Pierre Bourdieu: educação, trabalho e a manutenção da ordem social

 Por Michel Aires de Souza

       Desde o iluminismo, no século XVIII, a educação sempre foi vista como uma instância de transformação e equalização social, estando ligada a princípios democráticos.  Os iluministas  acreditavam que  por meio da educação   o homem como construtor da cultura  deveria ser capaz discernir,  avaliar e agir com autoconsciência para modificar sua própria vida e da existência social como um todo. Acreditavam que a educação formaria o cidadão consciente e participativo, pois o indivíduo ativo seria o fundamento da sociedade democrática.   Essa visão democrática da educação foi desconstruída por Bourdieu e Passeron,  a partir da publicação do livro “A reprodução: elementos para uma teoria dos sistemas de ensino” (1970).  Eles demonstraram,  através de um farto material de pesquisas empíricas,  que a educação não é uma instância de equalização e mobilidade social,  ao contrário,  é uma instância de conservação e reprodução da desigualdade social.

         Bourdieu (2007) desvelou  em sua época  que um jovem da alta burguesia tinha oitenta vezes mais chances de entrar na universidade que o filho de um assalariado agrícola  e quarenta vezes mais que um filho de operário, e suas chances eram duas vezes maior que um jovem da classe média. Ele percebeu ainda  uma nítida  diferença de desempenho escolar  entre as crianças pertencentes as famílias mais abastadas e as crianças  pertencentes as classes populares.  Ao analisar  esse fenômeno,  chegou a conclusão que não se tratava de dádiva divina, de dons inatos ou  de qualidades  naturais. Os estudos mostravam que as crianças pertencentes as elites chegavam à escola munidos de um grande capital cultural e de determinados valores e formas de  comportamento (Ethos), que os diferenciavam das crianças das classes populares. Foi a partir do conceito de capital cultural que Bourdieu compreendeu as desigualdades de desempenho escolar dos alunos de diferentes classes sociais. As classes dominantes ensinavam  a seus filhos, provavelmente de modo lúdico e espontânea, um conjunto de conhecimentos e referenciais linguísticos, algumas habilidades e formas de comportamento,  que apenas os mais bem sucedidos possuíam.  Esse capital cultural foi entendido por ele  como um conjunto de saberes, conhecimentos, competências e esquemas mentais adquiridas na família e que, posteriormente, seria desenvolvido pela escola.

            Para Bourdieu,  a cultura transmitida pela escola seria uma cultura de classe. Ela  não estaria fundamentada em nenhuma razão objetiva universal.  É a cultura escolar que decide o que é estimável ou insignificante, distinto ou vulgar, bom ou ruim. Nesse sentido,  não há nenhuma justificativa racional para o fato de se estudar a pintura ao invés da história em quadrinhos; a história da Europa em detrimento da história da África; a música clássica ao invés do Funk ou Hip Hop.  A organização das disciplinas, os conteúdos,  a organização do sistema escolar  surgem como produto das relações de força de uma determinada formação social.  Do mesmo modo, os valores, preceitos, atitudes, comportamentos e conhecimentos apreendidos na escola são, por definição, arbitrários.  Bourdieu entendeu a cultural escolar como uma forma de violência simbólica, e, mais explicitamente, como dominação simbólica. Para ele,  a escola é reprodutora dos valores, do imaginário e das condições sociais dominantes do sistema cultural. A escola é o principal meio pela qual o sistema de domínio social se constitui se mantêm e se perpetua.

           O grande objetivo da ação pedagógica para Bourdieu  é inculcar um habitus de classe”.  O “habitus” foi entendido por ele como estruturas sociais incorporadas,  que produzem disposições para pensar, sentir e agir. Segundo Catani, “o habitus, constituído por um conjunto de disposições para a ação, é a história incorporada, inscrita no cérebro e também no corpo, nos gestos, nos modos de falar ou em tudo o que somos. É essa história incorporada que funciona como princípio gerador do que fazemos ou das respostas que damos à realidade e na realidade social (CATANI, 2007, p. 20).   A ação pedagógica é, portanto, um trabalho de inculcação dos valores, preceitos, modos de ser, pensar e agir socialmente valorizados.

          A sociedade capitalista é uma sociedade extremamente hierarquizada e desigual, organizada segundo uma divisão injusta de renda, privilégios e poderes.  As melhores posições na estrutura social dependem das qualificações dos indivíduos.   Contudo,  a boa qualificação tornou-se  monopólio das classes dominantes.  A educação, ao  privilegiar os mais dotados de capital cultural,   beneficia as crianças das classes sociais mais favorecidas. São essas crianças que serão mais bem qualificadas e ocuparão as posições mais importantes no mercado de trabalho. Ao contrário, as crianças das classes populares, por não possuírem o capital cultural, fracassam mais facilmente no percurso escolar, pois possuem mais dificuldades de dominarem os códigos que a escola valoriza. Desse modo, a educação reproduz as desigualdades sociais e colabora para a manutenção das estruturas sociais.

         Para Bourdieu,  um dos papéis do cientista social é descrever a lógica de funcionamento das estruturas sociais.  O espaço social aparece como um conjunto de relações invisíveis, objetivas, entre as posições ocupadas nas distribuições de recursos ou poderes,  que podem ser usados de modo eficiente para se apropriar de bens que estão em disputa. Esse espaço de relações sociais é tão real como o espaço geográfico. Para que o indivíduo mude de lugar,  nesses espaços,  é necessário tempo, trabalhos, sofrimentos, esforços. Os agentes trazem as marcas e os estigmas desses esforços. Por causa disso, o espaço social é um espaço de conflito, de luta simbólica, onde os agentes e grupos dominantes procuram manter sua posição de domínio.

        O capital econômico e o capital cultural são as formas de capital mais importante para estruturar o espaço social, uma vez que fornecem os principais critérios de diferenciação simbólica.  Para Bourdieu (2004),  há duas dimensões do espaço social.  Na primeira dimensão,  os agentes se posicionam segundo o volume global de capital que possuem, formando uma hierarquia de cima para baixo. Quanto maior o capital e quanto mais diferenciado ele for,   melhor a posição do agente na estrutura social.  A partir dessa perspectiva,  os empresários, os profissionais liberais, os professores universitários, por possuírem um capital maior e diferenciado, se opõe globalmente aqueles desprovidos de capital econômico e cultural, como os operários, trabalhadores do setor de serviços ou agricultores.  Na segunda dimensão, os agentes se posicionam de acordo com a estrutura do seu capital, ou seja, segundo a importância do capital que possuem.  Quanto maior o peso relativo do capital econômico ou do capital cultural  que possuem,  maior é sua diferença e distinção em relação aos outros agentes. Nesse sentido, os grandes empresários e comerciantes se opõe ao professores universitários,  por possuírem maior capital econômico. Do mesmo modo,  esses últimos se opõem aqueles, por possuírem um maior capital cultural. Poderíamos distinguir também, em um nível inferior, os professores de ensino médio em oposição aos pequenos comerciantes. Os funcionários de escritório em oposição trabalhadores da fábrica.

           A grande parte das diferenças entre os agentes é determinada pela ocupação social. É o Estado que produz as classificações oficiais, sendo o tribunal supremo que possui o monopólio da nomeação legítima. É o Estado que determina as taxonomias oficiais.  Ao nomear os agentes,  segundo sua atividade ou profissão,  o Estado anula todas as diferenças constitutivas do espaço social, tratando uniformemente todas as posições como ocupações: empresário, comerciante, professor, faxineiro, etc.

            Essa classificação do Estado sobre as ocupações tem nitidamente o objetivo de criar uma visão legitima do mundo social. Há uma naturalização das hierarquias ocupacionais, que passam a ser aceitas de modo natural, como se as posições no espaço social fossem dadas a priori. Os nomes de profissões que os agentes possuem, e os títulos que os nomeiam,  são marcas distintivas, que podem ser positivas ou negativas, recebendo seu valor da posição que ocupam na hierarquia da taxionomia estabelecida. A ocupação determina a posição do agente no espaço social. Por esta razão,  os agentes buscam, cada vez mais, títulos para maximizar ganho simbólico e mudar de posição na hierarquia social.    “O título profissional ou escolar é uma espécie de regra jurídica de percepção social, um ser-percebido que é garantido como um direito. É um capital simbólico institucionalizado, legal (e não apenas legítimo)”. (BOURDIEU, 1989, 148-9)

           O título profissional e a ocupação representam o capital simbólico, dando  notoriedade, prestígio e crédito aqueles que os possuem. São as instituições do Estado,  como instâncias de poder,  que legitimam e dão credibilidade a esses títulos e ocupações. Trata-se do desejo de reconhecimento, de ser percebido, de ser importante para as outras pessoas, de se possuir certas propriedades distintivas. O que os agentes buscam  é adquirir identidade social. O espaço social surge como uma luta simbólica, em que os agentes buscam, cada um por si, construir uma reputação. Eles buscam acumular capital simbólico para que adquiram carisma, prestígio e reconhecimento por seus méritos e qualidades especiais. A busca de títulos, bens culturais e  ocupações no espaço  social se fundamenta numa vontade de distinção social.

            Devido às grandes exigências do mercado de trabalho,  a educação tornou-se em nossa época um bem conspícuo. Os indivíduos para se diferenciarem simbolicamente  procuram adquirir capital cultural.    Quando procuramos os serviços de um engenheiro, médico ou advogado, torna-se claro que estes agentes são reconhecidos como profissionais, que possuem certos atributos essenciais da sua profissão. Ao contrário, o agente que trabalha em uma lanchonete, no escritório ou limpando casas não é definido como profissional, mas como um ocupante de um posto de trabalho, que faz uma tarefa ou exerce uma atividade.  Para Bourdieu (1989),  o título é em si mesmo uma instituição, assim como a língua. É uma marca distintiva legitimada pelo Estado e reconhecida socialmente. É por meio dos títulos que os agentes são percebidos, reconhecidos, respeitados e adquirem credibilidade. Estudar em uma grande escola, fazer um curso no exterior, falar línguas ou produzir artigos científicos são formas de agregar valor a si mesmo, obtendo capital simbólico para adquirir algum recurso, poder ou vantagem no mercado de trabalho.   Ao receber valor pela ocupação ou pelo título profissional que possui, em um mundo hierarquizado pelas distintas formas de capital, isso contribui para a identidade social do agente e determina sua posição no grupo ou classe social ao qual pertence.  O campo do trabalho enquanto relações objetivas entre posições em disputa é o lugar e o espaço de uma luta concorrencial. O que está em jogo  é o capital simbólico e o capital econômico, que não somente propiciam prestigio, poder e bens materiais, mas propiciam acima de tudo uma posição na estrutura social. Por esta razão,  é um campo de grande luta simbólica.

         A sociedade do consumo é o modo de produção e  reprodução material e espiritual,  que expande e transforma o consumo de mercadorias  no principal fator das relações e das práticas sociais.  A educação, ao reproduzir as desigualdades sociais, insere-se nesse processo, na medida em que produz um tipo específico de mercadoria: o indivíduo. A formação escolar determina quais serão aqueles que ocuparão as melhores posições na estrutura social. Contudo,  ela encobre o fato que essas posições já estão determinadas a priori, serão ocupadas por aqueles provenientes das famílias mais privilegiadas, com um nível maior de capital econômico e capital cultural. Ela encobre esse fato pela ideologia do dom e do esforço individual. O sistema de ensino partiria do princípio  que todos competiriam em condições iguais,  e aqueles que se destacassem, por seus dons individuais ou por seus esforços, por uma questão de justiça, seriam promovidos na vida escolar e, posteriormente, na vida profissional. É essa ideologia que legitima a educação e a torna uma promessa de felicidade. Desse modo, a educação torna-se um instrumento de manutenção da ordem social.

BIBLIOGRAFIA

BOURDIEU, Pierre. A distinção: critica social do julgamento. Porto Alegre, RS: Zouk, 2015.

BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean C.. A Reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2014.

BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007

BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. Trad. Cássia R. da Silveira e Denise M. Pegorin. São Paulo: Brasiliense, 2004

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

CATANI, Denise. B. A educação como ela é. Revista Educação, São Paulo, vol. 5, Especial: Biblioteca do Professor,  Bourdieu pensa a Educação, p.16-25, set. 2007

NOGUEIRA, Maria A. e NOGUEIRA, Claudio.M.M. A sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições. Educação & Sociedade, ano XXIII, no 78, Abril/2002. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/es/v23n78/a03v2378.pdf&gt; acesso em Dezembro de 2015

5 comentários em “Pierre Bourdieu: educação, trabalho e a manutenção da ordem social

  1. Maravilhoso Professor! Meus parabéns! Excelente retórica, texto rico em argumentos coerentes e de punho forte. Venho estudando alguns temas para inferir em minhas redações. Ano passado tive essa rica oportunidade de encontrar esse site tão rico em ideias! Aprendi muito aqui, e minha nota na redação do Enem subiu de 640 para 920. Aprendi que ter bons argumentos de autoridade fazem grande diferença! Forte Abraço!

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