Pierre Bourdieu: espaço social e a construção da nossa visão de mundo

Por Michel Aires de Souza

661103-970x600-1     Em sua sociologia, Bourdieu não pensa o sujeito nem de forma isolada, como um ser autônomo, consciente, com um conjunto de características e qualidades particulares e nem determinado mecanicamente por leis objetivas, que comandam todo o comportamento humano. Ele procura compreender o sujeito historicamente através de suas determinações sociais.   Em seus escritos, ele utiliza pouco a palavra sujeito, em seu lugar, encontra-se de modo mais frequente a palavra agente, entendido como aquele que age. Em sua opinião, cada agente se constitui a partir de uma bagagem socialmente adquirida, se constitui a partir da incorporação das estruturas sociais, sob a forma de estruturas de disposições. O agente é compreendido como um “habitus”, como um sistema de disposições herdados.  Nesse sentido, a gênese das estruturas mentais surge da incorporação das estruturas objetivas do mundo social.

     É vivendo em sociedade que o agente assimila as normas, regras, valores, preceitos, ações e comportamentos de seu grupo ou classe social.  É por meio do habitus que desenvolve sua visão de mundo, pelo qual se guia, percebe e julga a realidade.  É por meio dele que o agente se torna um ser social. O habitus pode ser entendido como uma forma de condicionamento, que cria um sistema de disposições duradouras para a ação, organizadora de práticas, esquemas de percepção e representação, geradora de princípios e valores interiorizados, que regula a conduta dos agentes na estrutura social. Segundo Setton (2001), a noção de habitus pode ser pensada como uma identidade social, uma experiência biográfica, um sistema de orientação. Nesse sentido, é uma matriz cultural que predispõe os indivíduos a fazerem suas escolhas.

        O corpo tem um papel fundamental na construção da identidade social do indivíduo. É através do corpo que o agente entra em relação com o mundo e é afetado por ele. O agente ao ocupar um lugar no espaço social possui uma compreensão desse mundo, porque desde sua origem foi exposto as suas influências. É através da posição social que adquire um sistema de disposições para a ação e para compreensão prática do mundo.  Na concepção de Bourdieu (2001), o indivíduo como um ser abstrato, intercambiável, sem qualidades, também se constitui como agente real, ou seja, enquanto habitus, com sua história, suas propriedades incorporadas, tendo a propriedade de estar aberto e exposto ao mundo. Nesse sentido, é condicionado e moldado pelas condições materiais e culturais de existência. O corpo disposto no espaço social está sujeito a um processo de socialização, cujo produto é a própria individuação, a singularidade do “eu”, sendo forjada nas e pelas relações sociais.

    Nietzsche (1988) já havia concebido a origem do sujeito no terreno dos acontecimentos históricos, a partir de relações de força, a partir das relações de poder. O corpo se torna visível e um efeito dos embates de forças. Marx  (1976) já havia pensado o sujeito a partir das suas condições materiais de existência. O ser do homem se constitui a partir de seu ser social.  Desse modo, é o corpo que é afetado no interior das práticas sociais, seja por condições econômicas, seja por relações de poder.  Na teoria bourdieusiana, o corpo do indivíduo biológico está situado em um lugar, topos, ocupando uma posição no espaço físico e no espaço social.   O espaço social é uma estrutura de justaposição de posições sociais, é o lugar da exclusão mútua, é o lugar das distinções, das relações de força e poder. A busca da distinção no espaço social é o motor de toda conduta humana.

     Segundo a teoria topológica de Bourdieu (2004), o espaço social é determinado por estruturas sociais objetivas, ou seja, por uma multiplicidade de campos sociais, independente da consciência e da vontade dos indivíduos, mas que são capazes de orientar suas práticas e representações.  Nesse sentido, há uma gênese social da nossa visão de mundo, dos nossos modos de perceber, pensar e agir.  A sociologia relacional deste pensador tem como objeto de estudo as redes de interações e os sistemas de relações entre os indivíduos e classes sociais.

     A sociedade atual não está fundada em relações fixas, numa hierarquia de prestígios como no Antigo Regime, onde o clero, a nobreza e os servos tinham papéis definidos pela hierarquia social. No capitalismo os indivíduos e os grupos são definidos por sua posição relativa no espaço social. O espaço social é hierarquizado pela desigual distribuição de capitais. São as condições materiais de existência que definem a posição de cada indivíduo, grupo ou classe no espaço social. Desse modo, o poder e o prestígio surgem e se constituem a partir da posição que o indivíduo ocupa na estrutura social.  Não se trata, portanto, de uma hierarquia piramidal, mas de um espaço social multidimensional, hierarquizados por uma pluralidade de capitais.  O espaço social é construído de modo que os agentes ou os grupos são distribuídos segundo dois princípios de diferenciação simbólica, que são o capital econômico e o capital cultural. Quanto mais próximos os agentes estiverem entre essas duas posições mais gostos, formas de pensar e qualidades em comum eles devem ter

    Existe uma homologia entre espaço social e o espaço físico. Todas as diferenças no espaço social podem ser retraduzidas no espaço físico. O indivíduo que mora em um bairro nobre possui grande probabilidade de ocupar uma alta posição na hierarquia social. Ser da alta sociedade é ocupar altas esferas do mundo social.  Frequentar restaurantes caros, lojas de altas grifes, clubes privados e ocupar lugares reservados em eventos caracteriza simbolicamente a posição social do seu usuário. Do mesmo modo, os frequentadores de um boteco, de uma loja de produtos baratos, de um show de música popular também são caracterizados simbolicamente por sua posição no espaço social.          Na sociedade capitalista, o espaço físico é um local de segregação.  Os indivíduos providos de maior capital econômico são “devoradores de espaços”. Eles possuem grandes propriedade, assim como ocupam os lugares mais bem localizados e cobiçados pelas elites. Em uma mesma avenida de um grande centro urbanos podemos notar lojas, restaurantes, supermercados e espaços de lazer frequentados apenas pela alta burguesia. No espaço físico não existe ninguém que não seja caracterizado pelo lugar em que está situado.  O indivíduo desprovido de um domicilio ou de um lugar fixo para morar é um ser desprovido de existência social.

     As representações e os interesses dos indivíduos variam segundo sua posição ocupada no espaço social e segundo seu habitus como sistema de esquemas de percepção e apreciação.  Bourdieu (2008) concebe o habitus como princípios geradores de práticas distintas e distintivas, o que o operário come, e sobretudo sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira de expressá-las, que são muito diferentes do consumo e das atividades de um empresário industrial. O habitus são também esquemas classificatórios, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e o que é mau, entre o que é distinto e o que é vulgar. Assim, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.

     É também a partir da nossa posição social que tomamos certas posições políticas. Ser de esquerda ou de direita depende da nossa posição na estrutura social. Nesse sentido, há uma grande propensão de empresários e comerciantes serem de direita e professores e trabalhadores serem de esquerda. Mas a nossa escolha política vai depender das disposições que herdamos em nossa trajetória histórica. Se acreditamos que o Estado deve interferir na economia e na vida dos indivíduos para o bem-estar social, colocando os interesses coletivos acima dos particulares, isso vai depender das nossas disposições herdadas. Do mesmo modo, se acreditamos na liberdade individual, na meritocracia e no livre mercado sem a interferência do Estado, isso também vai depender das disposições que herdamos em nossa trajetória histórica.

       É a partir das práticas diferenciadas, dos bens que se possui, das categorias sociais de percepção, das opiniões expressas,  que surgem as distinções de classe e as diferenças simbólicas,  constituindo uma verdadeira linguagem social. Segundo Bourdieu (2008), as diferenças associadas a posições diferentes, isto é, os bens, as práticas e sobretudo as maneiras, funcionam em cada sociedade, como diferenças constitutivas de sistemas simbólicos, como conjunto de fonema de uma língua ou o conjunto de traços diferenciais de um sistema mítico. Desse modo, existir em um espaço, ser um ponto, é diferir, ser diferente, é ser distintivo, ser significativo se opondo ao que é insignificante. Em termos práticos, isso significa morar no bairro nobre ou em um bairro popular, gostar de futebol ou hipismo, beber cerveja ou vinho, possuir uma Ferrari ou um fusca, ser magro ou gordo, ser alto ou baixo, ter pele branca ou negra, etc. Para Bourdieu (2008), só se torna uma diferença visível, perceptível, se ela é percebida por alguém capaz de estabelecer a diferença, já que está inscrita no espaço em questão, esse alguém não é indiferente e é dotado de categorias de percepção, de esquemas classificatórios, de um gosto, que lhe permite estabelecer diferenças, discernir, distinguir. É nesse sentido que o homem enquanto um ser social, determinado por uma posição no mundo, pensa a partir dessa posição, pensa a partir de categorias.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. Trad. Sérgio Miceli. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. Trad. Cássia R. da Silveira e Denise M. Pegorin. São Paulo: Brasiliense, 2004

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Correa.  9° edição.  Campinas: Papirus, 2008.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre, RS: Zouk, 2015.

MARX, K & ENGELS, F. Ideologia Alemã. Lisboa. Editorial Presença, 1976.

NIETZSCHE, F.W. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo, Brasiliense, 1988.

SETTON, M. Indústria cultural: Bourdieu e a teoria clássica. Comunicação & Educação, São Paulo, V. 22, p.  26-36, set. /dez. 2001.  disponível em < http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/view/4505/4226> Acesso em Fevereiro de 2016.

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