A política como manipulação dos afetos

15100643665a01c0ee84434_1510064366_3x2_mdPor Michel Aires de Souza

     Em uma época de progresso no pensamento, onde o desenvolvimento técnico e cientifico possibilitou aos indivíduos uma maior compreensão do mundo, onde a racionalidade se elevou a todos os âmbitos da vida, o homem em vez de desenvolver um alto nível de consciência e de reflexão crítica, regrediu a um estado de barbárie.  A barbárie pode ser definida como a regressão da humanidade a estado de primitivismo. Estando a civilização em seu mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontram atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua época (ADORNO, 1995). Há um descompasso entre o nível material e espiritual alcançado de nossa civilização e as formas de consciência social. No Brasil vários acontecimentos demonstram essa asserção. O último acontecimento bárbaro foi a agressão a filósofa Judith Butler no aeroporto, por manifestantes de extrema direita, que a hostilizavam com palavras de baixo calão.  Ela foi agredida verbalmente e fisicamente.  Antes de chegar ao Brasil,  já existia uma petição anônima contra sua presença, provavelmente criada por grupos primitivos como MBL – Movimento Brasil Livre, ou pelo TFP – Trabalho Família e Propriedade, com mais de trezentos e sessenta mil assinaturas. O argumento contra sua presença era a de que ela promovia a “ideologia de gênero”, e que seria prejudicial para a educação das crianças. Esses manifestantes que a atacaram confundiam sexualidade com gênero, e gênero com ideologia. Acreditam que a identidade de gênero é imutável e não uma construção histórica e social. Em nome da Bíblia se colocam contra toda diversidade sexual.  A própria Judith Butler ironizou esses movimentos, afirmando que “o mundo que os conservadores querem destruir, o mundo gay, o mundo lésbico, o mundo feminista, já é muito poderoso. Eles não têm nenhuma chance de destruí-lo”.  Outro fato abominável foram os protestos de conservadores e religiosos contra o Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, depois de uma menina, acompanhada da sua mãe, ser filmada tocando no pé do artista fluminense Wagner Schwartz que se apresentou nu. O museu foi acusado de promover a pedofilia.  O fato é que a obra apresentada não tinha nenhum conteúdo erótico e tratava-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark.  Se esses grupos estivessem mesmo preocupados com a exposição de corpos nus para as crianças, eles estariam protestando contra as novelas, filmes e programas veiculadas na televisão ou fazendo protestos contra a pedofilia na Igreja católica.  Não é preciso muita reflexão para descobrir o que de  fato estava por trás dessas manifestações. Na realidade, enquanto o patrimônio brasileiro estava sendo vendido, as leis trabalhistas estavam sendo usurpadas, e a corrupção estava escancarada, esses grupos fascistas, como o MBL, subsidiados por grandes corporações, manipulavam os afetos dos indivíduos, apelando aos valores do cidadão de bem, da família e dos bons costumes.  A partir daí, vários acontecimentos inusitados ganharam espaço nos meios de comunicação de massa e nas redes sociais, como os protestos no MAM; o ataque a uma peça de teatro onde Jesus Cristo era representado por um transexual;  o debate em torno da permissão da justiça para tratar homossexuais por psicólogos; as discussões em torno da escola sem partido; a invasão de universidades públicas por grupos de direita contra o comunismo; o ataque a Paulo Freire como patrono da educação no Brasil; e o ataque a filósofa Judith Butler. Mas,  o que se torna preocupante nesses acontecimentos, é o apelo a impulsos inconscientes, irracionais e agressivos dos indivíduos, despertando o monstro do fascismo em nossa sociedade.

     Theodor Adorno já havia nos alertado em seu artigo “A massa”, que a manipulação dos afetos não surge de demagogos que estão à margem da sociedade, e que fazem o emprego abusivo de instrumentos técnicos de persuasão para obter a adesão das massas. Na realidade, esses demagogos já não correspondem à figura isolada de “tocador de tambor”, em que eles querem se arvorar, nem são simples loucos ou psicopatas que conseguem penetrar na vida normal dos indivíduos, mas são, na verdade, “expoentes de forças e interesses sociais mais poderosos, que conseguem predominar contra as massas e com a ajuda destas” (ADORNO, 1978, p.86).  Desse modo, não há dúvida quanto aos interesses econômicos de grandes corporações e do capital financeiro na manipulação dos afetos.  O golpe das elites no Brasil é prova disso. Com a ajuda dos meios de comunicação de massa, elas foram capazes de levar milhares de pessoas as ruas para se manifestarem contra a corrupção atrás de um pato gigante, gerando não somente sentimentos de ódio, mas de vergonha em relação ao governo PT. O fato é que o golpe ainda continua, uma vez que as elites buscam sua manutenção no poder. Contudo, agora a palavra de ordem não é mais a corrupção, mas é o apelo a moral e aos bons costumes.  A cada dia surge uma nova manifestação, onde grupos conservadores apelam aos sentimentos morais dos indivíduos, mobilizando recursos inconscientes para fins políticos. O que se pode notar nessas manifestações de intolerância é o visível estado de paranoia das pessoas. Elas possuem pensamentos delirantes e irracionais.  O que as motivam é a ideia obsessiva e neurótica de que há um complô contra os valores da família, da religião e dos bons costumes.  E essa paranoia tem cada vez mais contaminado a coletividade.

     Em suas pesquisas, Adorno (1978) observou que não existem métodos inteiramente seguros para seduzir as massas. O método varia com a disposição delas para serem seduzidas.  Os modernos recursos de comunicação de massa também não oferecem garantias para dominar os indivíduos. Eles não constituem, por si só, um perigo social. Para o frankfurtiano, são necessários três elementos para a manipulação: a predisposição, o estímulo e a reação.  Desse modo, já existem predisposições psíquicas nos indivíduos para a manipulação ideológica.  Essas predisposições são socialmente condicionadas.  Por exemplo, um indivíduo que tenha sido criado em um ambiente religioso tem muito mais predisposição a ser cooptado por discursos que apelem a família, a moral e aos bons costumes. Através de certos estímulos ele reage muito mais facilmente a propaganda fascista do que um indivíduo não religioso.  Do mesmo modo, o indivíduo que teve pais autoritários e uma educação disciplinar tem muito mais predisposição a ser cooptado pelo discurso autoritários e nacionalistas do que um indivíduo que não teve esse tipo de educação.  O fato é que a manipulação só é possível se ela utiliza recursos psicológicos inconscientes que estão na base dessas predisposições.

     Quando o indivíduo faz parte de um grupo ou de uma massa, ele perde totalmente suas características individuais.  As suas capacidades intelectuais, seu modo específico de pensar e agir se dissolvem, e os homens dariam livre curso aos seus instintos primitivos. A personalidade consciente desaparece e o inconsciente toma seu lugar. O indivíduo deixa de possuir um eu e age por sugestão, sendo influenciado pelo comportamento da massa. Essas características puderam ser notadas nas manifestações contra o governo Dilma. As pessoas nas manifestações agiam de forma irrefletida, pareciam estar possuídas: muitas gritavam, outras xingavam, algumas choravam de ódio, muitas mulheres ficaram totalmente nuas, vários homens mostravam as nádegas, outros dançavam, muitos estavam fantasiados e outros cantavam com forte emoção o hino nacional.   Essas experiências de catarse coletiva também puderam ser notadas em outras manifestações da direita fascista.

     Uma das características fundamentais desses indivíduos que protestaram contra o homem nu no MAM ou contra a palestra de Judith Butler é o extremo conservadorismo.  Essa tendência os leva a ser influenciado por políticos com discursos conservadores. É por esta razão que Jair Bolsonaro, político da extrema direita, ocupa o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para 2018. Ele comumente é chamado por seus eleitores de “Mito”. Esse fato é bastante significativo, pois demonstra processos inconscientes envolvidos na forte adesão a esse candidato.  Na teoria freudiana, a figura do líder representa o pai primordial amoroso e também autoritário de épocas primitivas.  Adorno em seus estudos sobre a personalidade autoritária também a entendeu como a volta do passado mítico reprimido do homem.  Quando o indivíduo faz parte de um grupo ou da massa, ele regrediria a um estado anterior de desenvolvimento, assemelhando-se a um ser primitivo. Com isso, ele seria fortemente influenciável não tanto por argumentos racionais, mas pelo prestígio do líder, a quem procura imitar.  A influência dos processos inconscientes torna-se fundamental, pois os instintos conservadores se fortalecem e os valores da tradição são defendidos com um alto grau de agressividade. Por isso, agitação fascista está centrada na ideia do líder, não importando se ele lidera de fato ou se é apenas um instrumento de interesses de grupo, porque apenas a imagem psicológica do líder é apta a reanimar a ideias do todo-poderoso e ameaçador pai primitivo (ADORNO, 2006).

      Em seu livro Psicologia do grupo e análise do Ego, Freud (1996) avaliou que as ligações entre membros de um grupo são determinadas pela libido. Todos os indivíduos que fazem parte de uma coletividade têm a necessidade inconsciente de pertencer a uma comunidade harmoniosa, sendo felizes e amados por seus pares. Eles também possuem a necessidade de um líder que possam seguir.  Freud chegou a essa conclusão depois de ter analisado a igreja e o exército.  Em suas analises, ele percebeu que o líder é o segundo fator mais importante depois de Eros na unificação do grupo.  É por meio do líder que todos os membros de uma coletividade se identificam por relações de amor. O líder representa “o ideal do Ego” e tem o papel de autoconservação, da consciência moral e de repressão. Cabe ao líder, portanto, o controle das consciências do grupo. Ele une todos pela identificação uns com os outros e pela mesma percepção da realidade

     Crochik (2006) explica-nos que Adorno deriva da teoria freudiana um tipo de identificação, própria ao fascismo, que supõe o líder como representante do pequeno grande homem, ou seja, aquele que mesmo sendo igual a todos, tem mais força e consegue expressar desejos ligados às pulsões destrutivas, estimuladas pelas frustrações individuais que a sociedade acarreta. Destaca ainda o apelo da propaganda fascista à irracionalidade contida no inconsciente, o que é vislumbrado na constatação de que o indivíduo em massa se comporta de maneira regredida em comparação às suas ações fora das massas. A partir disso, o indivíduo quando faz parte de um grupo, torna um ser atomizado, alienado, que perde sua capacidade reflexiva, tornando-se suscetível a manipulação dos afetos.

     Em uma sociedade extremamente racionalizada, onde a vida dos indivíduos e a totalidade da existência é administrada, não há lugar para a espontaneidade subjetiva.  Na sociedade de massas não há lugar para a expressão da individualidade. O triunfo dos controles técnicos no mundo contemporâneo representa o triunfo de uma realidade que se confronta com o sujeito como algo absoluto e esmagador. A sobrevivência do homem depende de sua capacidade de adaptação as pressões que a sociedade exerce sobre ele. A vida de cada um deve ser submetida à racionalização e ao planejamento. Esse caráter opressor da civilização, que enclausura o indivíduo em uma realidade cada vez mais socializada, produz um grande mal-estar, que tem como resultado a liberação dos impulsos destrutivos contra a civilização. Desse modo, o enfraquecimento de todos na sociedade moderna, onde o Ego se torna debilitado, predispõe cada um a fragilidade subjetiva, para a capitulação na massa dos seguidores. A identificação seja com o coletivo ou com a figura superpoderosa do Líder, oferece ao indivíduo um substituto psicológico para o que, na realidade, lhe falta. (ADORNO, 1978). O que lhe falta, portanto, é sua própria capacidade de ser um indivíduo.  Daí o ódio e a agressividade que são  liberados em todas as manifestações fascistas.

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor W. A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista. Margem Esquerda: ensaios marxistas, n.7, 2006, p. 164-189.

ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação.  São Paulo: Paz e Terra, 1995.

HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W (Org). A Massa. In: Temas básicos da sociologia. São Paulo: editora Cultrix, 1978

CROCHIK, José Leon. Nota sobre o texto A teoria freudiana e o padrão de propaganda fascista, de T.W. Adorno. Margem Esquerda: ensaios marxistas, n.7, 2006, p. 159-163.

FREUD, Sigmund. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Afinal, qual é o grande legado do governo PT?

Por Michel Aires de Souza

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          Não podemos negar que o Estado nunca se identificou com a comunidade, uma vez que seu objetivo, até então, sempre foi perpetuar e manter a exploração de classe de forma legal. No Brasil, o aparato estatal sempre foi um instrumento a serviço das oligarquias. Nós herdamos do regime militar o Estado burocrático weberiano. A administração burocrática surgiu das necessidades impostas pela industrialização na década de 50.  Com isso, o Estado desponta como um grande leviatã autoritário, centralizador, patrimonialista, clientelista, economicamente concentrado, onde não há participação popular, transparência e uma proposta de mudança concreta de suas estruturas. Essa situação não se modificou com o advento dos governos civis. A reforma gerencial nos governos neoliberais deu origem a um Estado menos burocrático e centralizador, transferiu recursos e atribuições para níveis locais e regionais. Contudo, apesar do Estado se tornar mais eficiente, ele não foi capaz de resolver as demandas e as reivindicações sociais. Ao contrário, o Estado neoliberal serviu apenas a classe proprietária, para desenvolver a infraestrutura econômica e produtiva necessárias para o acúmulo do capital e perpetuar cada vez mais as desigualdades sociais. Eram partes da agenda política neoliberal as privatizações, a desnacionalização da economia, a subordinação ao mundo globalizado, a desregulamentação e a liberalização dos mercados. Nesse sentido, o Estado sempre foi condicionado pelo ambiente econômico. Os interesses econômicos e de classe sempre estiveram acima de quaisquer reivindicações populares.

        Mas, nos últimos 13 anos do governo PT,  vimos surgir um Estado capaz de atender as novas demandas por direitos e cidadania. A proteção dos mais fracos e mais pobres começou a fazer parte da agenda política. O que se começou a recuperar foi o verdadeiro espírito do Estado Democrático de Direito. Nesse sentido, o PT foi capaz de perceber as reivindicações da população, que sente os problemas que enfrenta de acordo com sua própria percepção da realidade.  A partir disso, 36 milhões de pessoas deixaram de passar fome, 42 milhões passaram a fazer parte da classe média. A desigualdade social diminuiu. A população mais pobre começou a entrar na universidade, começou a andar de avião e a comprar casa e carro com maior facilidade. Várias políticas sociais como Bolsa Família; Minha Casa, Minha Vida; Saúde não tem preço; Rede cegonha; Mais Médicos; Brasil Carinhoso; Prouni; Fies; Pronatec; Ciência sem Fronteiras; Água para todos e Luz para todos; surgiram para sanar as demandas reivindicadas pela população mais pobre.

       Mas não foram somente as políticas sociais que se tornaram a marca do governo petista. Houve uma grande modernização da administração pública para torná-la mais eficiente. No âmbito da união, foi criado o Programa Nacional de Apoio à Modernização da Gestão e do Planejamento dos Estados e do Distrito Federal (PNAGE). Também foi criado o Programa de Modernização do Sistema de Controle Externo dos Estados e Municípios Brasileiros (PROMOEX). Esses dois projetos tiveram como objetivo modernizar a administração pública das instâncias subnacionais, particularmente no nível estadual, priorizando a reconstrução da administração pública em suas variáveis vinculadas ao planejamento, aos recursos humanos, à sua interconexão com as políticas públicas e ao entendimento dos cidadãos.  (ABRUCIO, 2007)

        Para combater a corrupção foram tomadas diversas medidas. A Controladoria Geral da União foi remodelada e ganhou status de ministério, ela se tornou um importante instrumento de eficiência no combate à corrupção. Foram criados o Portal Transparência e a Comissão de Combate à Lavagem de Dinheiro. Foram aprovadas a Lei de Ficha Limpa e a Lei de Acesso a Informação.  Houve também a reestruturação da Policia Federal, que foi modernizada, ganhando mais autonomia e intensificando seu trabalho no combate a corrupção.  Mas a ferramenta mais importante foi a criação do governo eletrônico. Esse instrumento democratizou o acesso à informação e dinamizou a prestação de serviços públicos, com foco na eficiência e efetividade das funções governamentais. As compras governamentais se tornaram muito mais eficientes e transparentes. Isso ajudou enormemente a reduzir e a combater a corrupção.

      O governo petista também foi extremamente progressista ao tentar criar mecanismos de participação popular nas questões públicas. A participação direta dos indivíduos na política é um instrumento importante para a responsabilização (accountability), transparência e elaboração das políticas públicas.  Para fazer isso, efetivamente, o PT instituiu a “Política Nacional de Participação Social” , que estimula a participação dos conselhos, entidades sociais, organizações civis, movimentos sociais e da população nas medidas do governo. O objetivo do decreto era fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil. Todos nós sabemos que não há democracia sem participação e soberania popular. A democracia representativa, em que os indivíduos elegem representantes a quem delega o poder para tomar as decisões, é frágil. Na prática não representam o povo, uma vez que o legislativo é composto por várias bancadas das oligarquias, como a bancada rural ou a bancada de empresários. Os interesses defendidos por essas bancadas são os interesses de classe e não os da soberania popular. Por esta razão, esse decreto representou um instrumento imprescindível para lutar contra as forças que nos dominam e faz do Estado um instrumento na mão dos poderosos. Contudo, o decreto foi derrubado pelas oligarquias junto com a ajuda da grande mídia.  Esse foi um grande retrocesso no empoderamento das classes populares e um grande retrocesso para a democracia.

     Não podemos negar que o Estado que herdamos do regime militar e dos neoliberais deu lugar ao um Estado de Bem-Estar Social no governo PT. É claro que há muitos problemas a serem superados nesse modelo. Mas um grande passo foi dado no caminho para a igualdade e justiça social. Pela primeira vez as necessidades e demandas sociais começaram a ser satisfeitas. Contudo, o governo petista se manteve na mesma prática do fisiologismo e do clientelismo, não foi capaz de fazer uma verdadeira reforma política. O resultado disso foi sua derrocada.

   O que é necessário hoje para superar a crise de legitimidade que estamos experimentando  é uma ampla conscientização e mobilização da população para uma ampla reforma política,  que mude essa relação promíscua entre as empresas e os políticos no financiamento das campanhas, que é responsável por grande parte da corrupção no país.

Bibliografia.

DAGNINO, Renato. P. Planejamento Estratégico Governamental. 2012. UFSC. Disponível em <http://cegpm.virtual.ufpb.br/wp-content/uploads/2013/07/PLANEJAMENTO-ESTRAT%C3%89GICO-GOVERNAMENTAL.pdf > Acesso em maio de 2017.

ABRUCIO, Fernando L. Trajetória da gestão pública brasileira: um balanço crítico e a renovação da agenda de reformas. Rio de Janeiro: Rap, 2007. Disponível em <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=241016441005&gt; Acesso em maio de 2017.

A crise de legitimidade política no Brasil.

Por Michel Aires de Souza

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     O Brasil vive hoje uma crise de legitimidade. O golpe branco que teve grande respaldo da mídia, e empregou meios legais, sem usar a violência, colocou no poder um conjunto de operadores representantes do grande capital financeiro e do empresariado nacional. O objetivo maior desse processo é o desmonte do Estado-Nação, que visa colocar as grandes corporações no comando do Estado e abrir caminho para o a desregulamentação das leis trabalhistas. Como avaliou Bresser Pereira (2017), “no conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em déficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual”.   O que se busca é a retomada da dependência do Brasil, que historicamente sempre foi uma colônia e que, por interesses externos, deve continuar sendo.  A destruição das empreiteiras foi o primeiro setor a ser atacado, devido as grandes demandas das empreiteiras internacionais, que perderam mercado com a crise da economia mundial. O setor de embutidos e carnes, assim como o setor do petróleo também estão sendo desmontados. Estamos experimentando apenas o começo desse processo, não sabemos ainda quais rumos serão tomados.

  Os interesses por trás do golpe são geopolíticos, uma vez que o Brasil estava despontando no mercado internacional fora do controle de Washington, estabelecendo relações econômicas com a África, Oriente Médio e com os seus vizinhos da América do Sul. Com isso, deixou de se integrar a Alca – Área de Livre Comércio das Américas e fortaleceu o Mercosul – Mercado Comum do Sul.  O Brasil também foi protagonista ao ajudar a integrar os países da América do Sul, por meio da criação da UNASUL – União das Nações Sul-Americanas, e criou o Banco dos BRICS, que se tornou uma alternativa ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial.  Nesses últimos anos o Brasil foi capaz de fortalecer o Estado-Nação, e foi modelo para toda América Latina. Ele também se tornou uma grande força econômica que se opôs ao poder Norte-Americano em toda América. A retomada da hegemonia americana tem como corolário a destruição dos governos de esquerda na América do Sul e o Brasil é seu maior representante.

     Hoje, há dois modelos de política que estão em conflito em nosso país. O primeiro, é o Estado Social, que fortalece a soberania nacional, que é agente de promoção e justiça social, defendendo a população pobre, combatendo a desigualdade, distribuindo renda, aumentando os recursos para a saúde, educação e cultura. O segundo, é o Estado Neoliberal, que quer destruir o Estado-Nação, subjugando o Brasil as forças imperialistas, que toma os nossos recursos naturais, destrói a indústria nacional, privatiza educação e a saúde, que não investe em políticas sociais, que entrega a previdência social aos bancos, e que precariza o trabalho para tornar nossa população mão de obra semiescrava.

   Para destruir o Estado-Nação, o atual governo está a serviço da liquidação do pacto-social, colocando fim a constituição cidadã de 1988.  Segundo Bresser Pereira (2017), buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobrás, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.  O sentimento de nacionalidade está fragilizado, pois o Estado como garantidor dos direitos sociais, que protege os direitos trabalhistas, que se preocupa com a saúde e educação da população, que se preocupa com os direitos humanos está cedendo lugar a lógica do capital. É a completa extinção de um projeto nacional.

    Com o neoliberalismo o Estado como provedor de bens e serviços sociais perde sua função e é capturado por interesses privados.  Sob o neoliberalismo realizam-se a desregulamentação das atividades econômicas, a privatização das empresas produtivas estatais, a privatização das organizações e instituições governamentais relativas à habitação, aos transportes, à educação, à saúde e à previdência. O poder estatal é liberado de todo e qualquer empreendimento econômico ou social que possa interessar ao capital privado nacional e transnacional. Tudo isto baseado no suposto de que a gestão pública ou estatal de atividades direta e indiretamente econômicas é pouco eficaz, ou simplesmente ineficaz. (IANNI, 1988)

    A crise no Brasil de legitimidade é parte de uma crise muito maior, que tem sua raiz no divórcio entre poder e política. A Globalização tem contribuído para essa cisão. O poder está hoje nas mãos das corporações privadas, que tem um papel fundamental nos rumos da política de Estado.  É muito comum que uma ação de uma grande corporação tenha mais impacto em uma Nação do que uma ação governamental.   O Estado está se tornando impotente frente as demandas das grandes corporações, principalmente as ligadas ao capital financeiro.  Desse modo, cada vez mais as possibilidades de mudanças e transformações via instituições políticas têm se reduzido. A grande consequência disso é a perpétua desconfiança nas instituições políticas. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman (2014) em uma entrevista comentou sobre essa crise de legitimidade. Em sua opinião, com a separação do poder e política,  nós nos encontramos na dupla situação de poderes livres do controle político e da política que sofre o déficit perpétuo do poder. Daí a crise de confiança nas instituições políticas, uma vez que a política investiu nos parlamentos e nos partidos para construir a democracia como atualmente a compreendemos. Mais e mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas. Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva.

      O senador brasileiro Roberto Requião (2016) usou uma metáfora para expressar tudo o que está acontecendo no Brasil. Segundo ele, o Estado, hoje, sofre um ataque brutal, a partir da ação de Mamon.  Mamon em hebraico, significa dinheiro, não é nem deus, nem diabo, é o dinheiro, assim descrito na Bíblia. Mamom tenta recuperar os seus espaços perdidos com o avanço do Estado de Bem-Estar Social. Seu projeto tem um tripé: o primeiro deles, é a fragilização do Estado, com a autonomia dos bancos centrais. Uma proposta onde o Estado se resume a um gendarme, um guardião que se oporá às revoltas populares diante da exploração do capital. O segundo objetivo é a precarização do Parlamento, com o domínio absoluto do capital financeiro, que se coloca acima dos partidos, financia campanhas, partidos políticos e candidatos, e os Parlamentares se transformam em mandaletes dos interesses do capital vadio. Não tem mais ideologia, não tem ideal, não tem patriotismo, não tem nenhum sentimento de nacionalidade. E o terceiro objetivo é bem claro, é a precarização do trabalho, o fim das leis trabalhistas.  É o fim, portanto, de um projeto nacional. É a valorização absoluta do dinheiro.

Bibliografia

BAUMAN, Zigmunt  Zigmunt Bauman: vivemos o fim do futuro. Revista Época. 19.02.2014. Entrevista concedida a Luiz Antônio Giron. Disponível em <http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/02/bzygmunt-baumanb-vivemos-o-fim-do-futuro.html>. Acesso em abril de 2017

BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos (2017). Manifesto do Projeto Brasil Nação. Disponível em <http://bresserpereira.org.br/manifesto.asp> Acesso em Abril de 2017.

 REQUIÃO, Roberto (2016). Roberto Requião: a extinção de um projeto nacional. Disponivel em <http://www.viomundo.com.br/denuncias/roberto-requiao-a-extincao-de-um-projeto-nacional.html> Acesso em Abril de 2017.

IANNI, Octavio (1998). Globalização e Neoliberalismo.  São Paulo em Perspectiva. Disponível em <http://produtos.seade.gov.br/produtos/spp/v12n02/v12n02_03.pdf>   Acesso em maio de 2015.

Pierre Bourdieu: espaço social e a construção da nossa visão de mundo

Por Michel Aires de Souza

661103-970x600-1     Em sua sociologia, Bourdieu não pensa o sujeito nem de forma isolada, como um ser autônomo, consciente, com um conjunto de características e qualidades particulares e nem determinado mecanicamente por leis objetivas, que comandam todo o comportamento humano. Ele procura compreender o sujeito historicamente através de suas determinações sociais.   Em seus escritos, ele utiliza pouco a palavra sujeito, em seu lugar, encontra-se de modo mais frequente a palavra agente, entendido como aquele que age. Em sua opinião, cada agente se constitui a partir de uma bagagem socialmente adquirida, se constitui a partir da incorporação das estruturas sociais, sob a forma de estruturas de disposições. O agente é compreendido como um “habitus”, como um sistema de disposições herdados.  Nesse sentido, a gênese das estruturas mentais surge da incorporação das estruturas objetivas do mundo social.

     É vivendo em sociedade que o agente assimila as normas, regras, valores, preceitos, ações e comportamentos de seu grupo ou classe social.  É por meio do habitus que desenvolve sua visão de mundo, pelo qual se guia, percebe e julga a realidade.  É por meio dele que o agente se torna um ser social. O habitus pode ser entendido como uma forma de condicionamento, que cria um sistema de disposições duradouras para a ação, organizadora de práticas, esquemas de percepção e representação, geradora de princípios e valores interiorizados, que regula a conduta dos agentes na estrutura social. Segundo Setton (2001), a noção de habitus pode ser pensada como uma identidade social, uma experiência biográfica, um sistema de orientação. Nesse sentido, é uma matriz cultural que predispõe os indivíduos a fazerem suas escolhas.

        O corpo tem um papel fundamental na construção da identidade social do indivíduo. É através do corpo que o agente entra em relação com o mundo e é afetado por ele. O agente ao ocupar um lugar no espaço social possui uma compreensão desse mundo, porque desde sua origem foi exposto as suas influências. É através da posição social que adquire um sistema de disposições para a ação e para compreensão prática do mundo.  Na concepção de Bourdieu (2001), o indivíduo como um ser abstrato, intercambiável, sem qualidades, também se constitui como agente real, ou seja, enquanto habitus, com sua história, suas propriedades incorporadas, tendo a propriedade de estar aberto e exposto ao mundo. Nesse sentido, é condicionado e moldado pelas condições materiais e culturais de existência. O corpo disposto no espaço social está sujeito a um processo de socialização, cujo produto é a própria individuação, a singularidade do “eu”, sendo forjada nas e pelas relações sociais.

    Nietzsche (1988) já havia concebido a origem do sujeito no terreno dos acontecimentos históricos, a partir de relações de força, a partir das relações de poder. O corpo se torna visível e um efeito dos embates de forças. Marx  (1976) já havia pensado o sujeito a partir das suas condições materiais de existência. O ser do homem se constitui a partir de seu ser social.  Desse modo, é o corpo que é afetado no interior das práticas sociais, seja por condições econômicas, seja por relações de poder.  Na teoria bourdieusiana, o corpo do indivíduo biológico está situado em um lugar, topos, ocupando uma posição no espaço físico e no espaço social.   O espaço social é uma estrutura de justaposição de posições sociais, é o lugar da exclusão mútua, é o lugar das distinções, das relações de força e poder. A busca da distinção no espaço social é o motor de toda conduta humana.

     Segundo a teoria topológica de Bourdieu (2004), o espaço social é determinado por estruturas sociais objetivas, ou seja, por uma multiplicidade de campos sociais, independente da consciência e da vontade dos indivíduos, mas que são capazes de orientar suas práticas e representações.  Nesse sentido, há uma gênese social da nossa visão de mundo, dos nossos modos de perceber, pensar e agir.  A sociologia relacional deste pensador tem como objeto de estudo as redes de interações e os sistemas de relações entre os indivíduos e classes sociais.

     A sociedade atual não está fundada em relações fixas, numa hierarquia de prestígios como no Antigo Regime, onde o clero, a nobreza e os servos tinham papéis definidos pela hierarquia social. No capitalismo os indivíduos e os grupos são definidos por sua posição relativa no espaço social. O espaço social é hierarquizado pela desigual distribuição de capitais. São as condições materiais de existência que definem a posição de cada indivíduo, grupo ou classe no espaço social. Desse modo, o poder e o prestígio surgem e se constituem a partir da posição que o indivíduo ocupa na estrutura social.  Não se trata, portanto, de uma hierarquia piramidal, mas de um espaço social multidimensional, hierarquizados por uma pluralidade de capitais.  O espaço social é construído de modo que os agentes ou os grupos são distribuídos segundo dois princípios de diferenciação simbólica, que são o capital econômico e o capital cultural. Quanto mais próximos os agentes estiverem entre essas duas posições mais gostos, formas de pensar e qualidades em comum eles devem ter

    Existe uma homologia entre espaço social e o espaço físico. Todas as diferenças no espaço social podem ser retraduzidas no espaço físico. O indivíduo que mora em um bairro nobre possui grande probabilidade de ocupar uma alta posição na hierarquia social. Ser da alta sociedade é ocupar altas esferas do mundo social.  Frequentar restaurantes caros, lojas de altas grifes, clubes privados e ocupar lugares reservados em eventos caracteriza simbolicamente a posição social do seu usuário. Do mesmo modo, os frequentadores de um boteco, de uma loja de produtos baratos, de um show de música popular também são caracterizados simbolicamente por sua posição no espaço social.          Na sociedade capitalista, o espaço físico é um local de segregação.  Os indivíduos providos de maior capital econômico são “devoradores de espaços”. Eles possuem grandes propriedade, assim como ocupam os lugares mais bem localizados e cobiçados pelas elites. Em uma mesma avenida de um grande centro urbanos podemos notar lojas, restaurantes, supermercados e espaços de lazer frequentados apenas pela alta burguesia. No espaço físico não existe ninguém que não seja caracterizado pelo lugar em que está situado.  O indivíduo desprovido de um domicilio ou de um lugar fixo para morar é um ser desprovido de existência social.

     As representações e os interesses dos indivíduos variam segundo sua posição ocupada no espaço social e segundo seu habitus como sistema de esquemas de percepção e apreciação.  Bourdieu (2008) concebe o habitus como princípios geradores de práticas distintas e distintivas, o que o operário come, e sobretudo sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e sua maneira de expressá-las, que são muito diferentes do consumo e das atividades de um empresário industrial. O habitus são também esquemas classificatórios, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes. Eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e o que é mau, entre o que é distinto e o que é vulgar. Assim, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.

     É também a partir da nossa posição social que tomamos certas posições políticas. Ser de esquerda ou de direita depende da nossa posição na estrutura social. Nesse sentido, há uma grande propensão de empresários e comerciantes serem de direita e professores e trabalhadores serem de esquerda. Mas a nossa escolha política vai depender das disposições que herdamos em nossa trajetória histórica. Se acreditamos que o Estado deve interferir na economia e na vida dos indivíduos para o bem-estar social, colocando os interesses coletivos acima dos particulares, isso vai depender das nossas disposições herdadas. Do mesmo modo, se acreditamos na liberdade individual, na meritocracia e no livre mercado sem a interferência do Estado, isso também vai depender das disposições que herdamos em nossa trajetória histórica.

       É a partir das práticas diferenciadas, dos bens que se possui, das categorias sociais de percepção, das opiniões expressas,  que surgem as distinções de classe e as diferenças simbólicas,  constituindo uma verdadeira linguagem social. Segundo Bourdieu (2008), as diferenças associadas a posições diferentes, isto é, os bens, as práticas e sobretudo as maneiras, funcionam em cada sociedade, como diferenças constitutivas de sistemas simbólicos, como conjunto de fonema de uma língua ou o conjunto de traços diferenciais de um sistema mítico. Desse modo, existir em um espaço, ser um ponto, é diferir, ser diferente, é ser distintivo, ser significativo se opondo ao que é insignificante. Em termos práticos, isso significa morar no bairro nobre ou em um bairro popular, gostar de futebol ou hipismo, beber cerveja ou vinho, possuir uma Ferrari ou um fusca, ser magro ou gordo, ser alto ou baixo, ter pele branca ou negra, etc. Para Bourdieu (2008), só se torna uma diferença visível, perceptível, se ela é percebida por alguém capaz de estabelecer a diferença, já que está inscrita no espaço em questão, esse alguém não é indiferente e é dotado de categorias de percepção, de esquemas classificatórios, de um gosto, que lhe permite estabelecer diferenças, discernir, distinguir. É nesse sentido que o homem enquanto um ser social, determinado por uma posição no mundo, pensa a partir dessa posição, pensa a partir de categorias.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. Trad. Sérgio Miceli. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

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BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Correa.  9° edição.  Campinas: Papirus, 2008.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre, RS: Zouk, 2015.

MARX, K & ENGELS, F. Ideologia Alemã. Lisboa. Editorial Presença, 1976.

NIETZSCHE, F.W. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo, Brasiliense, 1988.

SETTON, M. Indústria cultural: Bourdieu e a teoria clássica. Comunicação & Educação, São Paulo, V. 22, p.  26-36, set. /dez. 2001.  disponível em < http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/view/4505/4226> Acesso em Fevereiro de 2016.

Educação e Emancipação em Adorno

Por Michel Aires de Souza

adorno1Adorno detectou que a formação no mundo contemporâneo  reproduz os valores, o imaginário e as condições sociais dominantes do sistema cultural.  Na falta de uma consciência crítica a realidade política, econômica e social determina o indivíduo em seu íntimo, naquilo que deveria ser o núcleo de sua autonomia.  Desse modo, o sujeito passa a ser determinado por instâncias heterônomas, não possui liberdade para deliberar sua vontade com absoluta autonomia.  No seu artigo “Educação e Emancipação”,  Adorno diagnosticou que nossa época carece de esclarecimento, uma vez que existe uma “pressão inimaginável exercida sobre as pessoas, seja simplesmente pela própria organização do mundo, seja num sentido mais amplo, pelo controle planificado até mesmo de toda a realidade interior pela indústria cultural.” (ADORNO, 1995, p. 181)  As pessoas são formadas pela sociedade mediante várias instâncias mediadoras, de tal modo que tudo absorvem e aceitam em termos desta configuração alienada. Desse modo, a formação dos sujeitos se confunde cada vez mais com um adestramento, com uma adaptação aos mecanismos que regulam a produção e que se disseminam para todo o âmbito da vida. (MAIA, 2007)

        Em sua obras,  Adorno refletiu profundamente sobre a dissolução do sujeito autônomo.  No ensaio Sociedade, ele afirma que de maneira planejada  “os sujeitos são impedidos de saberem como sujeitos. A oferta de mercadorias  que se abate qual avalanche sobre eles  contribui para isto,  da mesma forma que a indústria cultural e incontáveis mecanismos diretos e indiretos de controle”.  (ADORNO apud MAAR, 2009, p.26).   Os meios de comunicação, em nossa época, representaram a degradação da formação cultura e, em consequência disso, a perda da autonomia dos sujeitos. No ensaio “Teoria da Semicultura” (1996), Adorno mostrou que  a  formação cultural converteu-se em semiformação, entendida como uma espécie de semicultura, cuja característica é ser  unidimensional e  limitada. A semiformação é uma formação “definida a priori”, que tornou-se “forma dominante da consciência”, convertendo-se em “semiformação socializada”,  sob a determinação da indústria cultural.   Todos os produtos e as criações da indústria cultural estão voltados e adaptados ao consumo de massa. Os produtos são criados com o fim da rentabilidade econômica, de integração e adaptação dos indivíduos a sociedade do consumo. Se a formação cultural da burguesia exigiu um certo esforço intelectual, concentração espiritual e sensorial, a semiformação, ao contrário,  simplificou os elementos complexos, adaptando-os e tornando-os desprovidos de qualquer conteúdo espiritual. Os conteúdos críticos, negativos e emancipadores foram neutralizados, perdendo suas características transcendentes.  A cultura converteu-se, assim, num valor, tornou-se adaptação ao conformar os indivíduos a vida real.  Em consequência disso, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação da massa, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram  uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso acabou por anular a ideia do homem. (HORKHEIMER, 1976)

            Com o advento da indústria cultural,  os sujeitos têm sua formação mediada por imagens. Nas sociedades pré-capitalistas  a civilização ocidental valorizava as palavras, o discurso. Já no século XX, com a difusão dos meios de comunicação de massa,  a tradição escrita foi abalada. As imagens tornaram-se mais importantes que a escrita.  Elas ganharam grande poder ideológico, pois modificaram a realidade e adulteram-na em benefício dos interesses de classe. Segundo Sontag (1981),  uma sociedade torna-se moderna quando uma de suas principais atividades passa a ser a produção e o consumo de imagens, quando as imagens passam a determinar nossas exigências com respeito à realidade e são elas mesmas substitutas cobiçadas da experiência autêntica, tornam-se indispensáveis a boa saúde da economia, à estabilidade política e à busca da felicidade individual. Quando Adorno e Horkheimer pensaram  a ideia de esquematismo Kantiano,   no ensaio Indústria Cultural,  eles estavam entendendo que os meios de comunicação de massa produzem uma engenharia do real. Ela constrói a realidade como representação com o ampara da técnica e do capital, impedindo os indivíduos de atingirem a verdadeira consciência da realidade.  A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, de referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomada ao sujeito pela indústria cultural. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente. (ADORNO, 1985)

           Na avaliação de Adorno (1995), a organização social ao qual vivemos continua sendo heterônoma, uma vez que ninguém mais pode existir na sociedade atual conforme suas próprias determinações. Por esta razão, ele pensa que somente a educação pode emancipar os sujeitos. Mas, para isso, é imprescindível uma educação política, que desenvolva nos sujeitos a consciência de que os homens são enganados de modo permanente. Ele acredita que se todos ganhassem consciência em relação a essas questões, isso poderia resultar em uma critica imanente da sociedade.

           No pensamento de Adorno, “a teoria social é na realidade uma abordagem formativa, e a reflexão educacional constitui uma focalização político-social. Uma educação política”. (MAAR, 1995, p.15)  Em seus textos sobre educação, ele demonstrou seu otimismo em relação  ao homem  para se aperfeiçoar, se instruir,  superando as crenças, as superstições e toda forma de tutela,  tornando o senhor de si mesmo.   O sujeito esclarecido é aquele que se serve de seu próprio entendimento sem a tutela de outro indivíduo.  Do ponto de vista do Esclarecimento,  a liberdade exige a autonomia plena da razão perante lógicas externas, heterônomas a ela. Nesse sentido, a educação, segundo o frankfurtiano,  deve visar à autonomia e  à emancipação.  É necessário que se volte às contradições sociais e não tente negar sua existência, para isso, deve ser sobretudo educação política. A educação também deve se voltar para a crítica da ideologia, disseminada pela indústria cultural. Adorno sugere que o filme, o jornal, o livro, na escola, sejam alvos de análise por professores para a explicitação dos mecanismos utilizados nesses produtos, que visam a captar o consumidor, e o levam a manter desejos infantis. (CROCHIK,2007) Assim, o processo pedagógico deve desenvolver a capacidade de informação e entendimento para uma análise e avaliação da sociedade em que vivemos. Ela deve preparar os sujeitos para a não aceitação, a manifestação, o afrontamento e a revolta, pois nos ensina a romper com as maneiras de ver, sentir e compreender as coisas.

         A primeira exigência da educação para Adorno (1995)  é que “Auschwitz não se repita”. Qualquer debate sobre educação que não leve em consideração esse princípio não tem sentido, carece de importância. Cabe aos estabelecimentos de ensino, portanto, desvelar os mecanismos que levam as pessoas a cometerem tais atrocidades.  É necessária uma consciência geral acerca desses mecanismos. Desse ponto de vista, a educação deve desenvolver  uma sensibilidade contrária a violência,  e sensível aos oprimidos, carentes e necessitados; que desvele os mecanismos de opressão da sociedade administrada, e que pense a violência e barbárie cometidas pelo mundo ocidental. Assim, “a única concretização efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contestação e para a resistência.” (ADORNO,  1995, p. 183)

      Para que os indivíduos se emancipem,  é necessário que eles compreendam os mecanismos que produzem a consciência alienada.  Em Mínima Moralia, Adorno (1993) afirma que quem quiser saber a verdade acerca da vida imediata tem que investigar sua configuração alienada, investigar os poderes objetivos que determinam a vida individual. Ou seja, para se compreender o mundo em que vivemos é necessário o esclarecimento sobre os mecanismos pela qual a cultura se converte em  mercadoria,   e a sociedade, em seu processo de reprodução material,  torna-se reificação, determinando as condições objetivas da subjetividade. Assim, a emancipação como “conscientização”‘ é a reflexão racional pela qual o que parece ordem natural, essencial na sociedade cultural, decifra-se como ordem socialmente determinada em dadas condições de produção real efetiva da sociedade. (MAAR,  2003)

         O que se torna relevante  é que os indivíduos sejam capazes de julgar a sociedade contemporânea. Para isso, devem ter a capacidade de informação e entendimento para uma análise e avaliação das sociedades em que vivem. Assim, é através da escola que se deve fomentar a prática política que leve a cabo desenvolver nos sujeitos a consciência das possibilidades transcendentes de liberdade. Desse modo, a educação em Adorno é uma “pedagogia do esclarecimento”, onde “a educação política é levada a sério e não como simples obrigação inoportuna” (ADORNO, 1995, p.45). Nesse sentido, a emancipação só pode se tornar possível a partir do desvelamento dos fundamentos ocultos da dominação.  Desse modo, será possível uma mudança na percepção do mundo capitalista por parte dos sujeitos, expondo publicamente as ideologias, os interesses de classe, a manipulação dos fatos,   a relatividade da ordem e dos valores.  A educação é herdeira da ilustração, uma vez que sua tarefa é esclarecer, é explicar como as coisas são,  como as coisas funcionam. O individuo educado amplia seus horizontes, alarga sua mente, desafia o que está dado e constituído.  Mesmo sendo sujeitos singulares, com vontades e interesses particulares, devem transcender a mera subjetividade. Com isso, amadureceriam e compreenderiam as forças históricas que poderiam transformar a sociedade em uma verdadeira universalidade. Em função disso, surgiriam novos valores morais, estéticos e intelectuais, que apontariam para a construção de uma existência pacificada

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1985

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________. Educação e emancipação.  São Paulo: Paz e Terra, 1995.

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CROCHÍK, J. L.. Educação para a resistência contra a barbárie. In: Revista Educação, Coleção Especial: Biblioteca do Professor, Adorno pensa a Educação. São Paulo: Editora Segmento, ano 2, n. 10, p.16-25, 2009.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. Rio de janeiro: Labor  do Brasil, 1974.

MAAR, Wolfgang  L. À guisa de introdução: Adorno e a experiência formativa. In T. W. Adorno, Educação e Emancipação (4ª ed., pp. 11 – 28). São Paulo: Paz e Terra, 1995.

 _______Adorno, Semiformação e Educação. In: Educação e  Sociedade., Campinas, vol. 24, n. 83, p. 459-476, agosto 2003

 ______.A formação da sociedade pela indústria cultural. In: Revista Educação, Coleção Especial: Biblioteca do Professor, Adorno pensa a Educação. São Paulo: Editora Segmento, ano 2, n. 10, p.26-35, 2009.

MAIA, Ari F. Contradições da Moralidade na vida danificada.  In: Revista Educação, Coleção Especial: Biblioteca do Professor, Adorno pensa a Educação. São Paulo: Editora Segmento, ano 2, n. 10, p.46-55, 2009.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre a Fotografia. Trad. Joaquim Paiva. Ed. Arbor, RJ, 1981.

Pierre Bourdieu: educação, trabalho e a manutenção da ordem social

 Por Michel Aires de Souza

       Desde o iluminismo, no século XVIII, a educação sempre foi vista como uma instância de transformação e equalização social, estando ligada a princípios democráticos.  Os iluministas  acreditavam que  por meio da educação   o homem como construtor da cultura  deveria ser capaz discernir,  avaliar e agir com autoconsciência para modificar sua própria vida e da existência social como um todo. Acreditavam que a educação formaria o cidadão consciente e participativo, pois o indivíduo ativo seria o fundamento da sociedade democrática.   Essa visão democrática da educação foi desconstruída por Bourdieu e Passeron,  a partir da publicação do livro “A reprodução: elementos para uma teoria dos sistemas de ensino” (1970).  Eles demonstraram,  através de um farto material de pesquisas empíricas,  que a educação não é uma instância de equalização e mobilidade social,  ao contrário,  é uma instância de conservação e reprodução da desigualdade social.

         Bourdieu (2007) desvelou  em sua época  que um jovem da alta burguesia tinha oitenta vezes mais chances de entrar na universidade que o filho de um assalariado agrícola  e quarenta vezes mais que um filho de operário, e suas chances eram duas vezes maior que um jovem da classe média. Ele percebeu ainda  uma nítida  diferença de desempenho escolar  entre as crianças pertencentes as famílias mais abastadas e as crianças  pertencentes as classes populares.  Ao analisar  esse fenômeno,  chegou a conclusão que não se tratava de dádiva divina, de dons inatos ou  de qualidades  naturais. Os estudos mostravam que as crianças pertencentes as elites chegavam à escola munidos de um grande capital cultural e de determinados valores e formas de  comportamento (Ethos), que os diferenciavam das crianças das classes populares. Foi a partir do conceito de capital cultural que Bourdieu compreendeu as desigualdades de desempenho escolar dos alunos de diferentes classes sociais. As classes dominantes ensinavam  a seus filhos, provavelmente de modo lúdico e espontânea, um conjunto de conhecimentos e referenciais linguísticos, algumas habilidades e formas de comportamento,  que apenas os mais bem sucedidos possuíam.  Esse capital cultural foi entendido por ele  como um conjunto de saberes, conhecimentos, competências e esquemas mentais adquiridas na família e que, posteriormente, seria desenvolvido pela escola.

            Para Bourdieu,  a cultura transmitida pela escola seria uma cultura de classe. Ela  não estaria fundamentada em nenhuma razão objetiva universal.  É a cultura escolar que decide o que é estimável ou insignificante, distinto ou vulgar, bom ou ruim. Nesse sentido,  não há nenhuma justificativa racional para o fato de se estudar a pintura ao invés da história em quadrinhos; a história da Europa em detrimento da história da África; a música clássica ao invés do Funk ou Hip Hop.  A organização das disciplinas, os conteúdos,  a organização do sistema escolar  surgem como produto das relações de força de uma determinada formação social.  Do mesmo modo, os valores, preceitos, atitudes, comportamentos e conhecimentos apreendidos na escola são, por definição, arbitrários.  Bourdieu entendeu a cultural escolar como uma forma de violência simbólica, e, mais explicitamente, como dominação simbólica. Para ele,  a escola é reprodutora dos valores, do imaginário e das condições sociais dominantes do sistema cultural. A escola é o principal meio pela qual o sistema de domínio social se constitui se mantêm e se perpetua.

           O grande objetivo da ação pedagógica para Bourdieu  é inculcar um habitus de classe”.  O “habitus” foi entendido por ele como estruturas sociais incorporadas,  que produzem disposições para pensar, sentir e agir. Segundo Catani, “o habitus, constituído por um conjunto de disposições para a ação, é a história incorporada, inscrita no cérebro e também no corpo, nos gestos, nos modos de falar ou em tudo o que somos. É essa história incorporada que funciona como princípio gerador do que fazemos ou das respostas que damos à realidade e na realidade social (CATANI, 2007, p. 20).   A ação pedagógica é, portanto, um trabalho de inculcação dos valores, preceitos, modos de ser, pensar e agir socialmente valorizados.

          A sociedade capitalista é uma sociedade extremamente hierarquizada e desigual, organizada segundo uma divisão injusta de renda, privilégios e poderes.  As melhores posições na estrutura social dependem das qualificações dos indivíduos.   Contudo,  a boa qualificação tornou-se  monopólio das classes dominantes.  A educação, ao  privilegiar os mais dotados de capital cultural,   beneficia as crianças das classes sociais mais favorecidas. São essas crianças que serão mais bem qualificadas e ocuparão as posições mais importantes no mercado de trabalho. Ao contrário, as crianças das classes populares, por não possuírem o capital cultural, fracassam mais facilmente no percurso escolar, pois possuem mais dificuldades de dominarem os códigos que a escola valoriza. Desse modo, a educação reproduz as desigualdades sociais e colabora para a manutenção das estruturas sociais.

         Para Bourdieu,  um dos papéis do cientista social é descrever a lógica de funcionamento das estruturas sociais.  O espaço social aparece como um conjunto de relações invisíveis, objetivas, entre as posições ocupadas nas distribuições de recursos ou poderes,  que podem ser usados de modo eficiente para se apropriar de bens que estão em disputa. Esse espaço de relações sociais é tão real como o espaço geográfico. Para que o indivíduo mude de lugar,  nesses espaços,  é necessário tempo, trabalhos, sofrimentos, esforços. Os agentes trazem as marcas e os estigmas desses esforços. Por causa disso, o espaço social é um espaço de conflito, de luta simbólica, onde os agentes e grupos dominantes procuram manter sua posição de domínio.

        O capital econômico e o capital cultural são as formas de capital mais importante para estruturar o espaço social, uma vez que fornecem os principais critérios de diferenciação simbólica.  Para Bourdieu (2004),  há duas dimensões do espaço social.  Na primeira dimensão,  os agentes se posicionam segundo o volume global de capital que possuem, formando uma hierarquia de cima para baixo. Quanto maior o capital e quanto mais diferenciado ele for,   melhor a posição do agente na estrutura social.  A partir dessa perspectiva,  os empresários, os profissionais liberais, os professores universitários, por possuírem um capital maior e diferenciado, se opõe globalmente aqueles desprovidos de capital econômico e cultural, como os operários, trabalhadores do setor de serviços ou agricultores.  Na segunda dimensão, os agentes se posicionam de acordo com a estrutura do seu capital, ou seja, segundo a importância do capital que possuem.  Quanto maior o peso relativo do capital econômico ou do capital cultural  que possuem,  maior é sua diferença e distinção em relação aos outros agentes. Nesse sentido, os grandes empresários e comerciantes se opõe ao professores universitários,  por possuírem maior capital econômico. Do mesmo modo,  esses últimos se opõem aqueles, por possuírem um maior capital cultural. Poderíamos distinguir também, em um nível inferior, os professores de ensino médio em oposição aos pequenos comerciantes. Os funcionários de escritório em oposição trabalhadores da fábrica.

           A grande parte das diferenças entre os agentes é determinada pela ocupação social. É o Estado que produz as classificações oficiais, sendo o tribunal supremo que possui o monopólio da nomeação legítima. É o Estado que determina as taxonomias oficiais.  Ao nomear os agentes,  segundo sua atividade ou profissão,  o Estado anula todas as diferenças constitutivas do espaço social, tratando uniformemente todas as posições como ocupações: empresário, comerciante, professor, faxineiro, etc.

            Essa classificação do Estado sobre as ocupações tem nitidamente o objetivo de criar uma visão legitima do mundo social. Há uma naturalização das hierarquias ocupacionais, que passam a ser aceitas de modo natural, como se as posições no espaço social fossem dadas a priori. Os nomes de profissões que os agentes possuem, e os títulos que os nomeiam,  são marcas distintivas, que podem ser positivas ou negativas, recebendo seu valor da posição que ocupam na hierarquia da taxionomia estabelecida. A ocupação determina a posição do agente no espaço social. Por esta razão,  os agentes buscam, cada vez mais, títulos para maximizar ganho simbólico e mudar de posição na hierarquia social.    “O título profissional ou escolar é uma espécie de regra jurídica de percepção social, um ser-percebido que é garantido como um direito. É um capital simbólico institucionalizado, legal (e não apenas legítimo)”. (BOURDIEU, 1989, 148-9)

           O título profissional e a ocupação representam o capital simbólico, dando  notoriedade, prestígio e crédito aqueles que os possuem. São as instituições do Estado,  como instâncias de poder,  que legitimam e dão credibilidade a esses títulos e ocupações. Trata-se do desejo de reconhecimento, de ser percebido, de ser importante para as outras pessoas, de se possuir certas propriedades distintivas. O que os agentes buscam  é adquirir identidade social. O espaço social surge como uma luta simbólica, em que os agentes buscam, cada um por si, construir uma reputação. Eles buscam acumular capital simbólico para que adquiram carisma, prestígio e reconhecimento por seus méritos e qualidades especiais. A busca de títulos, bens culturais e  ocupações no espaço  social se fundamenta numa vontade de distinção social.

            Devido às grandes exigências do mercado de trabalho,  a educação tornou-se em nossa época um bem conspícuo. Os indivíduos para se diferenciarem simbolicamente  procuram adquirir capital cultural.    Quando procuramos os serviços de um engenheiro, médico ou advogado, torna-se claro que estes agentes são reconhecidos como profissionais, que possuem certos atributos essenciais da sua profissão. Ao contrário, o agente que trabalha em uma lanchonete, no escritório ou limpando casas não é definido como profissional, mas como um ocupante de um posto de trabalho, que faz uma tarefa ou exerce uma atividade.  Para Bourdieu (1989),  o título é em si mesmo uma instituição, assim como a língua. É uma marca distintiva legitimada pelo Estado e reconhecida socialmente. É por meio dos títulos que os agentes são percebidos, reconhecidos, respeitados e adquirem credibilidade. Estudar em uma grande escola, fazer um curso no exterior, falar línguas ou produzir artigos científicos são formas de agregar valor a si mesmo, obtendo capital simbólico para adquirir algum recurso, poder ou vantagem no mercado de trabalho.   Ao receber valor pela ocupação ou pelo título profissional que possui, em um mundo hierarquizado pelas distintas formas de capital, isso contribui para a identidade social do agente e determina sua posição no grupo ou classe social ao qual pertence.  O campo do trabalho enquanto relações objetivas entre posições em disputa é o lugar e o espaço de uma luta concorrencial. O que está em jogo  é o capital simbólico e o capital econômico, que não somente propiciam prestigio, poder e bens materiais, mas propiciam acima de tudo uma posição na estrutura social. Por esta razão,  é um campo de grande luta simbólica.

         A sociedade do consumo é o modo de produção e  reprodução material e espiritual,  que expande e transforma o consumo de mercadorias  no principal fator das relações e das práticas sociais.  A educação, ao reproduzir as desigualdades sociais, insere-se nesse processo, na medida em que produz um tipo específico de mercadoria: o indivíduo. A formação escolar determina quais serão aqueles que ocuparão as melhores posições na estrutura social. Contudo,  ela encobre o fato que essas posições já estão determinadas a priori, serão ocupadas por aqueles provenientes das famílias mais privilegiadas, com um nível maior de capital econômico e capital cultural. Ela encobre esse fato pela ideologia do dom e do esforço individual. O sistema de ensino partiria do princípio  que todos competiriam em condições iguais,  e aqueles que se destacassem, por seus dons individuais ou por seus esforços, por uma questão de justiça, seriam promovidos na vida escolar e, posteriormente, na vida profissional. É essa ideologia que legitima a educação e a torna uma promessa de felicidade. Desse modo, a educação torna-se um instrumento de manutenção da ordem social.

BIBLIOGRAFIA

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CATANI, Denise. B. A educação como ela é. Revista Educação, São Paulo, vol. 5, Especial: Biblioteca do Professor,  Bourdieu pensa a Educação, p.16-25, set. 2007

NOGUEIRA, Maria A. e NOGUEIRA, Claudio.M.M. A sociologia da educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições. Educação & Sociedade, ano XXIII, no 78, Abril/2002. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/es/v23n78/a03v2378.pdf&gt; acesso em Dezembro de 2015

Uma breve reflexão sobre o amor

  Por Michel Aires de Souza

      O amor em sua essência tem um duplo sentido. O mito do nascimento de Eros nos mostra a ambivalência do amor.  Esse mito foi contado por Diotina da Mantineia em um debate com Sócrates, no livro o Banquete de Platão, escrito no século IV antes de Cristo.  O mito mostra-nos os dois lados de Eros. Quando Afrodite a Deusa da beleza nasceu,  todos os deuses foram convidados, exceto Pênia (a Penúria).  A Deusa Pênia é a personificação da miséria. Por onde ela passa produz a escassez e a carência. Mesmo não tendo sido convidada para a festa, a Deusa dos desgraçados e miseráveis decide entrar para se alimentar dos restos de comida, pois estava morrendo de fome.  Ao Percebe que todos os deuses estavam distraídos, se divertindo,  começa a comer.  No jardim encontra Poros (Abundância) embriagado, filho de Metis (A Prudência), personificação da riqueza.  Com isso faz amor com ele. Daí surge Eros, Deus do Amor.  Ao ser gerado no dia do nascimento de Afrodite, a Bela, Eros ama o belo, está sempre em busca da beleza. Mas sua vida é trágica. Como sua mãe Eros está sempre carente, mendigando. Ele sente-se infeliz e abandonado, sempre na penúria. Mas por outro lado, por ser filho de Póros, é astuto, engenhoso e calculista. Está sempre em busca da beleza. Quando consegue conquistá-la sente plenitude e felicidade.

        O amor é carência e plenitude ao mesmo tempo. Aquele que ama sente um vazio, uma falta, uma privação, que somente se dissipa através do outro.  O amor é uma busca constante para aplacar a dor da falta.  Nós amamos no outro a nossa incompletude. Como disse Marcel Proust, “só se ama o que não se possui completamente”. Por outro lado, o amor é pleno, belo, alegre e feliz. O outro nos preenche na medida em que satisfaz o nosso vazio interior. Nesse sentido,  o amor é uma linha tênue entre a carência e a abundância, a tristeza e a felicidade, o vazio e a plenitude. Quando dois indivíduos transcendem através do amor, eles se tornam plenos de felicidade, de abundância, não necessitam de mais nada para viver.

        Contudo, é perigoso o amor que pensa encontrar no outro um pedaço de si mesmo. Amar no outro a si mesmo é poder perder-se a si mesmo. A pessoa apaixonada afirma: “Eu e você somos um só”. No auge do sentimento do amor as fronteiras entre o eu e a pessoa amada ameaçam desaparecer. O individuo se despersonifica, se desindividualiza, torna-se outrem. Os sentimentos e emoções afetam o indivíduo independentemente de seu consentimento.   É nesse sentido que podemos entender o conceito de paixão. A partir de sua etimologia, paixão vem de pathos, que em grego tem a mesma raiz de sofrer, suportar, deixar-se levar por. O amor intenso, fulminante e perturbador da alma, impede o homem de perceber os acontecimentos com clareza. Também é nesse sentido que o amor, entendido como uma paixão arrebatadora, é doentio e perigoso, portanto, deve ser controlado. O verdadeiro amor consiste em doar-se, sem se anular. Amar é preservar a individualidade e a diferença do outro, sem perder de vista nossa própria individualidade. Amar é admirar e estar comprometido com a realização do outro. O ato de amar implica cuidados, responsabilidade, respeito e autoconhecimento.

       Os Gregos tinham três palavras para definir o amor: Philia, Ágape e Eros.  A palavra Philia refere-se à amizade.   A amizade é um amor incondicional, pois não impõe condições ou limites para se gostar. O amor entre amigos é desinteressado.  A confiança é o seu fundamento. Na amizade compartilham-se os pensamentos e os segredos, pois amigos são francos, nada se esconde um do outro.  O companheirismo, a preocupação, o respeito, a lealdade, o carinho são as características fundamentais de toda amizade. A palavra Ágape, por sua vez, refere-se ao amor fraternal. Surge do preceito cristão “amai uns aos outros como eu vos amei”. Era usada nos textos antigos para designar uma boa refeição em ritos de ação de graça. Daí surge à noção de eucaristia e caridade. É um tipo de amor universal ligado ao desprendimento, à filantropia, à generosidade e à fraternidade entre os homens. É o amor pela humanidade. Por último, Eros é o amor romântico e tem um caráter sexual.  Ele está ligado à atração e ao desejo, pois é fisiológico e se torna fundamental para a reprodução da espécie. No amor erótico dois indivíduos são atraídos, se apaixonam e buscam a felicidade mutuamente. Contudo, Eros é ambivalente e tem uma influência fundamental na personalidade humana.  Ele produz grande satisfação e felicidade, mas pode desorientar o indivíduo mais conservador, pode destruir relações de amizade, acabar com casamentos, interrompe tarefas e destruir a vida de uma pessoa.

     A partir desses três conceitos podemos compreender melhor  a essência do amor. A relação amorosa é fundamental  para a felicidade dos indivíduos. O amor é um desejo de unidade e indivisão, de completude e de satisfação plena. O amor preenche a existência. A vida sem amor não vale a pena ser vivida. Por esta razão,  os três conceitos sobre o amor se tornam fundamentais para a vida amorosa.   O amor de Eros se desvela como um impulso de reprodução da espécie. Ele busca a satisfação do desejo, do prazer e da alegria. Contudo, o amor não se realiza apenas eroticamente, não se satisfaz apenas pela satisfação do prazer e da sexualidade.  A vida amorosa começa com Eros, pela apreciação da beleza, mas transcende a mera sexualidade. Por isso é necessário o amor de Philia, para gerar a amizade, a reciprocidade, o companheirismo, o respeito e a fidelidade. O amor de Philia valoriza a confiança, os projetos compartilhados, o cuidado, o afeto e o carinho pelo outro. Contudo, não há amor pleno sem Ágape, pois a generosidade, a preocupação e a doação de si também são fundamentais para a vida amorosa. Nesse sentido a vida plenamente feliz no amor só pode existir através de Eros, Philia e Ágape.   Se faltar um desses três ingredientes não há amor. No amor não há interesses, mas somente afeição entre duas pessoas. A gratidão, a tolerância, o zelo, a amizade, o desejo, a paixão, a generosidade, a doação de si são produtos e ingredientes do amor. Como afirma uma passagem da Bíblia: Coríntios 13:4-7, “o amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.“.