação que servem de diferenciação simbólica, gratificação individual, atribuição de status e pertencimento. Vivemos numa realidade em que Lipovetskky denominou-a de mundo do efêmero, o reino da frivolidade, das novidades e da fantasia.  Hoje se desenvolve, se produz e se distribui objetos obsoletos, descartáveis e não funcionais,   procurando garantir o consumo constante e programado cada vez mais  de produtos de baixa durabilidade. O capitalismo vive hoje da obsolescência programada. A grande consequência disso  é a depredação e a degradação do meio ambiente.

        Na natureza existem dois tipos de sistemas básicos.  Existem sistemas abertos, onde a troca de energia e matéria é constante com o meio ambiente, e há sistemas fechados , onde só existem trocas de energia com o mundo exterior.   Em todos esses sistemas nota-se um grau de desordem cada vez maior.  Essas disfunções estão ocorrendo porque os recursos naturais estão sendo consumido a tal ponto,  que o futuro do planeta terra, como um sistema fechado,  pode estar em cheque.  Os  países mais ricos como Estados Unidos e a Europa, segundo o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas,  consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da produção de madeira. Somente os EUA emitem 35% dos gases poluentes no mundo. Nos próximos 20 anos a temperatura deve crescer 0,4 graus. Até 2100 o planeta deve aquecer 2,9 °C.  Segundo estimativas,  o aumento do nível do mar deve ser de 38 centímetros. Os oceanos já subiram 17 centímetros no último século.

         O relatório do IPCC prevê que o aquecimento global causará a falta de água em todo o planeta.    Nas regiões da Ásia e da África, até 2020, 250 milhões de pessoas sentirão essa escassez. O derretimento das geleiras, no pólo sul e norte, causarão inundações; muitas ilhas e cidades costeiras desaparecerão.  O aumento da acidez da água, devido ao dióxido de carbono, deve diminuir a oferta de peixes.  20% a 40% das espécies vegetais e animais serão extintas.  As florestas podem ser substituídas por savanas. Parte da Floresta Amazônica pode tornar-se cerrado. Os lençóis freáticos e os açudes não existirão mais. As doenças endêmicas, como cólera e Tifo, decorrentes de inundações,  serão comuns. Atualmente 2 bilhões de pessoas sofrem com a falta de água potável, as previsões afirmam que daqui 20 anos serão 4 bilhões de pessoas.

     O aquecimento global demonstra que o crescimento da população no mundo juntamente com o consumo exacerbado são incompatíveis com o meio ambiente. Os recursos naturais do planeta terra serão consumidos em poucos séculos.  Os milhões de toneladas de carbono, que a natureza tirou de circulação, armazenadas como petróleo ou biomassa nas matas, são jogadas novamente pela ação humana na atmosfera em poucas horas, na forma de CO2, tudo isso por causa do consumismo. Ao aumentar a concentração desses gases,  o homem amplia o efeito estufa, o que provoca o aquecimento global.

         Shakespeare já se referia ao mundo moderno como uma “época terrível,  onde idiotas dirigem cegos”. A grande parte dos homens são  impedidos  de entender como as instituições do capitalismo estão destruindo a vida na terra e também são impedidos de fazer uma reelaboração crítica de sua existência.  A ação do indivíduo, sua experiência, sua identidade estão integradas ao meio social.  As relações de dominação os  impedem de terem uma visão mais ampla do mundo,  assim como uma experiência autêntica da vida. O mercado, como um grande Leviatã, os rouba o pensamento e a  autonomia.  A ação torna-se  um meio racional para se determinar num mercado onde o dinheiro, a labuta  e a concorrência são lógicas de integração social.  Desse modo, a subjetividade percebe o mundo como obstáculo à plena realização de sua individualidade.

      Hoje os indivíduos são incapazes de perceber a barbárie, a regressão social e a degradação do nosso mundo.  A capacidade de criar representações  foi tomada pela indústria cultural. A realidade surge como engenharia, como um construto, como falsa consciência.  A realidade da labuta, as diferenças de classe, a fealdade, a miséria, a destruição da natureza são apagadas e, em seu lugar, a indústria cultural apresenta um mundo onde  o particular se concilia com o universal.  O ocultamento do real, a modificação da notícia, as determinações no conteúdo da informação, a possibilidade de resolver todos os problemas através do esforço individual,  a ilusão no lugar da realidade são apresentadas de forma cínica e natural. Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural cria o modelo ideal  de família, de saúde, de bom comportamento, de bom trabalhador, de boa dona de casa, do bom marido. Ela cria uma falsa imagem do que seja a realidade.

     No mundo em que vivemos as escolhas já estão pré-definidas. As condições para a felicidade já estão dadas. A felicidade se encontra no mercado. O indivíduo através das relações reificadas é impedido de ser sujeito. Com isso, a alienação surge da  incapacidade do indivíduo ser dono de sua própria existência,  de determinar sua própria vida.     Os homens alienados e reificados  aceitam sua escravidão de forma pacífica e democrática. Não se dão conta que são vítimas de um sistema que tem a função de manter as formas prevalecentes de domínio social. O trabalho estafante,  o consumo desenfreado,  os entretenimentos, as mercadorias, as promessas de uma vida melhor, a busca do reconhecimento simbólico são o apanágio de um mundo que reproduz  o capital através da perpetuação da falsa consciência.  Para que esse mundo seja  possível impediu-se a consciência sobre a exploração, a alienação e a realidade. Dessa forma,  os  entretenimentos da sociedade, os misticismos de todos os tipos e a manipulação da consciência pela indústria cultural foram necessários para a coesão social.

Bibliografia

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de janeiro: Jorge Zarhar, 1986.

ADORNO, Theodor. Televisão e Formação. In: Educação e Emancipação. Rio de janeiro, Paz e terra, 1995.

LIPOVETSKY, Guilles. O Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 HARVEY, David. Do Fordismo à Acumulação Flexível. In:  A condição pósmoderna. São Paulo: Loyola, 1993, p. 135-176.

HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das letras, 2001.

SENNET, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

 FRANÇA, Martha. S. J. Chapa Quente. In: Dossiê do Aquecimento Global. Caderno Atualidade Vestibular. Disponível em < http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/conteudo_262600.shtml?func=2> acesso em 20 de Novembro de 2012.

15 comentários em “Entropia e Pós-Modernidade: o mundo em que vivemos.

  1. Muito bom o texto e autores maravilhosos para nos falar do tempo histórico atual e as consequencia para o sujeito.

  2. O desafio pós-moderno é encontrar caminhos, não diria seguros, mas caminhos necessários para uma evolução e um crescimento de novas forças, pois valores tradicionais não vão morrer ou desaparecer, mas necessariamente vão se transformar, ai surge a questão: “estamos preparados para transformar nossos valores?”

  3. Gostei muito do texto e o mais engraçado que a minha curiosidade sobre o assunto veio com a leitura de um livro “leve”: O chá – de – bebê de Becky Bloom. A escritora Sophie Kinsella, para quem não leu, tem como formação acadêmica o jornalismo, com especialização na área financeira. Seus trabalhos abordam a questão de consumo exagerado, fútil de forma agradável, divertida.

  4. Eu creio que quanto aos “valores”.São a decorrência de uma base que sempre foi mal formada..O que existia antes sempre foi um hipocrisia social.Desde os tempos do domínio da igreja onde se regia o que era certo ou errado.Ou se matava me nome de deus.Estes foram os valores herdados daquela época.E se não houvesse uma modificação ainda continuaríamos com estes mesmos “valores”.O que vejo hoje é a saturação em decorrência de uma humanidade que não pensa e não reflete.A reflexão nunca sera inimiga do ser humano.SE não se questiona sobre suas atitudes seja agora ou de antes seja das suas crenças não se pode descobrir as variantes.Não pode existir um ser humano “robô”.O que vejo hoje é apenas o destroçar das mascaras que antes alimentamos como principio de igualdade que nunca existiu. O trabalho nunca foi prazeroso nem humano.A instabilidade no trabalho nunca garantiu uma vida consciente. Embora possa ter existido em um certo período uma grande oferta de emprego em determinadas épocas que garantiu uma temporária estabilidade já se havia “profecias” sobre as épocas atuais

    A estabilidade da Grécia era regida pela escravatura tanto que Aristóteles defendia a escravatura como meio da sobrevivência do sistema vigente.

    As mutações ou degradações são apenas a consequências das evoluções de um sistema que sempre se encontrou decadente. Dizer que antes eramos mais conscientes que hoje é não verificar todos os fatos da época.

    Embora se por uma lado a obrigatoriedade do regime de certas épocas facilitassem certas conveniências sociais por outro não se havia uma ideia real do que a bolha o capitalismo estaria alimentado para as próximas décadas.

    1. Olá Cesários,

      Obrigado pelo comentário, desculpe-me pelo senso comum. Acho que todo filósofo deveria conhecer física e todo físico filosofia. O que denominamos desordem das partículas na verdade é uma tendência de todo sistema fechado voltar ao equilíbrio? É isso?

      Abraços
      Michel

      1. eu penso assim; e ai do mundo se não fosse assim!… viveríamos estagnados, dando voltas em torno do nosso próprio umbigo.
        abraço

  5. Gostei muito do texto.Acho que o momento atual requer de nós reflexão pois estamos em um terreno escorregadio,ou seja,estamos inseguros quanto às mudanças atuais na sociedade.Elas realmente existem e de uma coisa talvez tenhamos certeza:Teremos que aprender a nos organizar num mundo onde o novo e o velho caminham juntos e misturados o que talvez para nossa mentalidade ainda pareça uma desorganização inviável mas creio que a tendencia seja a descoberta de um caminho para o equilibrio.

  6. Excelente para entender o que estamos vendo nas ruas hoje. Manifestaçoes de pessoas em busca de uma identidade, de uma legitimidade, de uma verdade que seja sua. Da verdadeira democracia. Aqueles jovens que estao ao mesmo tempo reinvindicando de um jeito mundano falando suas angustias, estao apedrejando e quebrando essa supremacia do descartavel, coisas que representam o ambiente opressor.
    Muito atual, o efeito entropia esta latente nesse processo que as manifestaçoes nos apresentam, o que o professor pensa a respeito?

    1. Olá Tulio,

      Obrigado por seu comentário. Eu escrevi sobre as manifestações no meu último texto, “A rebelião das massas”, lá eu expresso minha opinião.

      Abraços
      Michel

  7. Não entendi: você é o profeta do apocalipse da direita ou da esquerda? Seu texto reflete o senso comum dos dois lados (conservadoriamo nas relações humanas, da direita e crítica exacerbada ao capitalismo, da esquerda. Sinceramente acho que seu texto não cataliza a biobliografia que apresentou.

    1. Olá José,

      Não há nenhum conservadorismo em relação as relações humanas. O que se pretende demonstrar é que a pós-modernidade se caracteriza por um estado de “anomia”, ou seja, uma falta de normas e regras devido as grandes transformações que ocorreram no mundo moderno: a família se fragmentou, o trabalho se fragmentou, a violência aumentou devido a crise dos valores. O mundo pós-moderno se caracteriza pela perda de sentido e relativização dos valores. Como afirma a tese central do texto, “o que podemos notar em nossa atualidade é uma tendência universal em todas as esferas da vida social para a disfunção, para a anomia.”

      abraços
      Michel

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