A filosofia como revolta

Por Michel Aires de souza

       A filosofia é em sua essência revolta, uma vez que ela é pensamento crítico e radical sobre a realidade. Seu objetivo é desfazer os nós dos problemas. A filosofia procura tornar claro aquilo que é obscuro.  Ela é um discurso reflexivo sobre a realidade, e sobre toda forma de crença e misticismo. Ela busca a clareza para lançar luz sobre a penumbra. Por este motivo, não há filosofia sem revolta. A revolta surge quando tudo se torna claro, quando por um ato de intuição nós chegamos à verdade. Quando nos damos conta da mentira e da ilusão nos revoltamos. É a clareza da verdade que nos perturba. Os gregos entendiam a verdade como “Alethéia”, ou seja, como aquilo que se desvela, aquilo que se descobre. Não há revolta sem esclarecimento, não há revolta sem verdade. O objetivo da filosofia, portanto, é levar os indivíduos à revolta, à verdade.  A revolta nos torna humanos, nos liberta da experiência alienante em que vivemos. “E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (João 8:32).  A revolta nos faz pensar sobre nossas circunstâncias. Ortega Y Gasset já dizia que o homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire consciência de suas circunstâncias. É por meio das circunstâncias que o homem se comunica com o universo. Foi isso que fizeram os gregos quando começaram a filosofar.   Quando os pré-socráticos deram a primeira demonstração lógica e materialista para os fenômenos da natureza, isso significou o primeiro ato de revolta na história do pensamento. Eles deram uma explicação racional e sistemática do universo, se revoltaram contra suas circunstancias, contra as ilusões e os preceitos de sua época. Foi a partir daí que o mundo começou a ser desencantado. Quando Sócrates aceitou passivamente sua condenação à morte, por ter colocado idéias subversivas na cabeça dos jovens, isso foi um grande ato de coragem e de grande revolta, uma vez que mostrava aos seus acusadores que eles  não estavam seguindo a ordem justa da pólis (cidade).  Quando Giordano Bruno aceitou passivamente ser queimado vivo por conceber um mundo infinito, isso também foi um grande ato de coragem e de grande revolta, uma vez que mostrou aos algozes de sua época que num universo infinito o homem não é um ser privilegiado na ordem do mundo.

       Quando pensamos a filosofia como um ato de revolta,  lembramos-nos de imediato de um texto de Deleuze, em “Nietzsche e a Filosofia”. Segundo Deleuze, “quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. (…) A tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria. ( Deleuze, 1976, p. 87).  A filosofia como pensamento reflexivo é, portanto, libertadora.  Ela não se submete a nenhuma forma de poder, seja religioso, político ou ideológico. A razão é a faculdade que julga, analisa, discerne e compara, nesse sentido, sua característica fundamental é o livre pensar. É somente através da reflexão que o homem pode sair de sua “menoridade”, alcançando autonomia e liberdade para guiar sua vida. É somente através da reflexão que a humanidade poderá um dia reivindicar um mundo mais justo e feliz.

 Bibliografia

 Deleuze, Gilles. Nietzsche e a filosofia, Ed. Rio, Rio de Janeiro, 1976.

Ortega Y Gasset, J. Meditações do Quixote. São Paulo: Iberoamericana, 1967.

11 comentários em “A filosofia como revolta

  1. Michel, venho acompanhando seus textos há bastante tempo.
    Agradeço pelo prazer da leitura que nos proporciona.
    Acho que seria interessante um artigo que contrastasse o slogan do blog (“A vida mais doce é não pensar em nada”) com o conteúdo deste texto.
    Penso, ainda, que você deve, de alguma maneira, se interessar por Sartre e Nietzsche, em vista das coisas que nos escreve aqui. Acha que seria interessante escrever algo falando sobre as sinergias e intersecções de ambos os autores?
    Abraços,
    Lucas Amorim

    1. Olá Lucas,

      A frase do blog é de Nietzsche. Eu a coloquei por ter um sentido bastante crítico, uma vez que, aqueles que não pensam não sofrem. A filosofia é justamente o contrário. Como afirma Deleuze, “a filosofia serve para entristecer”. Quanto a escrever sobre Sartre e Nietzsche teria que me aprofundar mais para poder relacioná-los, meu conhecimento de ambos é bastante superficial.

      Abraços
      Michel

  2. Caro professor.

    Desculpe a impertinência, mas parece que a bibliografia citada está errada. Tenho a obra original (DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Editora Rio. Rio de Janeiro, 1976, p. 87.) e em nenhuma página dela há o texto citado.

    Muto obrigado.

    Atenciosamente.
    Reinaldo Scalzaretto

    1. Olá Reinaldo,

      Já faz um tempo que li esse livro. Não o tenho em casa, peguei na biblioteca. Baixei uma cópia agora da internet, em Word, está na página 87. TRADUÇÃO: Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias – Editora Rio – RJ
      fevereiro de 1976

      abraços
      Michel

  3. Bom dia, Michel.

    Segue no anexo o PDF da obra citada, o que facilita a pesquisa.

    Abraços.

    Reinaldo

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