O advento do mundo do trabalho e a perda da identidade do trabalhador

Por Michel Aires de Souza

...homens mecânicos, com cabeças mecânicas e corações mecânicos!
…homens mecânicos, com cabeças mecânicas e corações mecânicos!

O  mundo era totalmente desconhecido e rural para a maior parte da população da Europa no final do século XVIII.  Nessa época a vida era pacata e as pessoas viviam e morriam no local onde nasciam.  Elas não sabiam ler e as notícias do mundo vinham através de viajantes itinerantes ou de mercadores e mascates.  Os poucos jornais só serviam as classes média e alta. Os transportes de mercadorias eram feito por mulas ou em carruagens. As maiores cidades daquela época eram do tamanho da cidade de Campinas ou Sorocaba em São Paulo.  Londres tinha aproximadamente um milhão de habitantes e Paris tinha meio milhão. A outras grandes cidades tinham no máximo cem mil habitantes e no total não somavam vinte por toda a Europa. A quase totalidade da população urbana morava em pequenas cidades de províncias onde viviam aproximadamente cinco mil habitantes e no máximo 20 mil. Essas pequenas cidades tinham uma praça central com uma catedral, eram rodeadas por edifícios públicos e casas de pessoas importantes. Essas províncias estavam ligadas as atividades e economia do campo.  A classe média era formada por proprietários de terra, negociantes de trigo e gado, assim como advogados e tabeliões a serviço da nobreza e empresários mercantis. No alto escalão estavam os representantes do governo: os nobres e a igreja.  Do outro lado da pirâmide estavam os artesãos que forneciam os bens necessários aos cidadãos e os camponeses que sustentavam toda província. Segundo Hobsbawn, “o problema agrário era (…) o fundamental no ano de 1789, e é fácil compreender por que a primeira escola sistematizada de economia do continente, os fisiocratas franceses, tomara como verdade o fato de que a terra, e o aluguel da terra, era a única fonte de renda liquida. E o ponto crucial do problema agrário era a relação entre os que cultivavam a terra e os que a possuíam, os que produziam sua riqueza e os que acumulavam” (HOBSBAWM, 1998, p.29).

       O historiador Inglês Hobsbawn  (1998)  mostra-nos em seu livro,  “A era das revoluções: 1789-1848″, que no final do século XVIII o trabalho agrário na Europa ocidental era bastante diferente de outras partes do mundo. Se na América o lavrador típico era o índio que trabalha à força ou o negro que trabalhava escravizado, por todo o leste da Europa até a Ásia a condição do trabalhador não era diferente. O típico lavrador era um servo, que trabalhava forçado por quase toda semana na terra do senhor ou em outras obrigações. Sua servidão não deixava de ser uma forma de escravidão. Mas isso era muito diferente na Europa ocidental onde o camponês típico tinha perdido muito de sua condição de servo. A propriedade típica já não significava mais uma propriedade de “iniciativa econômica”, mas um sistema de “cobranças de aluguéis” e de outros rendimentos monetários. O arrendatário das terras pagava aluguel ao senhor ou uma quota da safra.  Nessa época a Inglaterra não aparece mais como uma agricultura camponesa, mas sim como uma classe de empresários agrícolas e como uma grande massa de proletariado rural. Mas este acontecimento só foi possível, pois o desenvolvimento agrário rumou, ao contrário de outros países da Europa, para uma agricultura puramente capitalista. Lá a propriedade era totalmente concentrada, mas o agricultor típico era o arrendatário, que tinha um empreendimento comercial médio, operando com trabalhadores contratados.

        Se por toda Europa a vida no campo caminhava devagar, as grandes cidades cresciam a passos largos. As descobertas tecnológicas, o aumento das manufaturas e o desenvolvimento de novos produtos cresciam rapidamente em volume e capacidade, principalmente devido à acumulação de capital nas mãos dos mercadores. Mas esse acumulo só foi possível “porque a principal forma de expandir a produção industrial era o chamado sistema doméstico ou de bota fora, no qual o mercador comprava os produtos dos artesãos ou de tempo de trabalho não agrícola do campesinato, para vendê-los num mercado mais amplo. O simples crescimento deste comércio inevitavelmente criou condições rudimentares para um precoce capitalismo industrial” (HOBSBAWN, 1998, p. 36).

           No sistema de produção doméstica o trabalhador era pago por artigo produzido. Trabalhava em casa, com prazos fixados e deviam seguir um cronograma, sendo renumerados por tarefas.   Neste processo o negociante começou a comandar sua atividade, começou a lhe fornecer a matéria prima, assim como equipamentos para produzir. A partir disso, surgiu a especialização dos processos e atividades, dividindo o oficio, e criando uma grande quantidade de trabalhadores semiqualificados.

           O que se tornou imperativo para o advento do capitalismo industrial foi a figura do homem de negócios. Ele significou um elemento importante no processo de produção artesanal. O artesão cada vez mais ficou dependente dessa figura, pois dependia dele o escoamento dos produtos para o mercado. “Isso ocorre porque os produtores diretos, embora dominassem o processo de trabalho, se viram obrigados a depender da figura do negociante para que a sua produção se efetivasse, uma vez que a eles estava vetado o acesso ao mercado, tanto para a obtenção de matérias-primas indispensáveis para a produção como para a comercialização de seus produtos” ( DECCA, 1990, p.20).

             No século XVIII na Inglaterra o homem de negócios havia enriquecido muito através das atividades comerciais durante os séculos XVI e XVII, já dominava os grandes latifúndios dos campos, o comércio das cidades, as atividades marítimas e empregavam milhares de artesãos que trabalhavam no sistema de produção doméstica. Com sua riqueza esses homens não se contentaram apenas em controlar a atividade do artesão, mas sentiram a necessidade de aumentar a produtividade e ter um maior controle e comercialização de toda a produção. Para isso, reuniram ferramentas e trabalhadores e tiveram a idéia de organizar a produção num único lugar. A fábrica que já existia no campo, passou a ser uma realidade comum nas cidades. Com a fábrica o sistema de produção doméstico começou a ser substituído e em seu lugar instaura-se o sistema fabril. Impôs-se a divisão social do trabalho e da produção. O trabalho assalariado começou a se generalizar e o mercado de consumo começou a se expandir.

        O controle da produção que estava nas mãos dos trabalhadores ao passar para as mãos do capitalista não significou uma evolução no âmbito das técnicas ou das tecnologias de produção. “O que estava em jogo era justamente o alargamento do controle e do poder por parte do capitalista sobre o conjunto de trabalhadores que ainda detinham os conhecimentos técnicos e impunham a dinâmica do processo produtivo” (DECCA, 1990, p.22).  A grande consequência disso foi a perda da autonomia do trabalhador. O artesão livre, que produzia livremente se reconhecendo e podendo ser reconhecido em sua atividade e em suas obras perdeu sua autonomia. Foi o que Marx chamou de trabalho alienado. O trabalhador perdeu totalmente o controle do processo produtivo assim como a posse do produto final. Ele tornou-se apenas uma mercadoria e começou a vender sua força de trabalho para um patrão submetendo-se a um trabalho repetitivo e mecânico no interior da fábrica.

          A revolução industrial teve origem na Inglaterra no final do século XVIII e se caracterizou pela mecanização das forças produtivas e pelo advento do trabalho assalariado. Com o desenvolvimento de novas tecnologias e das maquinofaturas o capitalismo manufatureiro começou a dar lugar ao capitalismo industrial. O trabalho manual que era feito com o auxílio de ferramentas foi substituído pela máquina, cujo movimento era determinado pela força hidráulica e, posteriormente, pela energia a vapor.  O trabalhador deixou de ser o produtor, e passou a ser aquele que regula, aciona, carrega e descarrega a máquina. Ele perdeu sua liberdade e autonomia e começou a seguir o ritmo das máquinas com certa regularidade, rotina e monotonia. “De qualquer forma, essa transformação crucial, quer a localizemos na passagem da ferramenta da mão humana para um mecanismo, quer na adaptação do implemento a uma nova fonte de energia, transformou radicalmente o processo de produção. Ela  não só exigiu que os trabalhadores  se concentrassem num só lugar de trabalho, a fábrica (…), como impôs ao processo de produção um caráter coletivo, como a atividade de uma equipe meio mecânica e meio humana. Uma característica desse processo de equipe foi a extensão da divisão do trabalho a um grau de complexidade jamais testemunhadas, e sua extensão, além disso, a um grau inimaginável dentro do que constituía – tanto funcional quanto geograficamente -, uma unidade ou equipe de produção (DOBB, 1983, p.32).

        Se de um lado a mecanização da produção e a divisão social do trabalho aumentaram os lucros do capitalista, por outro lado a grande massa de trabalhadores foi submetida à exploração e à miséria, levando homens, mulheres e crianças a um trabalho dramático e desumano.  O trabalho naquela época era extenuante, de 14 a 16 horas por dia, sem direito a descanso e apenas alguns minutos para almoçar. A base da alimentação era batatas cozidas com um pouco de bacon, acompanhado por um pão de aveia. Não foi a toa que Van Gogh pintou os “Comedores de Batatas” em suas características rudes, num ambiente expressivo pintado em tons escuros, demonstrando a pobreza e infelicidade daqueles trabalhadores.

          As mais sérias consequências da revolução industrial foram sociais: “a transição da nova economia criou a miséria e o descontentamento, os ingredientes da revolução social. E, de fato, a revolução social eclodiu na forma de levantes espontâneo dos trabalhadores da indústria e das populações pobres das cidades (…). Os trabalhadores de espírito simples reagiram ao novo sistema destruindo as máquinas que julgavam ser responsáveis pelos problemas (…)” (HOBSBAWM, 1998, p.55). O ludismo, movimento iniciado com Ned Ludd, tecelão que se destacou pela liderança do movimento, foi a primeira manifestação de revolta dos operários contra suas condições de existência. Foi um movimento de protesto contra a mecanização das forças produtivas. As máquinas foram os alvos da revolta e atingiu seu auge nos anos 1811 e 1812. Nessa época o operário trabalhava de 72 a 80 horas por semana e continuava vivendo na miséria e na indigência.

        Em seu artigo “Métropolis: As faces do Monstro (A cidade no século XIX)” (1984) publicado na Revista Brasileira de História, a historiadora Maria Stella Martins Bresciani penetrou nos meandros dessa nova sensibilidade experimentada por estes trabalhadores, que cada vez mais perderam a identidade e experienciaram as contradições do mundo moderno. Segundo ela, a primeira perda que o trabalhador experimentou foi a perda da “representação do tempo”. Aquela relação natural com o tempo, regido pela natureza, onde o homem realizava tarefas cíclicas, se desfez. O tempo tornou-se abstrato e linear, tornou-se uma instância exterior que subjuga: tempo do trabalho, tempo do patrão.  A segunda perda foi o da “unidade do homem com suas condições de produção”. O trabalhador foi despojado das condições objetivas do trabalho, foi reduzido à mera força de trabalho. A terceira perda foi as das “relações pessoais” que se desfizeram pela impessoalidade das relações de mercado. Aquela relação do aprendiz com o mestre-artesão que ensina produzindo destreza e identidade profissional rompeu-se. A relação entre patrão e operário tornou-se mercantil. A última perda foi o do “habitat tradicional”, o trabalhador fabril e urbano foi arrancado dos vilarejos e impelido a levar uma vida agressiva nas cidades. Através dessas perdas o trabalhador foi desenraizado de sua vida e de seus afazeres e perdeu sua identidade.

          Na medida em que o homem aliena-se de sua atividade social e humana, ele aliena-se de si mesmo. A sociedade não é uma entidade abstrata separada do indivíduo, mas é uma extensão dele. São os indivíduos que constroem a realidade a partir de seu trabalho.  São as condições materiais de existência que definem quem são.   “A atividade social e humana do homem é o seu trabalho; os produtos do trabalho, incluindo a sociedade, são extensões da própria natureza humana. Portanto, o homem é a sua atividade, é seus objetos, o homem é a sociedade. Qualquer reificação dos objetos humanos, qualquer transcendência do produto dos homens sobre eles mesmos que os impeça de visualizar seus interesses, sua habilidade e seu poder ali expressados e afirmados, vem a ser uma evidência  da alienação do homem  de sua própria atividade, de seus objetos e de si mesmo” (HORTON, 2008, p.82). 

 

Bibliografia

BRESCIANI, M. S. M. Metrópoles: as faces do monstro urbano (as cidades no século. XIX). Revista Brasileira de História, São Paulo, v.5, n.8/9, set. 1984/abril.

DOBB, Maurice. A Evolução do Capitalismo. 9′ ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1983.

DECCA, Edgar Salvadori de. O Nascimento das Fábricas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1990.

HOBSBAWN, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

HORTON,  John. Anomia e Alienação: Um problema na ideologia da sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

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