Por que não sou cristão?

Por Michel Aires de Souza

A Palavra de Deus é para mim nada, além de ser a expressão e produto de fraqueza humana. A Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que, não obstante, são bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, pode (para mim) mudar isso.” (Einstein)

Principium cuius hinc nobis exordia sumet, nullam rem e nihilo gigni divinitus umquam -  Lucrécio
Principium cuius hinc nobis exordia sumet, nullam rem e nihilo gigni divinitus umquam – Lucrécio

 O ser humano não possui uma natureza humana fixa, a priori, incondicionada. Ele é produto da sua cultura. Seus modos de pensar, agir, valorizar, sua religião, sua moral, seu comportamento são determinados historicamente, produzidos pelo convívio social. Quando nascemos vamos adquirindo determinados hábitos, possuiremos uma língua, uma religião, uma moral, pertenceremos a uma determinada classe e seremos parte de um determinado grupo social. Todas essas condições formam uma trama tecida por relações sociais que determinará a nossa conduta.  Comportamentos, desejos, atitudes, valores, orientações são aprendizagens assimiladas pelas práticas sociais. Desse ponto de vista, a religião é um conjunto de dogmas, práticas e valores que existem e atuam sobre os indivíduos, independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente.  A crença em uma determinada religião não é um dado espontâneo, mas é determinado culturalmente. Toda crença é condicionada historicamente.  Isso significa que não é um dado primário, incondicionado, que nasce naturalmente nos indivíduos.  A religião é uma potência histórica coercitiva e exterior, que transcende os homens.  Os preceitos religiosos se manifestam como algo dado e pronto, que vamos internalizando desde a infância pela socialização. Os dogmas, as normas, os rituais, os preceitos e valores religiosos são práticas que exercem uma coerção, são assimilados sem o consentimento dos indivíduos. A religião é um discurso que funciona como verdade e atua na produção da subjetividade. Se nascermos em um país ou família cristã, com grande certeza seremos cristãos; se nascemos em um país ou família mulçumana, é certo que seremos mulçumanos.  Do mesmo modo, se nascêssemos numa família kayapó acreditaríamos nos espíritos da floresta ou se tivéssemos nascidos no Egito antigo acreditaríamos no Deus sol Hórus.  Deuses nascem e morrem.  Ninguém mais acredita nos Deuses gregos da mitologia, muito menos nos deuses do Egito ou dos Astecas da América.  Apolo, Odin, Isis, Osiris, Horus, Bhrama, Tutatis, Akazarus, Guaraci, Olorun, Mawu, Zambi são outros milhares de deuses que foram, mas já não são mais.  O que podemos inferir, portanto, é que o homem é o resultado da sua sociedade, do seu meio cultural, sua religião, moral e conduta são padrões estabelecidos por sua cultura. A cultura é um processo cumulativo, resultante de toda experiência histórica das gerações anteriores. Segundo Benedict, citado por Laraia, “a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas” (citado por Laraia, 1996, p.69).

        Laraia (1996), em seu livro “Cultura um conceito antropológico” conta-nos duas experiências absurdas praticadas no passado.  Hérodoto descreveu que um rei egípcio desejava descobrir a linguagem materna da humanidade. Com isso, ordenou que algumas crianças fossem isoladas da sua espécie, tendo somente cabras como companheiros e para o seu sustento. Quando as crianças cresceram o rei retornou para visitá-las. Para seu espanto todas elas sabiam apenas falar a palavra bek. O rei então pediu a seus emissários que fossem descobrir em todos os países qual o povo que usava a palavra bek. Ele verificou que no idioma frígio a palavra bek significava pão, então sugeriu que as crianças sentiam fome e pensou ser o idioma frígio a língua natural da humanidade. Não se deu conta que as crianças na verdade estavam imitando as cabras. Outra história absurda acontecerá milhares de anos depois. O soberano imperador mongol Akbar repetiu a experiência com o propósito de descobrir qual era a religião natural da humanidade. As crianças foram encerradas em uma casa desde o nascimento. Decorrido o tempo necessário o rei foi visitá-las. Ao se abrirem as portas, para desapontamento do rei, as crianças não falaram uma única palavra, eram tão silenciosas como se fossem surdas-mudas. Essas duas histórias mostram-nos que a linguagem e a religião são algo inteiramente adquirido e não inatos, completamente externas e não internas, são produtos criados pelo convívio social e não partes da natureza humana.

     Tal como a religião, a linguagem tem um grande poder sobre a nossa compreensão do mundo. É a linguagem que determina nossas verdades e crenças.   Para o filósofo alemão Nietzsche, a razão é um instrumento de autoconservação. A razão é um instrumento que a natureza forjou para o ser humano prever os fenômenos, imprimir sentido as coisas e calcular o curso dos acontecimentos.  A razão é a faculdade que julga, discerne, calcula, ordena, dá sentido e permanência às coisas. Para isso ela faz uso da linguagem. As palavras que usamos em nosso cotidiano parecem ser naturais, uma necessidade cotidiana sem grandes conseqüências. Apesar do senso-comum pensar assim, são as nossas palavras que dão sentido e coerência ao mundo em que vivemos. Só podemos pensar o mundo porque somos providos de linguagem. Não há pensamento sem linguagem. O universo em si é uma eterna ausência de ordem, onde não há encadeamento de formas, nem de beleza, mas somente luta e contradição. O mundo é  um eterno fluxo, um eterno devir, sem sentido e finalidade. Para pensar e dar sentido a esse mundo incoerente, de caos, cheio de contradições, usamos a linguagem. A razão faz uso da linguagem para tornar o mundo estável, fixo, permanente, previsível. A função da linguagem é fixar aquilo que é impermanente, é dar sentido e coerência ao que não tem sentido, é nominar o imponderável. A linguagem materializa as coisas no fluxo do tempo, cristaliza aquilo que é insondável, efêmero, imperscrutável. Deus, eu, alma, bem, mal,  onipotência, existência, substância, causa são palavras sem referência, não possuem uma realidade em si, observável, ponderável, são produtos da linguagem. Todos esses conceitos são imaginários. A partir desses conceitos mais simples surgiu todo um mundo de ficção, de “psicologia imaginária”, como pecado, redenção, castigo, espírito, imortalidade, anjos. Todos esses conceitos são ficções da linguagem. “A ‘razão’ na linguagem: oh, que velha, enganadora personagem feminina! Temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática”  (Nietzsche, 1999, p.376).

         Não podemos ignorar também o preceito leibniziano de Pangloss de que “Deus criou o melhor dos mundos possíveis”.  A ingenuidade tem limites, mesmo o ingênuo Cândido (O otimista) foi capaz de perceber, depois de muito penar, que a dor, o sofrimento e a desgraça em geral são regras desse mundo. Basta observar nossas vidas para chegarmos à conclusão que os momentos de dor são infinitamente maiores que os momentos de felicidade. Também basta olhar ao nosso redor para percebemos como as calamidades, os sofrimentos e as misérias alheias preenchem o mundo. Para o maior filósofo pessimista de nossa era, Schopenhauer, nossa existência não tem outro fim senão a dor. “Se o sentido mais próximo e imediato de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é o maior contra-senso do mundo. Pois constitui um absurdo supor que a dor infinita, originária da necessidade essencial à vida, de que o mundo está pleno, é sem sentido e puramente acidental. Nossa receptividade para a dor é quase infinita, aquela para o prazer possui limites estreitos. Embora toda infelicidade individual apareça como exceção, a infelicidade em geral constitui a regra” (Schopenhauer, 1988, p. 216).

            As dores do mundo são em grande parte causadas pelas contingências da vida e pelas calamidades naturais. Nesse sentido a nossa vida é determinada pela sorte, o destino é imprevisível: violência, guerras, barbárie, doenças, calamidades, miséria,  morte são partes indissolúveis da existência.  Não temos controle sobre nada, não sabemos o que o destino nos prepara. Se o tsunami ocorrido em 2004 matou 280.000 pessoas afogadas, por ironia, em pleno natal, foi por causa de um sismo submarino e não porque Deus quis assim. Se o avião da TAM ultrapassou o final da pista na hora de pousar em São Paulo e se chocou com um depósito de cargas matando 199 pessoas em 2007, foi por um problema de frenagem ou imperícia do piloto e não porque existem forças diabólicas no mundo.  Se duas crianças nascem grudadas pelo estômago ou com qualquer outro defeito congênito, é provavelmente um erro genético ou um erro no processo de formação do feto, é obra do acaso e não da necessidade.  As desgraças da vida surgem à revelia, assim como a nossa morte. Mas o pior de tudo isso, é que já nascemos condenados ao sofrimento e a dissolução, tal como o personagem Joseph do livro “O Processo” de Kafka, que não sabe por que foi condenado.  Somos condenados sem saber por quê. Não escolhemos estar aqui, somos jogados no mundo a revelia. Sem querer estamos em um mundo desgraçado, cheio de aflições e sofrimentos O nosso destino é inexorável. Ao nascermos já sabemos qual será o nosso destino. Caminhamos para morte como os animais caminham para o matadouro. Que sentido haveria em tudo isso. Que Deus em sã consciência criaria um mundo desses. “Trabalho, aflição, esforço, e necessidade constituem durante toda vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantada, as pombas revoassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem dificuldade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza. Portanto, para tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência”  (Schopenhauer, 1988, p. 217).

         Outra parte de nossas desgraças e sofrimentos provêm do próprio homem. O ser humano é um ser perverso e egoísta por natureza, ele é governado por um querer cego e irracional, destituído de sentido e finalidade. É essa insatisfação constante nele que o torna hostil a tudo: cobiçar, invejar, humilhar, roubar, estuprar, matar são partes da natureza humana. Se Deus criou o homem, o criou para ser perverso. A agressividade é inerente ao ser humano. Nenhuma espécie de animal comete a agressão por divertimento, somente o homem é capaz de cometer a agressividade gratuitamente, por diversão.  Para Schopenhauer, “o mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em diabos atormentadores”. Para dar alguns exemplos, no Brasil são assassinadas 50.000 mil pessoas aproximadamente por ano. Somente em 2012, 36.792 pessoas foram assassinadas com armas de fogo. Neste mesmo ano houve 41.294  estupros no Brasil. A cada doze segundos uma mulher é estuprada. Somente no Rio de Janeiro, em 2007, foram registrados 6.000 estupros.  2.000 pessoas são sequestradas anualmente. Esses são alguns números colhidos na Internet sobre a violência no Brasil, imaginem os números de mortos em guerras, conflitos étnicos e religiosos que acontecem todos os dias. Como diria Sartre, “o inferno são os outros”.

          Viver é se sentir como um daqueles personagens do filme. “O sétimo Selo” de Bergman fugindo da peste e da morte, apenas esperando o fim dos tempos, com medo que o mundo possa acabar a qualquer momento. Assim é nossa vida, estamos sempre caminhando sobre um abismo. Não sabemos o que a existência nos prepara. A vida sempre pode estar por um segundo. “Parecemos carneiros a brincar sobre a relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que a infelicidade justamente agora o destino nos prepara -, doenças, perseguição, empobrecimento, mutilação, cegueira, loucura, morte, etc.” (Schopenhauer, 1988, p.217).

        Nietzsche (1992) em seu livro O Nascimento da Tragédia, conta-nos uma antiga lenda,  que o rei Midas perseguiu o velho sábio Sileno na floresta durante muito tempo, sem conseguir apanhá-lo.  Mas quando conseguiu pegá-lo perguntou lhe qual dentre as coisas desse mundo era melhor e mais preferível para o homem. Depois de ficar calado e imóvel por certo tempo, abriu um sorriso amarelo e disse-lhe com sarcasmo: estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.

     Além das contingências da vida, das desgraças da existência e da perversidade humana não podemos ignorar também os crimes da Igreja cometidos contra a humanidade durante toda a idade média. As cruzadas, a inquisição, as invasões em busca de terras e riquezas, a dizimação dos índios da América, a escravidão dos negros, as torturas e crimes contra os que foram considerados pagãos. Uma passagem de Nietzsche é bastante esclarecedora sobre os tipos de torturas praticados no mundo medieval. “Pense-se nos velhos castigos alemães, como a apedrejamento (-a lenda já fazia cair à pedra sobre a cabeça do culpado) a roda (a mais característica invenção, a especialidade do gênio alemão no reino dos castigos!), o empalamento, o dilaceramento ou pisoteamento por cavalos (o ‘esquaterjamento’), a fervura do criminoso em óleo ou vinho (ainda nos séculos quatorze e quinze), o popular esfolamento (‘corte de tiras’), a excisão da carne do peito; e também a prática de cobrir o mal-feitor de mel e deixá-lo às moscas, sob o sol ardente. Com a ajuda de tais imagens e procedimentos, termina-se por reter na memória cinco ou seis ‘não-quero’, com as quais se fez uma promessa (…).” (Nietzsche, 1988, p.63).

                  Como dissemos, o ser humano é um ser histórico determinado no interior das práticas sociais.  Conhecer o homem  é conhecer sua sociedade e as instituições que o determinam. A grande parte dos dramas e conflitos enfrentados pelos indivíduos é  causada pelas circunstâncias sociais ou por seus valores que se encontram ameaçados.  O que os indivíduos ignoram é que as estruturas de sua personalidade estão intrinsecamente ligadas as estruturas de sua sociedade.   Todo ser humano para compreender sua vida mais íntima, suas paixões, seus desejos, suas dificuldade, seus fracassos deveria, antes de tudo, conhecer seu cenário histórico, deveria conhecer as estruturas da sociedade em que vive. Os seus dramas não são de ordem espiritual. Não é Deus que poderá resolver seus problemas, como o desemprego, a pobreza ou a promoção pessoal. Os homens geralmente possuem uma falsa consciência de sua vida, uma vez que não conseguem pensar e compreender as forças que determinam sua existência e comportamento. Compreender as estruturas e instituições que determinam nossa existência na sociedade é imprescindível para o conhecimento do que somos. Essa habilidade de perceber o que está acontecendo no mundo e compreender o que está acontecendo com nossa vida, como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da história, o sociólogo Wright Mills chamou de “imaginação sociológica”. Segundo ele, “o indivíduo só pode compreender sua própria experiência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro de seu período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornando-se cônscio das possibilidades de todas as pessoas, nas mesmas circunstâncias em que ele. (…) Chegamos, a saber, que todo indivíduo vive, de uma geração até a seguinte, numa determinada sociedade; que vive uma biografia, e que vive dentro de uma sequência histórica. E pelo fato de viver, contribui, por menos que seja, para o condicionamento dessa sociedade e para o curso de sua história, ao mesmo tempo em que é condicionado pela sociedade e pelo seu processo histórico”. (Mills, 1980, p.12). Por estas razões, a fé não remove montanhas, não é ela que poderá nos salvar, mas sim o esclarecimento.  Como disse Kant, “Sapere audeTenha coragem de fazer uso de seu próprio entendimento”

Bibliografia

 

ALLEN, Steve.  Steve Allen on the Bible, Religion, and Morality. Buffalo, NY: Prometheus Press, 1990.

LARAIA, Roque de B. Cultura, um conceito antropológico. Rio de janeiro: Zahar, 1986.

NIETZSCHE, F.W. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo, Brasiliense, 1988.

NIETZSCHE, F.W. Crepúsculo dos ídolos ou como filosofar com o martelo. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores)

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo, Companhia das
Letras, 1992.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e Paralipomena. São Paulo: Nova Cultural, 1988 (Os Pensadores).