A política como manipulação dos afetos

15100643665a01c0ee84434_1510064366_3x2_mdPor Michel Aires de Souza

     Em uma época de progresso no pensamento, onde o desenvolvimento técnico e cientifico possibilitou aos indivíduos uma maior compreensão do mundo, onde a racionalidade se elevou a todos os âmbitos da vida, o homem em vez de desenvolver um alto nível de consciência e de reflexão crítica, regrediu a um estado de barbárie.  A barbárie pode ser definida como a regressão da humanidade a estado de primitivismo. Estando a civilização em seu mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontram atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua época (ADORNO, 1995). Há um descompasso entre o nível material e espiritual alcançado de nossa civilização e as formas de consciência social. No Brasil vários acontecimentos demonstram essa asserção. O último acontecimento bárbaro foi a agressão a filósofa Judith Butler no aeroporto, por manifestantes de extrema direita, que a hostilizavam com palavras de baixo calão.  Ela foi agredida verbalmente e fisicamente.  Antes de chegar ao Brasil,  já existia uma petição anônima contra sua presença, provavelmente criada por grupos primitivos como MBL – Movimento Brasil Livre, ou pelo TFP – Trabalho Família e Propriedade, com mais de trezentos e sessenta mil assinaturas. O argumento contra sua presença era a de que ela promovia a “ideologia de gênero”, e que seria prejudicial para a educação das crianças. Esses manifestantes que a atacaram confundiam sexualidade com gênero, e gênero com ideologia. Acreditam que a identidade de gênero é imutável e não uma construção histórica e social. Em nome da Bíblia se colocam contra toda diversidade sexual.  A própria Judith Butler ironizou esses movimentos, afirmando que “o mundo que os conservadores querem destruir, o mundo gay, o mundo lésbico, o mundo feminista, já é muito poderoso. Eles não têm nenhuma chance de destruí-lo”.  Outro fato abominável foram os protestos de conservadores e religiosos contra o Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, depois de uma menina, acompanhada da sua mãe, ser filmada tocando no pé do artista fluminense Wagner Schwartz que se apresentou nu. O museu foi acusado de promover a pedofilia.  O fato é que a obra apresentada não tinha nenhum conteúdo erótico e tratava-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark.  Se esses grupos estivessem mesmo preocupados com a exposição de corpos nus para as crianças, eles estariam protestando contra as novelas, filmes e programas veiculadas na televisão ou fazendo protestos contra a pedofilia na Igreja católica.  Não é preciso muita reflexão para descobrir o que de  fato estava por trás dessas manifestações. Na realidade, enquanto o patrimônio brasileiro estava sendo vendido, as leis trabalhistas estavam sendo usurpadas, e a corrupção estava escancarada, esses grupos fascistas, como o MBL, subsidiados por grandes corporações, manipulavam os afetos dos indivíduos, apelando aos valores do cidadão de bem, da família e dos bons costumes.  A partir daí, vários acontecimentos inusitados ganharam espaço nos meios de comunicação de massa e nas redes sociais, como os protestos no MAM; o ataque a uma peça de teatro onde Jesus Cristo era representado por um transexual;  o debate em torno da permissão da justiça para tratar homossexuais por psicólogos; as discussões em torno da escola sem partido; a invasão de universidades públicas por grupos de direita contra o comunismo; o ataque a Paulo Freire como patrono da educação no Brasil; e o ataque a filósofa Judith Butler. Mas,  o que se torna preocupante nesses acontecimentos, é o apelo a impulsos inconscientes, irracionais e agressivos dos indivíduos, despertando o monstro do fascismo em nossa sociedade.

     Theodor Adorno já havia nos alertado em seu artigo “A massa”, que a manipulação dos afetos não surge de demagogos que estão à margem da sociedade, e que fazem o emprego abusivo de instrumentos técnicos de persuasão para obter a adesão das massas. Na realidade, esses demagogos já não correspondem à figura isolada de “tocador de tambor”, em que eles querem se arvorar, nem são simples loucos ou psicopatas que conseguem penetrar na vida normal dos indivíduos, mas são, na verdade, “expoentes de forças e interesses sociais mais poderosos, que conseguem predominar contra as massas e com a ajuda destas” (ADORNO, 1978, p.86).  Desse modo, não há dúvida quanto aos interesses econômicos de grandes corporações e do capital financeiro na manipulação dos afetos.  O golpe das elites no Brasil é prova disso. Com a ajuda dos meios de comunicação de massa, elas foram capazes de levar milhares de pessoas as ruas para se manifestarem contra a corrupção atrás de um pato gigante, gerando não somente sentimentos de ódio, mas de vergonha em relação ao governo PT. O fato é que o golpe ainda continua, uma vez que as elites buscam sua manutenção no poder. Contudo, agora a palavra de ordem não é mais a corrupção, mas é o apelo a moral e aos bons costumes.  A cada dia surge uma nova manifestação, onde grupos conservadores apelam aos sentimentos morais dos indivíduos, mobilizando recursos inconscientes para fins políticos. O que se pode notar nessas manifestações de intolerância é o visível estado de paranoia das pessoas. Elas possuem pensamentos delirantes e irracionais.  O que as motivam é a ideia obsessiva e neurótica de que há um complô contra os valores da família, da religião e dos bons costumes.  E essa paranoia tem cada vez mais contaminado a coletividade.

     Em suas pesquisas, Adorno (1978) observou que não existem métodos inteiramente seguros para seduzir as massas. O método varia com a disposição delas para serem seduzidas.  Os modernos recursos de comunicação de massa também não oferecem garantias para dominar os indivíduos. Eles não constituem, por si só, um perigo social. Para o frankfurtiano, são necessários três elementos para a manipulação: a predisposição, o estímulo e a reação.  Desse modo, já existem predisposições psíquicas nos indivíduos para a manipulação ideológica.  Essas predisposições são socialmente condicionadas.  Por exemplo, um indivíduo que tenha sido criado em um ambiente religioso tem muito mais predisposição a ser cooptado por discursos que apelem a família, a moral e aos bons costumes. Através de certos estímulos ele reage muito mais facilmente a propaganda fascista do que um indivíduo não religioso.  Do mesmo modo, o indivíduo que teve pais autoritários e uma educação disciplinar tem muito mais predisposição a ser cooptado pelo discurso autoritários e nacionalistas do que um indivíduo que não teve esse tipo de educação.  O fato é que a manipulação só é possível se ela utiliza recursos psicológicos inconscientes que estão na base dessas predisposições.

     Quando o indivíduo faz parte de um grupo ou de uma massa, ele perde totalmente suas características individuais.  As suas capacidades intelectuais, seu modo específico de pensar e agir se dissolvem, e os homens dariam livre curso aos seus instintos primitivos. A personalidade consciente desaparece e o inconsciente toma seu lugar. O indivíduo deixa de possuir um eu e age por sugestão, sendo influenciado pelo comportamento da massa. Essas características puderam ser notadas nas manifestações contra o governo Dilma. As pessoas nas manifestações agiam de forma irrefletida, pareciam estar possuídas: muitas gritavam, outras xingavam, algumas choravam de ódio, muitas mulheres ficaram totalmente nuas, vários homens mostravam as nádegas, outros dançavam, muitos estavam fantasiados e outros cantavam com forte emoção o hino nacional.   Essas experiências de catarse coletiva também puderam ser notadas em outras manifestações da direita fascista.

     Uma das características fundamentais desses indivíduos que protestaram contra o homem nu no MAM ou contra a palestra de Judith Butler é o extremo conservadorismo.  Essa tendência os leva a ser influenciado por políticos com discursos conservadores. É por esta razão que Jair Bolsonaro, político da extrema direita, ocupa o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para 2018. Ele comumente é chamado por seus eleitores de “Mito”. Esse fato é bastante significativo, pois demonstra processos inconscientes envolvidos na forte adesão a esse candidato.  Na teoria freudiana, a figura do líder representa o pai primordial amoroso e também autoritário de épocas primitivas.  Adorno em seus estudos sobre a personalidade autoritária também a entendeu como a volta do passado mítico reprimido do homem.  Quando o indivíduo faz parte de um grupo ou da massa, ele regrediria a um estado anterior de desenvolvimento, assemelhando-se a um ser primitivo. Com isso, ele seria fortemente influenciável não tanto por argumentos racionais, mas pelo prestígio do líder, a quem procura imitar.  A influência dos processos inconscientes torna-se fundamental, pois os instintos conservadores se fortalecem e os valores da tradição são defendidos com um alto grau de agressividade. Por isso, agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas um instrumento de interesses de grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideias do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo (ADORNO, 2006).

      Em seu livro Psicologia do grupo e análise do Ego, Freud (1996) avaliou que as ligações entre membros de um grupo são determinadas pela libido. Todos os indivíduos que fazem parte de uma coletividade têm a necessidade inconsciente de pertencer a uma comunidade harmoniosa, sendo felizes e amados por seus pares. Eles também possuem a necessidade de um líder que possam seguir.  Freud chegou a essa conclusão depois de ter analisado a igreja e o exército.  Em suas analises, ele percebeu que o líder é o segundo fator mais importante depois de Eros na unificação do grupo.  É por meio do líder que todos os membros de uma coletividade se identificam por relações de amor. O líder representa “o ideal do Ego” e tem o papel de autoconservação, da consciência moral e de repressão. Cabe ao líder, portanto, o controle das consciências do grupo. Ele une todos pela identificação uns com os outros e pela mesma percepção da realidade

     Crochik (2006) explica-nos que Adorno deriva da teoria freudiana um tipo de identificação, própria ao fascismo, que supõe o líder como representante do pequeno grande homem, ou seja, aquele que mesmo sendo igual a todos, tem mais força e consegue expressar desejos ligados às pulsões destrutivas, estimuladas pelas frustrações individuais que a sociedade acarreta. Destaca ainda o apelo da propaganda fascista à irracionalidade contida no inconsciente, o que é vislumbrado na constatação de que o indivíduo em massa se comporta de maneira regredida em comparação às suas ações fora das massas. A partir disso, o indivíduo quando faz parte de um grupo, torna um ser atomizado, alienado, que perde sua capacidade reflexiva, tornando-se suscetível a manipulação dos afetos.

     Em uma sociedade extremamente racionalizada, onde a vida dos indivíduos e a totalidade da existência é administrada, não há lugar para a espontaneidade subjetiva.  Na sociedade de massas não há lugar para a expressão da individualidade. O triunfo dos controles técnicos no mundo contemporâneo representa o triunfo de uma realidade que se confronta com o sujeito como algo absoluto e esmagador. A sobrevivência do homem depende de sua capacidade de adaptação as pressões que a sociedade exerce sobre ele. A vida de cada um deve ser submetida à racionalização e ao planejamento. Esse caráter opressor da civilização, que enclausura o indivíduo em uma realidade cada vez mais socializada, produz um grande mal-estar, que tem como resultado a liberação dos impulsos destrutivos contra a civilização. Desse modo, o enfraquecimento de todos na sociedade moderna, onde o Ego se torna debilitado, predispõe cada um a fragilidade subjetiva, para a capitulação na massa dos seguidores. A identificação seja com o coletivo ou com a figura superpoderosa do Líder, oferece ao indivíduo um substituto psicológico para o que, na realidade, lhe falta. (ADORNO, 1978). O que lhe falta, portanto, é sua própria capacidade de ser um indivíduo.  Daí o ódio e a agressividade que são  liberados em todas as manifestações fascistas.

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor W. A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista. Margem Esquerda: ensaios marxistas, n.7, 2006, p. 164-189.

ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação.  São Paulo: Paz e Terra, 1995.

HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W (Org). A Massa. In: Temas básicos da sociologia. São Paulo: editora Cultrix, 1978

CROCHIK, José Leon. Nota sobre o texto A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista, de T.W. Adorno. Margem Esquerda: ensaios marxistas, n.7, 2006, p. 159-163.

FREUD, Sigmund. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

5 comentários em “A política como manipulação dos afetos

  1. Lindo texto! Perfeita sua análise. Vivemos numa sociedade onde a massa é alienada e a mídia se impõem para manter seus privilégios.

  2. Excelente essa matéria, nos ajuda a ter mais racionalidade e menos ranço contra a impermanência de tudo que nos rodeia. Parabéns

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