Afinal, o que é o indivíduo na sociedade capitalista?

 

BEING-JOHN-MALKOVICH

Por Michel Aires de Souza

       A filosofia moderna desde sua origem concebeu o indivíduo como um ser acabado, pronto, fixo, como se tivesse uma essência dada a priori. No século XVII, o filósofo francês René Descartes vai ser o primeiro na modernidade a pensar o indivíduo como um eu lógico, autônomo e fechado em si mesmo.  A certeza do cogito inaugura a noção de indivíduo como um ser dotado de uma natureza fixa e racional. Posteriormente, Kant concebe o indivíduo como um eu transcendental, dotado de uma razão fundada em princípios a priori, que estabelece o humano como ser epistemológico e como sujeito moral. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Fichte concebe o eu como algo absoluto, e Husserl como consciência pura. Toda filosofia moderna pensou o indivíduo como um ser concreto, fechado e autossuficiente, independente das determinações sociais.

         Em seu ensaio sobre o Indivíduo, o pensador frankfurtiano Theodor Adorno (1978b) observou que essa concepção de indivíduo como um ser fixo e acabado surgiu muito antes da nascente filosofia moderna. Surgiu no século V da era cristã, com o teólogo italiano Boécio. A noção de indivíduo foi concebido como algo totalmente distinto da pessoa humana, como algo fechado em si mesmo, como se fosse uma unidade ou espírito, assim como a representação de Sócrates. Essa definição de um eu fechado em si, que não se pode dividir, perdurou até a época do liberalismo, onde o indivíduo era pensado como um ser absoluto, um ser em si.  Foi somente quando a filosofia se tornou ciência da sociedade que o indivíduo passou a ser pensado como um ser mediado socialmente. A filosofia começou a entender que a existência do homem era essencialmente convivência. Como ser social, o homem só poderia se definir a partir da convivência com outros indivíduos, e está convivência se expressava na figura da pessoa humana.

       Na avaliação de Adorno (1978b),  essa concepção de indivíduo como pessoa é algo fundamental para entendermos o que ele é de fato concretamente. Essa definição do homem como pessoa implica que, nas circunstâncias em que vive o indivíduo, e mesmo antes de ter consciência de si, ele deve representar determinados papeis na sociedade. Em consequência desses papéis, e em relação aos seus semelhantes, o homem torna-se aquilo que ele é: filho de uma mãe, aluno de um professor, membro de uma tribo, praticante de uma profissão.

       Em seu ensaio, Adorno (1978b) argumentou que a noção de indivíduo só pode ser compreendida a partir do contexto social. A ideia de pessoa humana corrobora para ele a relação intrínseca e indissolúvel do indivíduo com a sociedade. Isso porque, se quiséssemos prescindir desse caráter funcional da pessoa, para procurar em cada um o seu significado único e absoluto, não conseguiríamos chegar ao indivíduo puro, em sua singularidade indefinível, mas apenas a um ponto de referência sumamente abstrato, que só tem significado em relação ao contexto social. Desse modo, o indivíduo só pode se constituir mediado socialmente. Não há nenhum substrato, nenhuma essência fixa que pudesse defini-lo.  A própria pessoa como biografia só se constitui em sua relação vital com outras pessoas. A biografia é em sua essência uma categoria social.

         No seu ensaio Sociedade, Adorno (1978a) também mostrou que o indivíduo só pode se constituir em sua relação com o outro, mediado socialmente. Nesse sentido, ele definiu o conceito de sociedade como a soma de indivíduos singulares, onde uns dependem dos outros, e na qual o todo só pode subsistir em virtude da unidade das funções assumidas pelos seus membros,  a cada um dos quais se atribui, em princípio, uma tarefa funcional; e onde todos os indivíduos, por seu turno, estão condicionados, em grande parte, pela sua participação no contexto geral.

      Em todos os seus artigos onde é tratado a relação do indivíduo com a sociedade, Adorno procurou demonstrar que seria difícil compreender o indivíduo como algo isolado dos papéis sociais que ele representa. Em seu ensaio, Tempo Livre, ele afirmou que “não se pode traçar uma divisão tão simples entre as pessoas em si e seus assim chamados papéis sociais. Estes penetra profundamente nas próprias características das pessoas, em sua constituição íntima. Numa época de integração social sem precedentes, fica difícil estabelecer, de forma geral, o que resta nas pessoas, além do determinado pelas funções” (2009, p.62).

        Essa ideia de máscara social, onde os homens representam certos papéis sociais, tem uma função fundamental para o isolamento e a atomização dos indivíduos no mundo moderno. Na sociedade moderna, caracterizada pela forma universal da mercadoria, o indivíduo é obrigado a possuir uma função, cargo ou profissão se quiser sobreviver. Como ser consciente e autônomo, ele torna-se responsável por sua própria vida. É sua responsabilidade tornar-se aquilo que é. Por esta perspectiva, ele é um ser que age sem reflexão crítica, por instinto procurando se adaptar aos condicionamentos sociais.

         A teoria das mônadas de Leibniz ofereceu a Adorno um modelo conceitual para a visão individualista do homem concreto burguês. No aforismo “Mônada”, do livro Mínima Moralia, ele procurou compreender como a sociedade tem uma função fundamental para moldar o indivíduo segundo sua imagem e semelhança. Na sociedade moderna capitalista, o indivíduo se torna uma mônada isolada, que convive com outras mônadas, mas, ao mesmo tempo, está desconectadas delas, exercendo certos papéis sociais, sempre agindo na defesa de seus interesses para a sua autopreservação. Seu comportamento reflete a lei social da exploração econômica. Nas palavras do próprio Adorno: “O indivíduo deve a sua cristalização às formas da economia política, em especial à organização do mercado urbano. Ainda como oponente da pressão da socialização ele permanece seu mais autêntico produto e se lhe assemelha. Aquilo que a resistência lhe permite, cada gesto de independência, é gerado no interesse monadológico e no sedimento deste como caráter. Justamente na sua individualização o indivíduo reflete a lei social estabelecida da exploração, ainda quando mediada ao extremo” (ADORNO, 2008, p. 145)

        Segundo Moraes (2006), com a ideia de mônada Adorno pretendeu mostrar duas características da individualidade na sociedade administrada e no capitalismo tardio: primeiro, sua condição de “célula” isolada do contato “ativo” (pode-se dizer, consciente), com o meio social que está envolvido, bem como com as demais células que compõe este meio. Esta, em seu isolamento cego, traz em sua constituição a mediação social sob uma forma velada e, portanto, não reflexiva. Segundo, como átomo econômico individual da sociedade burguesa, a existência do indivíduo se deve ao mercado e as formas de economia política.

         Essa concepção do indivíduo como mônada surgiu com o desaparecimento das instituições que moldavam a individualidade no mundo medieval. Quando o indivíduo se livrou das amarras que o ligavam ao mundo da igreja católica, ele recaiu sob as garras das leis impessoais do mercado.  A exaltação do individualismo que tem suas origens na época do renascimento, e que se tornou palavra de ordem nos movimentos filosóficos do idealismo, no iluminismo e que viu seu apogeu na época do liberalismo significou na verdade a ruína da própria individualidade.  Para Adorno (2008), o desaparecimento do indivíduo no mercado significou a eliminação da própria individualidade e, com ela, sua resistência ao heterônomo. Isso porque, a exaltação do indivíduo autossuficiente como senhor de si mesmo, que age em nome de sua autopreservação produz um individualismo anárquico e desenfreado, no qual tudo é possível. Essa emancipação em vez de libertá-lo, rouba-lhe a força de ser livre, uma vez que, por mais real que possa ser o indivíduo na sua relação com os outros, concebido como absoluto, ele não passa de abstração. Ele não tem conteúdo algum que não seja socialmente constituído, nenhum impulso que transcenda a sociedade, que não seja dirigido a levar adiante a condição da sociedade.

              Na medida em que o indivíduo cai nas mãos das relações impessoais do mercado, ele se torna um modelo da gigantesca maquinaria econômica que o molda a sua imagem e semelhança. Quando o todo se dissolve no indivíduo, ele desaparece, torna-se um mero objeto social. Desse modo, a totalidade social “individualiza os homens unicamente para, isolados, poder quebra-los tanto mais completamente (ADORNO, 2008, p. 147). É por meio da totalidade opressora que o indivíduo se torna aquilo que ele é, um ser atomizado, fragmentado e alienado da totalidade social que o determina.  Esse processo pode ser definido como princípio social da individualização (principium individuationis).

       Na sociedade capitalista, portanto, o indivíduo surge determinado pelas relações impessoais do mercado. Ao socializar o indivíduo, a totalidade o individualiza pressionando o a ser de uma determinada forma. Nesse sentido, é a “crua realidade material que prende o humano na desumanidade” (ADORNO, 2008, p. 146).  O indivíduo como mônada social segue os princípios da autopreservação. A sociedade cria uma espécie de segunda natureza, obrigando os instintos regredirem a estágios antropologicamente anteriores da espécie humana. Nas palavras do próprio Adorno: “Rigorosamente falando, a socialização afeta o ‘homem’ como pretensa individualidade exclusivamente biológica, não tanto desde fora, mas, sobretudo, na medida em que envolve o indivíduo em sua própria interioridade e faz dele uma mônada da totalidade social. Nesse processo, a racionalização progressiva, como padronização do homem, faz-se acompanhar de uma regressão igualmente progressiva. O que outrora talvez acontecesse aos homens de fora para dentro, têm eles agora de sofrê-lo também no seu íntimo” (ADORNO, 1978a, p.40-1).

       O que é característico desse processo de individualização do homem que reflete as leis do mercado é o surgimento de uma nova figura antropológica: Os rackets. Hoje, “a modernidade capitalista não se dá mais a conhecer através de classes sociais e suas formas de organização, solidariedade, ethos e valores, mas encontra-se a margem da lei, como se constata nas práticas dos grupos, cliques ou gangues – os rackets” (MATOS, 2008, p. 149). Os rackets que dominam a sociedades são os exemplos mais acabados de mônadas sociais.  Eles se constituem como especialistas, managers de todo tipo, dirigente de sindicatos, políticos, engenheiros altamente qualificados, advogados, líderes empresariais e todo tipo de predador individualista que busca defender seus interesses dentro de grupos ou organizações.

     Adorno descreveu a figura dos Rackets como modelo de mônada social em uma passagem de Minima moralia. Segundo ele: “Se, como ensina uma teoria contemporânea, a sociedade é uma sociedade de rackets, então o seu modelo mais fiel é justamente o contrário do coletivo, a saber, o indivíduo como mônada. Na prossecução dos interesses absolutamente particulares de cada indivíduo é onde se pode estudar com maior precisão a essência do coletivo na sociedade falsa; e pouco falta para que, desde o princípio, se deva conceber a organização dos impulsos divergentes sob o primado do eu ajustado à realidade como uma íntima quadrilha de bandidos com chefe, séquito, cerimonial, juramentos, traições, conflitos de interesses, intrigas e tudo o mais (ADORNO, 2001, p. 35).

       Os rackets, como mônadas sociais isoladas, representam a imagem do mercado como exploração e pilhagem. São indivíduos que possuem uma mente manipuladora e fazem uso das pessoas como objetos para satisfazer seus interesses. Eles são desprovidos de sentimentos, parecem não possuir caráter moral, agindo sempre de forma dissimulada para adquirir algum benefício. Eles são enérgicos, agressivos e sempre estão envolvidos em conflitos para satisfazer seus desejos. Possuem uma mente reificada, uma vez que valorizam muito mais os bens materiais e simbólicos do que as relações humanas. Como avaliou o próprio Adorno: “Basta observar certas emoções em que o indivíduo se afirma energicamente contra o ambiente, como a raiva. O raivoso sempre se apresenta como líder de bando de si próprio” (2008, p. 41). Os racktes mimetizam a realidade se adaptando ao ambiente em que atuam para adquirir cargos, bens ou algum benefício. Eles seguem a lógica das circunstância, se adaptando como um camaleão ao meio ambiente ou aos grupos ou indivíduos que procuram influenciar. Para Adorno, os racktes personificam o princípio opressor da sociedade. Nesse sentido, aquilo que parece representar o mais individual, na verdade representa o mais geral (ADORNO, 2008).

      Na medida em que o ser humano só pode se definir como indivíduo mediado socialmente, suas características biológicas também passam a ser moldadas socialmente. O conceito de individuação biológica para Adorno (1978b) é tão abstrato e indeterminado que não pode expressar o que realmente os indivíduos são. É sem sombra de dúvidas que o conceito de indivíduo signifique algo mais do que apenas o seu ser biológico. A própria existência natural e biológica do ser humano já está mediatizado pelo gênero humano. Desse modo, não é possível um conhecimento do indivíduo se ele não for pensado do ponto de vista das determinações sociais e, portanto, do ponto de vista do seu ser social

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor. Tempo livre. In:________. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

ADORNO, Theodor. Minima Moralia: reflexões da vida lesada. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008.

ADORNO, Theodor. Minima Moralia. Lisboa: Edições 70, 2001

ADORNO, Theodor.  Sociedade. In: ADORNO, Theodor. Temas básicos de sociologia. São Paulo: Cultrix, 1978a.

ADORNO, Theodor.  Indivíduo. In: ADORNO, Theodor. Temas básicos de sociologia. São Paulo: Cultrix, 1978b.

MATOS, Olgária.  Transparência. In: AVRITZER, Leonardo et al. Corrupção: ensaios e críticas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

MORAES, Alexandre. Sobre a negatividade do conceito de indivíduo em Adorno: a resistência possível. Revista Psicologia. USP, vol.17 no.3 São Paulo jul./set. 2006. Disponível em < http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642006000300010> Acesso em Abril de 2018.

Um comentário em “Afinal, o que é o indivíduo na sociedade capitalista?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s